Crítica | The Walking Dead 8×02: ‘The Damned’ e o ciclo do questionamento moral

Dando continuidade e como não deveria deixar de ser, The Walking Dead apresentou em The Damned a sequência dos planos de Alexandria, Hilltop e o Reino, na investida contra os Salvadores. Foram 41 minutos de muitos tiros em forma de ação frenética, além de uma velha discussão em torno da humanidade dos personagens.

Em termos de estrutura narrativa, é necessário dizer que a série tornou-se mais acessível nesses dois episódios iniciais, ao equilibrar seus núcleos e dosar os elementos de ação com discussões pertinentes ao cenário apocalíptico. É necessário lembrar, no entanto, que tal fato também ocorreu no início da 6º temporada, com uma sequência de três ótimos episódios, interrompidos pela história de Morgan e como ele parou de matar. Coincidentemente, em The Damned, embora não haja uma figura central, Rick, Jesus e o próprio Morgan assumem os papéis que nos guiam por essa jornada moral.

Invariavelmente, nesse vai e vem emocional que a série se tornou ao longo de sete temporadas, seria um erro não levantar essa bandeira também neste oitavo ano, mesmo que haja uma batalha que alcança as últimas consequências. Afinal de contas, em uma guerra, por mais que o inimigo seja impiedoso, há uma figura central, alguns líderes e muitos soldados. Enquanto uns escolheram estar no campo de batalha, outros não tiveram opção. Um pai que protege sua filha de Rick até as últimas consequências se encaixa em qual padrão? Não dá para saber. Mas a guerra também é feita de rendições e nesse sentido, a atitude de Jesus se mostra plausível, até mesmo em uma ofensiva contra Negan.

De forma bem acertada, a direção de Rosemary Rodriguez consegue captar de forma visceral a luta entre Rick e o homem, ainda que haja alguns cortes abruptos. A entrada no quarto da bebê e a forma como o líder de Alexandria se vê no espelho, com o rosto coberto de sangue e refletindo aquilo que ele se tornou é um momento tocante em meio ao caos gerado pelos conflitos. No entanto, a diretora não teve o mesmo exito ao coordenar as cenas do tiroteio do grupo de Aaron e Erick. Além de pouca inventividade e apenas pessoas atirando contra pessoas se escondendo, a forma como um zumbi recém transformado ataca Mara, a líder do local que resistia até o momento com bastante personalidade, foi risível.

A gangorra emocional de Morgan e sua instabilidade também é discutida com destaque neste episódio. Não matar, matar, não matar novamente, matar somente se for necessário e matar sem distinção. Assim é a sua personalidade construída ao longo do tempo. Em um ciclo que parece inevitável, ele retorna ao status em que Eastman o encontrou, antes de guiá-lo por um caminho de paz conforme vimos duas temporadas atrás. Os extremos parecem fazer parte da jornada do personagem e neste cenário, não é algo bom. Sua investida pelo lado sombrio é auto-destrutiva e desmedida. Embora o Morgan pacífico traga problemas ao grupo, o Morgan que assassina qualquer um que vê pela frente é a loucura personificada. Seguir as palavras de um consumido Rick ou de seu mentor? Eis mais um dilema moral.

Com uma espécie de encenação motivacional, Ezekiel acrescenta alguns discursos que a partir do ponto de vista de Carol soam como apenas como bravatas mas funcionam para o seu grupo. Isto após uma breve construção de tensão que serve apenas para abrir o episódio mas logo se dissipa com a fácil eliminação dos zumbis que surgem depois da explosão. O Reino é um núcleo bem peculiar em The Walking Dead e o seu rei é uma espécie de liderança lúdica em meio a seriedade dos eventos, o que não deixa de ser ameaçador quando Shiva entra em ação.

Um retorno inesperado

Ainda na primeira temporada, mais precisamente no episódio cinco cujo título é Wildfire, Morales (Juan Gabriel Pareja) deixa o grupo liderado por Rick e Shane, ainda em Atlanta. Na época o acampamento em que eles estavam havia sido invadido e ele decidiu ir com a família para o Alabama, um estado vizinho da Georgia, onde os acontecimentos da série se passam.

O programa já havia promovido o retorno de personagens secundários em temporadas anteriores, como nos casos de de Sam (Robin Lord Taylor), que aparece na quarta temporada no episódio Indifference (4×04), quando Rick e Carol saem em busca de suprimentos e o encontram com sua namorada. Nesta ocasião ele ganha o relógio de Rick, que é recuperado depois por Carol em Terminus. Lá, Sam retorna para morrer como um dos capturados em No Sanctuary (5×01).

Outro exemplo disso é Dwight, este com mais relevância para a trama. Introduzido na série em Always Accountable (6×06), o Salvador que aparentemente está mudando de lado agora, retorna em Twice as Far (6×14), em circunstâncias totalmente diferentes do que fora apresentado. É o que acontece em The Damned, indo o mais longe possível em uma tentativa que The Walking Dead  faz para dar novos rumos a sua trama.

A introdução de Morales como um dos Salvadores e completamente comprometido com a causa de Negan pode parecer um fato aleatório mas reforça algo importante: o fato de que um mundo cada vez mais vazio pode se tornar inversamente menor ao fazer os personagens andarem em círculos. Com líderes que dominam amplamente seus comandados, assumir posição é uma questão de sobrevivência. E agora, qual o tom de cinza que Morales está pintado a essa altura? Seria ele uma pessoa má por escolher um lado? Qual será o seu papel daqui para frente? São boas perguntas para serem respondidas.

Mantendo o foco em uma narrativa que prioriza a ação, The Walking Dead mantem um ritmo intenso mas ainda não definiu qual o caminho deseja seguir nesta oitava temporada. De qualquer forma, esses dois primeiros episódios reforçam o senso de urgência que esta sequência impõe. Quando as balas começarem a acabar (porque isso uma hora vai acontecer) veremos qual tipo de história Scott Gimple deseja entregar para o oitavo ano da série. Há uma necessidade em equilibrar a discussão moral com a ação caótica mas verdade seja dita: estamos em um cenário mais animador neste oitavo ano.


Clique aqui e curta nossa página no Facebook

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

Deixe seu comentário: