Crítica | ‘Thor Ragnarok’ é a grande (e divertida) piada da Marvel

Já era de se esperar que Thor: Ragnarok fosse um filme que apostaria em elementos totalmente opostos a sua própria premissa, a julgar pelos trailers divulgados. Afinal de contas o Ragnarok é o fim do mundo para Asgard, mas não vemos o armagedon asgardiano representado de forma dramática ou solene. Ao invés disso, temos um filme que trouxe para o gênero (ou sub-gênero) de super-heróis uma aventura que não tem medo de se assumir como comédia e faz isso logo nos primeiros minutos.

Em Thor: Ragnarok, Thor é preso do outro lado do universo, sem o seu martelo poderoso e encontra-se numa corrida contra o tempo para voltar a Asgard e impedir o Ragnarok – a destruição do seu mundo e o fim da civilização Asgardiana -, que se encontra nas mãos de uma nova e poderosa ameaça, a implacável Hela. Primeiro ele precisa sobreviver a uma luta mortal de gladiadores, que o coloca contra um ex-aliado e companheiro Vingador – Hulk.

Até hoje, dentro do Universo Cinematográfico da Marvel, nenhum filme do Thor conseguiu despertar simpatia suficiente para que pudesse frequentar as listas dos longas prediletos dos fãs. Jogando tudo para o alto, o diretor Taika Waititi decidiu trazer para este filme seu  timing cômico peculiarmente conhecido por conta dos recentes A Incrível Aventura de Rick Baker (2016) e o divertido O que Fazemos nas Sombras (2014). Neste último filme citado, Taika utilizou introduziu a comédia utilizando como pano de fundo o terror, da mesma forma como em Ragnarok, onde utiliza a aventura e a brecha cômica que os filmes da Marvel possuem para subverter o próprio sub-gênero que se tornou a fórmula de fazer filmes do estúdio.

É claro que este filme segue alguns padrões pré-estabelecidos da Marvel, como os vilões que em geral possuem um desenvolvimento genérico e a falta de consequências fatais para os heróis, embora tenhamos uma grande surpresa nesse sentido. Entretanto, não é um exagero dizer que o longa carrega uma identidade própria, tanto por conta de seu tom mais jocoso, quanto pela maneira como ele se conecta com os demais filmes. Não há uma necessidade em fazer ligações com tramas futuras e tudo o que acontece em relação a isso apenas faz a trama avançar, sem que haja apenas uma inserção desnecessária de personagens ou citações gratuitas.

Se não há grandes invenções em relação as cenas de ação, cujo destaque vai para uma sequência logo no início onde Thor utiliza seu Mjölnir fazendo com que a câmera se movimente de forma circular, a direção de arte oferece ambientações repletas de cores quentes e paisagens bem construídas. Há câmera lenta? Há, mas não é um recurso tão exagerado, algo que filmes de heróis e ação costumam saturar.

Em Sakaar temos a maior variedade de espécies e cenários, embora falte aqui planos abertos, o que evidencia uma certa limitação no sentido de criar algo mais grandioso.  O CGI utilizado no filme agrada bastante e até o 3D, dispensável na grande maioria dos filmes, consegue oferecer uma boa experiência. Visualmente, Thor: Ragnarok é o filme que mais se aproxima do conceito de space opera, o que era uma exclusividade dos Guardiões da Galáxia até pouco tempo atrás.

Outro fator que não é grandioso mas serve para moldar a característica diferente que o filme possui é sua trilha sonora. Em filmes de super-heróis, em especial no padrão Marvel, é comum termos as trilhas episódicas e os temas mesclados com músicas . Aqui o filme abre espaço para Led Zeppelin, alguns temas do heróis e na maior parte do tempo uma trilha pop sintetizada embala o filme, conferindo uma leveza e informalidade maior.

Em termos de estrutura narrativa, Thor: Ragnarok não consegue dimensionar bem os seus arcos para que a importância e os melhores acontecimentos estejam situados no terceiro ato. Os personagens possuem uma jornada interessante, porém, a subtrama existente confere ao filme seus melhores momentos, como a Batalha entre Thor e Hulk e o desenrolar disso, enquanto o principal objetivo a ser alcançado acaba se tornando menos interessante. Não há um senso de perigo ou envolvimento dramático em situações extremas, até mesmo pelo tom do filme. No entanto, o objetivo aqui é claramente fornecer duas horas e dez minutos de bom entretenimento, o que acontece. A propósito, o filme é longo mas nunca cansativo. Algo sempre acontece e as constantes idas e vindas do roteiro fazem com que o ritmo nunca caia.

As atuações são boas e claramente percebe-se que os atores estão a vontade. Chris Hemsworth desempenha um bom papel, trazendo para a tela um Thor mais carismático, que utiliza um humor que muitas vezes é empregado de forma física, em situações simples porém hilárias. A direção e a proposta do filme também permitem que Hemsworth consiga dar ao personagem uma personalidade diferente da que conhecemos até então, embora este tom possa destoar em tramas futuras, sobretudo as que irão ganhar contornos mais dramáticos. Será necessário, portanto, conferir essa nuance em Guerra Infinita.

