Crítica | Stranger Things: 2º Temporada

A segunda temporada de Stranger Things estreou na Netflix com a promessa de manter a essência que cativou o público e ao mesmo tempo ampliar seus horizontes, desenvolvendo seus personagens um ano após os acontecimentos do primeiro ano da série. Isso de fato aconteceu, incluindo boas atuações e adições no elenco que foram quase perfeitas.

No entanto, algo muito comum em séries da Netflix também ocorre em Stranger Things. A sensação de assistir a uma história maior em termos de duração do que deveria é algo nítido. Desta forma, os dois primeiros episódios parecem grandes demais para a história que apresentam, mesmo com a necessidade de contextualizar a situação após o ano de estreia. No sétimo capítulo, onde Eleven (Millie Bobby Brown) se aventura em um filler – que tem suas qualidades e esse não é o problema – a sensação é que o episódio focado apenas nisso traz um anti-clímax para a temporada, principalmente devido aos acontecimentos que se concentravam em Hawkins.

A série criada pelos irmãos MattRoss Duffer esteve concorrendo nas principais premiações da última temporada e na próxima não deverá ser diferente. A construção detalhada dos figurinos e cenários dão ao seriado uma ambientação bastante crível e não é só isso. A química entre o elenco, que já era ótima, parece ter aumentado e há um entrosamento muito grande entre os atores. A temporada como um todo demanda mais ambição em termos gerais, desde aspectos como roteiro, que no entanto, apresenta muitas conveniências (personagens que chegam na hora certa são uma delas). Já os efeitos especiais melhoram bastante, com destaque para os monstros e a cena final de Eleven muito bem executada. 

Como disse no início desta análise, a essência de Stranger Things é o ar oitentista que a série carrega, com todas as referências à cultura pop da época. Neste ano, a série mantem esse estilo mas não parece fazer questão de investir pesado no aspecto nostálgico, o que é um acerto. Ao focar nas consequências dos acontecimentos passados e criar uma nova situação de perigo, a série amplia sua mitologia e inverte a posição de seus personagens.

Grande destaque na temporada passada, Finn Wolfhard demosntra mais uma vez ser um bom ator e o menino dá conta do recado, principalmente pelo fato de que Mike agora carrega o peso dos acontecimentos que afetam diretamente Will. Há uma interessante inversão de protagonismo entre os amigos. Obviamente mais escondido no primeiro ano, Noah Schnapp toma a temporada para si e também demonstra muito talento, principalmente pelas nuances de seu personagem. 

Sem comprometer, Caleb McLaughlin e Gaten Matarazzo continuam sendo personagens carismáticos, com este último sendo o maior alívio cômico novamente. A chegada de Max (Sadie Sink) dá uma nova perspectiva ao grupo e permite também dar aos personagens novas camadas, como o surgimento de um romance. Como eles irão reagir poderá impactar na dinâmica entre eles na terceira temporada. 

O elenco adulto continua muito bom e Winona Ryder tinha tudo para sair de si ainda mais. No entanto, desta vez o tom dado para Joyce foi mais equilibrado. Outro grande nome da temporada foi David Harbour. Jim Hopper não é um personagem simples de se entender e agora, com essa camada paternal adicionada, ele cresce bastante em termos de motivação e importância.

Os adolescentes movem a trama paralelamente, algo que acontece entre todos os núcleos durante a temporada, a propósito. A estratégia do roteiro de dividir os personagens em duplas e trios possibilita inclusive boas interações, como por exemplo Steve (Joe Keerye as crianças. Caso contrário, o personagem estaria sobrando na história depois do término de seu namoro e a solução encontrada foi ótima. Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) não apenas resolvem a relação entre si mas contribuem com uma parte da história, embora o arco do casal tenha sido um pouco extenso. 

A decisão de manter Eleven fora do andamento principal possibilitou um desenvolvimento maior de seu passado. É bem provável que isso não pudesse acontecer com ela inserida no contexto da trama de Will e os demais. Agora temos um conhecimento maior sobre sua mãe e origem, no entanto, a personagem parece funcionar melhor quando está junta de seus amigos. Essa junção poderia ter acontecido um pouco mais cedo. Ao ficar confinada, sua participação soou como repetitiva, pois foram seis episódios até que ela enfim saísse e fosse encontrar Kali (Linnea Berthelsen), personagem que parece ter um futuro promissor na série ou, quem sabe, um spin-off.

A inserção de Bob (Sean Astin) fez com que o personagem fosse ganhando importância ao longo dos episódios, gerando empatia por parte do público. A estratégia do roteiro em matá-lo é dar peso a sua perda, além de gerar uma consequência que pudesse ser sentida. Porém, o personagem merecia mais tempo de tela. Não tão bem aproveitado, Billy (Dacre Montgomery) é introduzido para fazer com que no mundo real, haja também um antagonismo. Sua segunda camada, no entanto, demora muito a vir e isso poderia ter sido melhor explorado.

Nesta segunda temporada, Stranger Things expande sua mitologia, dosa humor com um clima de aventura e um bom suspense, além de manter o padrão estabelecido desde o primeiro ano da série. As reverências e referências aos anos 80 continuam mas não é algo tão intenso quanto no início, o que dá mais identidade a criação dos irmãos Duffer. Não há tanta ousadia mas o terreno ainda continua fértil e a terceira temporada tem muitas possibilidades em aberto para serem exploradas.

Avaliação: 


que aqui e curta a Quarta Parede no Facebook

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

Deixe seu comentário: