Crítica | Mr. Robot 3×02: ‎’eps3.1_undo.gz’‎ e o botão para desfazer de Elliot

A primeira temporada de Mr. Robot nos apresentou a Fsociety, os planos de Elliot e o consequente caos instalado pelas ações do Mr. Robot. O segundo ano investiu na paranoia do protagonista e na degradação social, além das consequências trazidas pelo hack. A terceira temporada, no entanto, está sacudindo toda a estrutura da série. Neste eps3.1_undo.gz tivemos um avanço de seis semanas, com destaque para alguns personagens e seus novos objetivos.

O maior exemplo visto nesse episódio em relação ao arco deste terceiro ano é o destino atribuído a Joanna Wellick. A personagem de Stephanie Corneliussen, convenhamos, sempre esteve localizada de forma rasa e deslocada na série. A saída da senhora Wellick abre caminho para uma maior objetividade da trama mas é bom destacar que Corneliussen desempenhou bem o seu papel até aqui.

A maior contribuição de Joanna para a história já havia sido dada, sendo justamente esse o motivo pelo qual ela morre. Na temporada passada, Derek, seu amante, havia sido convencido por ela a depor contra  Scott Knowles, inocentando Tyrell pelo assassinato da esposa do executivo. A gota d’água foi admitir em rede nacional que Tyrell continua a ser o único amor de sua vida, mesmo após um pedido de divórcio. O maior exemplo de que o roteiro de Sam Esmail quis podar literalmente o núcleo foi o tiro disparado por Sutherland, eliminando qualquer ponta solta que poderia haver com Derek vivo.

É necessário destacar que a cena que marca o assassinato de Joanna é uma das mais tensas até agora em toda a série, seguida por uma grotesca autópsia. Aliás, seria cômica se não fosse trágica a inserção de Listen to Your Heart do Roxette, mostrando uma certa dose de humor negro. A cena é cruel não somente pelos acontecimentos, mas pelo destino do bebê, que vai para o serviço social já que o FBI quer manter sigilo sobre a morte. A violência gráfica é até um pouco exagerada, ao mostrar o indefeso ser ensanguentado ao lado da mãe morta. A mão de Esmail está pesando mais neste ano e há existe uma mescla entre o sombrio e o sarcasmo ambientando a história.

O FBI aparece aqui para bagunçar tudo o que conhecemos sobre personagens importantes. Darlene que o diga. Não houve muito mistério para já sabermos qual será seu papel nesta temporada e isso é muito bom. Agora como informante ou “Fonte Humana Confidencial”, embora sua missão seja obter informações sobre Tyrell a partir de Elliot, o distanciamento entre os dois é um empecilho. Já que o irmão acredita que ela seja o gatilho para acionar o Mr. Robot, a solução do roteiro em utilizar a solidão do protagonista em seu aniversário para aproximá-los foi um bom recurso. A destacar: atriz Carly Chaikin  tem passado toda sua angustia de forma muito competente e seu trabalho se mantém muito sólido.

Erro de exceção fatal

A maior mudança de todas é a inversão de lógica feita por Elliot. Seu novo plano para mudar a Evil Corp por dentro abre espaço para uma sequência inicial bastante inspirada, com todos os detalhes do início de sua operação para digitalizar os registros da empresa, já que a fase 2 pretende acabar com todas as informações. É o que ele pretende fazer quando direciona seus esforços para desfazer o que fez, o que chama de erro de exceção fatal.

O mais interessante no conjunto de cenas, além pontuar a nova fase de Elliot com a música New Sensation do INXS, é o destaque para o looping que marca esse novo ciclo. O personagem tira novas roupas da embalagem, toma um Zoloft, passa o crachá e continua em seu looping para convencer os chefes de implementar seu plano, além de promover uma limpeza interna fazendo aquilo que sabe de melhor. Isso estabelece de forma orgânica a passagem de tempo que se dá entre o primeiro e o segundo episódio, além de nos situar em seu plano, fazendo com que seu monólogo expositivo sirva muito bem à narrativa.

“Porque mudar o mundo nunca foi destruir a E Corp. Trata-se de torna-los melhores. Talvez eu tenha fodido um mundo já fodido. Mas estou corrigindo agora, apertando o botão desfazer. E amigo, parece ótimo.” Elliot

No entanto, a solidão de Elliot também está de volta. Em casa vemos o protagonista sentado no sofá enquanto assiste a um programa qualquer na televisão, ou recostado em sua cômoda chorando e angustiado. Ele faz questão de dizer que está fazendo o certo e sim, nós estamos vendo seu esforço que não é suficiente para conter o vazio. É ai que estamos novamente na presença de Krista, a psiquiatra que abre espaço para o aparecimento de um Mr. Robot cada vez mais diferente.

Há uma primeira consulta e um dos fatos mais intrigantes da sessão foi quando ele conta para ela que o seu pai o empurrou pela janela e ele quebrou o braço, quando criança. Ela afirma que está ouvindo isso pela primeira vez, enquanto ele fala que já havia dito isso antes. Estranho não é? Principalmente pelo fato de que essa história é muito delicada par ele, conforme Darlene salienta no encontro dos dois em Coney Island, antes de irem ao aparamento.

Na cena em que Elliot voluntariamente abre as portas para seu alter ego falar com Krista, há um trabalho muito bem executado de composição de cena, quando Mr. Robot anda pelo escritório enquanto conversa com ela e destaca “como eles estavam indo muito bem sem ela”. É uma bela performance de Christian Slater e bem dirigida por Sam Esmail, que deixa o ator passear pelo cenário e termina com um plano fechado e sombrio, com uma assustada Krista assimilando o que houve.

Isso nos leva ao fato de que Mr. Robot já não tem acesso fácil a Elliot, com uma clara separação em curso entre as duas identidades. Até então havia uma combinação entre os dois, onde o controle invariavelmente ficava com seu alter ego. O final da conversa é assustador para Krista, mas Elliot não tem conhecimento da conversa. É a desintegração em andamento.

Antes, porém, já havíamos visto a outra personalidade de Elliot emergir. É justamente na noite de seu aniversário, quando Darlene passa a noite na casa do irmão e mexe no computador dele para dar acesso do computador para o FBI. Aqui também há um merecido destaque para Rami Malek, fazendo uma variação mais assustadora de si mesmo, algo cada vez mais frequente este ano. É uma escolha acertada e que permite nos conectarmos com os personagens, que sempre enxergaram Elliot agindo como Mr. Robot. Agora podemos presenciar seus pontos de vista também.

Interesses maiores

Ausente na estreia da terceira temporada, Phillip Price retorna em uma reunião do G20 para uma disputa de poder com Whiterose, ou melhor, Primeiro Ministro Zhang. Há um conflito de interesses onde a China precisa votar a favor da utilização do Ecoin como principal moeda mundial, enquanto o líder do Dark Army possui interesses em anexar o Congo. Está claro que país representa algum tipo de exploração e o mais provável é que tenhamos algo ligado a tecnologia.

Mesmo com um par de cenas, BD Wong e Michael Christofer conseguem dar um peso enorme aos seus personagens. As cenas sempre são recheadas de tensão que vão além da tensão cambial e a imponência que Price e Zhang necessitam são passadas de forma impecável. O elenco de Mr. Robot é uma das melhores coisas da série e cada vez mais há química entre eles, além de boas composições dos personagens.

Mantendo o bom ritmo apresentado no primeiro episódioeps3.1_undo.gz seguiu em frente e deu novos rumos aos personagens, deixando alguns de fora, o que não atrapalhou devido a boa fluidez dos acontecimentos. O vigor da série e os avanços da trama estão dando força novamente a Mr. Robot, no que parece ser uma prévia animadora para uma boa temporada.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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