Quem também compõe seu personagem de forma diferente da que conhecemos é Mark Ruffalo. Sua versatilidade permitiu que em sua carreira, gêneros como drama e comédias fossem parte de seus trabalhos, sempre de forma competente. Aqui ele também se mostra divertido, com uma química muito importante com Hemsworth, o que é crucial para que a dinâmica entre Hulk e Thor seja ótima. Falando em versatilidade, a sempre estonteante Cate Blanchett está claramente se divertindo como a vilã Hela. Embora não haja um desenvolvimento e motivações consistentes (ela é o mal pelo mal), a atriz abraça a vilania canastrona (repare como ela se movimenta e suas expressões) e faz de sua personagem a vilã que o filme pede. Afinal de contas, se você não deve levar Thor: Ragnarok a sério, porque faria isso com Hela?

Tão exótico quanto Sakaar, Jeff Goldblum está impecável e hilário no papel do Grão-mestre. Com trejeitos divertidos e expressões contidas, porém hilárias,  ele já é facilmente um personagem com carisma elevado, e só não rouba a cena por completo porque esta função em Thor: Ragnarok cabe a Tessa Thompson. Assumindo o arquétipo da anti-heroína, a presença de Valquíria na tela é sempre boa e sua personagem permite abordar temas como o alcoolismo e a própria feminilidade de uma forma peculiar. Há uma cena em que ela surge pronta para agir, com uma explosão colorida ao fundo, que é tão boa quanto sua introdução no longa.

Não tão brilhante como em outras oportunidades mas sempre agradável de se ver, Tom Hiddleston mostra o porquê do carisma de Loki, com boas piadas e servindo como coadjuvante em uma trama inflada de personagens. O que faz parecer a aparição de Benedict Cumberbacth, como Doutor Estranho, apenas como um dos poucos itens de conexão com o universo integrado. O que é compensado pelo fato de que a sequência que envolve sua aparição seja um dos bons momentos do filme.

Ainda há espaço para boas participações de Karl Urban (Skurge) e o próprio Taika Waititi (Korg). O diretor, além de atuar em seus filmes, costuma promover aparições de atores de seus longas em seus outros projetos. Rachel House é um exemplo disso, também presente em seu último filme e que encarna a assistente esquisitona do Grão-mestre. Já Anthony Hopkins possui pouco tempo de tela, mas não menos relevante. E ainda há uma breve cena com ele que é especialmente hilária e que também é a mais inusitada do filme (leia por conta e risco a parte de spoilers). Já Idris Elba é prejudicado, sendo até paradoxal dizer, pela seriedade que Heimdall precisa empregar em sua jornada. A leveza e o tom do filme não se conectam com a jornada do personagem, mas por outro lado, pode ser encarado como um importante elemento que não leva o filme ao besteirol. 

Como acréscimo a já enorme quantidade de heróis e vilões existentes, ao longo de 17 filmes, Thor: Ragnarok é eficiente ao introduzir nomes que poderão desempenhar papéis de destaque no futuro, como a Valquíria, que é um ótimo acréscimo feminino para a franquia. Porém, o fato de ser autônomo em grande parte permite que ao mesmo tempo, o filme venha a ser lembrado como aquele que fez a Marvel fugir da previsibilidade, mesmo que para uma boa parte do público, isso pudesse ser melhor assumindo um tom mais sério, dando ao arco que envolve o Ragnarok um apelo mais dramático (como foi apenas sugerido em Vingadores: Era de Ultron).

Como entretenimento e dentro do que um filme de super-heróis pode entregar, Thor: Ragnarok tem ação, aventura, comédia e combina esses elementos, mesmo não se tornando a produção inesquecível, será lembrada como o dia em que a Marvel resolver se mover um pouco da zona de conforto, ao tornar o seu filme um evento que não usa humor como referência mas desenvolve sua narrativa em cima disso e mostra que o sub-gênero possui diversas possibilidades que vão além da aventura com piadas, ou do tom realista.

Avaliação: 

Spoilers – os cameos em  Thor: Ragnarok

Tão inusitadas quanto essa comédia de super-herói foram as participações inusitadas em Thor: Ragnarok. Quando Thor chega em Asgard pela primeira vez, uma peça sobre a morte de Loki está sendo encenada. No palco vemos além dele e do seu irmão, Odin. Quem aparece como o mais importante dos deuses asgardianos é Sam Neill, que atuou com Jeff Goldblum em Jurassic Park (1993) e está no último longa dirigido por Taika Waititi.

Na encenação, quem faz o papel de Thor é Luke Hemsworth, da série Westworld, que é o próprio irmão de Chris  Hemsworth. No papel de Loki, niguém menos que Matt Damon incorpora o irmão adotivo do Deus do Trovão. A cena é hilária e surpreendente, (a não ser que você tenha ignorado o alerta de spoiler).


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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