Crítica | Terra Selvagem: um estudo violento sobre natureza humana e superação da dor

Estamos entrando em uma época em que muitos dos filmes posteriormente indicados ao Oscar serão exibidos. É bem provável que Terra Selvagem (Wind River) passe despercebido por conta da ausência de uma grande publicidade em torno de si (tomara que não). Fato esse que não diminui a qualidade do longa, que pode ser classificado como um dos melhores exibidos em 2017.

No filme, Cory (Jeremy Renner) é um caçador de coiotes e predadores traumatizado pela morte da filha adolescente. Quando ele encontra o corpo congelado de uma menina em meio ao nada, em uma remota Área de Preservação Indígena Americana, inicia-se uma investigação sobre o crime com o auxílio de uma agente novata do FBI (Elizabeth Olsen) que desconhece a região.

A direção é de Taylor Sheridan, roteirista indicado ao Oscar pelo ótimo A Qualquer Custo, dirigido por David Mackenzie. Ele também escreveu o excelente Sicário, de Denis Villeneuve. Aqui ele explora mais uma vez a fronteira norte-americana moderna, dirigindo e escrevendo um drama envolto em suspense e mistério, em um local onde o vazio é predominante. Tanto no sentido geográfico de uma região fronteiriça, quanto no estado emocional de seus personagens. Sheridan sabe como trabalhar a atmosfera, usando constantemente planos abertos que não servem apenas para dar magnitude ao filme ou mostrar a imensidão da região. Eles ajudam a contar a história e auxiliam na compreensão do que está acontecendo em tela.

O filme possui uma trama relativamente simples, a partir do momento em que o assassinato vai ser investigado. No entanto, o Terra Selvagem vai muito além disso e Sheridan nos convida a pensar e como os personagens. Em um ambiente gelado e inóspito, onde o próprio ambiente é um obstáculo a ser superado, o roteiro aborda assuntos como violência, luta pela sobrevivência, a relação entre o indivíduo e o local em que vive (ou onde não deveria viver), e a superação da dor.  O filme também cumpre um papel importante que é, a partir de sua inspiração em fatos daquela região, denunciar acontecimentos que acontecem e permanecem sem solução.

Os diálogos são escritos de forma que auxiliam o desenvolvimento dos personagens. Transmitindo culpa, angustia e inquietação, é permitido ao público ir tirando suas conclusões a partir do quebra-cabeças que vai sendo montado. Além disso, há momentos em que nós nos vemos em meio a determinados conflitos morais sobre certas situações. A recompensa vem de forma muito satisfatória no terceiro ato. E edição é crucial para que a narrativa não perca o fôlego e faça com que o filme se desenvolva com calma e sem perder o ritmo. Além disso, a trilha sonora é melancólica e inquietante, colocada nos momentos certos.

Os personagens principais tem um desenvolvimento bastante satisfatório em Terra Selvagem. Com uma ótima atuação, Jeremy Renner carrega uma introspecção necessária ao seu personagem, de personalidade calma e que nos guia de forma serena pela situação, mesmo quando ele expõe seus demônios. Sua interpretação é essencialmente contida em muitos momentos mas não deixam de emocionar. Um exemplo disso são diálogos que Cory tem no começo do filme com o seu filho, demonstrando admiração e respeito pelo local que o cerca e transmitindo bons valores ao menino. Suas duas últimas cenas também são emocionantes, uma com a agente Jane e outra com Martin, um nativo que mais uma vez é interpretado (muito bem) por Gil Birmingham.

Representando o oposto do outro protagonista, Elizabeth Olsen consegue passar o nervosismo inerente a sua personagem, uma jovem agente que é enviada para o local sem nenhum tipo de preparo. A câmera faz questão de nos mostrar isso. Cory é visto por nós através de uma visão calma e mais estável. Quando estamos de olho em Jane a câmera treme e transmite toda a necessidade da personagem em resolver o caso, ao mesmo tempo em que ela precisa se manter determinada em meio a situação inusitada e as condições climáticas e geográficas adversas, que jogam contra.

Mais do que um suspense ou uma trama que gira em torno da resolução do mistério, Terra Selvagem fala sobre a dor de uma forma sensível e ao mesmo tempo não convidativa. O filme é um estudo da natureza humana quando ela é testada em condições adversas. Em alguns pontos ele nos incomoda mas sentimos a necessidade de abraçar a jornada dos personagens e entender suas motivações. Taylor Sheridan demonstra que é um nome em que devemos prestar atenção, tanto escrevendo quando atrás das câmeras.

Avaliação: 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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