Crítica | ‘Bom Comportamento’: Robert Pattinson brilha em um frenético thriller de perseguição

A primeira cena de Bom Comportamento (Good Time) é um dos poucos momentos onde a calma se estabelece durante o longa. Pacientemente, um psiquiatra vai fazendo perguntas ao seu paciente, em um crescendo emocional que culmina com a explosão de seu protagonista. É assim que somos apresentados a figura central do filme e ao próprio longa, que deste ponto em diante mantém um ritmo frenético em seus acontecimentos.

A trama de Bom Comportamento se desenrola a partir de um malsucedido assalto a banco, em que Connie Nikas (Robert Pattinson) vê seu irmão mais novo Rick (Bennie Safdie) ser preso e embarca em uma odisseia no submundo de Nova York, numa tentativa cada vez mais desesperada – e perigosa- de tirar seu irmão da prisão. Ao longo de uma noite repleta de adrenalina, Connie encontra-se em uma onda de violência e caos enquanto ele corre contra o relógio para salvar seu irmão e ele mesmo, sabendo que suas vidas estão por um fio.

A sinopse acima não é sabotada em nenhum momento e o filme entrega tudo o que promete. O tom caótico das ações de Connie é expresso de maneira enervante pelos diretores Benny Safdie (que também atua) e Josh Safdie, que assina o roteiro com Ronald Bronstein. O senso de urgência empregado com o uso da câmera na mão e que frequentemente fecham no rosto nos personagens, sobretudo em seu protagonista, conferem uma claustrofobia intencional que remete a condição em que ele se encontra. O filme estabelece uma série de eventos e suas consequências nem sempre são as melhores, o que permite a dupla dosar de maneira bem equilibrada doses de drama, ação e até alguns momentos engraçados.

Como um thriller de perseguição que se mantém em constante movimento, Bom Comportamento nunca perde o foco. Ao mesmo tempo em que Connie é procurado pela polícia, ele precisa resgatar o irmão, que é deficiente mental e acaba sendo preso por sua culpa. Isso permite que nos conectemos a sua missão e ao mesmo tempo possamos nos preocupar com sua procura.Há também um desenvolvimento gradativo de personagem. Um dos fatores que o torna complexo são suas motivações afetuosas para com Nick, o que não o exime de seus atos criminosos, mesmo que sejam bem incipientes. 

Todas as ações no filme tem consequências diretas, o que implica nas tomadas de decisão rápidas de Connie. É claro que nem sempre elas poderão ser as melhores escolhas. Em uma delas, talvez a mais hilária do longa, há uma mudança total de perspectiva em relação a personagem Crystal, vivida pela jovem Taliah Webster. Mas não temos aqui um filme onde o elenco de apoio possui grande destaque, embora todos estejam bem. Embora haja linhas de diálogo expositivas, elas se tornam necessárias para que possamos conhecer mais sobre Ray (Buddy Duress), enquanto Corey (Jennifer Jason Leigh) e o guarda vivido por Barkhad Abdi assumem papéis distintos: fazer com que possamos conhecer melhor as motivações de Connie e discutir até um subtema interessante relacionado ao racismo.

Mesmo com todos os elementos apresentados, temos aqui um filme em que Robert Pattinson atua de forma muito sólida e brilha como protagonista. A câmera não se cansa de enquadrá-lo, em muitas vezes em planos extremamente fechados. As vezes há um certo exagero na forma como isso é concebido, parecendo ser uma claustrofobia intencional. A noite caótica e as desventuras por uma Nova York obscura acompanham o cansaço, a impaciência e a sagacidade (e também tolice) que Pattinson transmite com seu personagem. A exeperiência de imersão em Bom Comportamento faz com que o filme seja uma projeção imersiva e que deixa o público na ponta da cadeira.

O olhar explosivo e fechado que o ator precisa lançar corrobora sua interpretação elogiável. Afinal de contas, estamos falando de um filme em que os olhos do espectador permanecem grudados no protagonista em pelo menos 80% da projeção. A imprevisibilidade também acompanha as mudanças que o personagem de Pattinson precisa assumir durante a noite em que sua jornada se passa.

Sejam físicas ou mentais, as atitudes são sempre respostas para situações limite, com inúmeros acontecimentos e ele dá conta do recado. Se você assistiu Z: A Cidade Perdida, que passou despercebido para o público geral no Brasil, verá que o ator possui duas atuações bastante elogiáveis neste ano, sendo que aqui ele tem o filme totalmente para si.

Há outros fatores que contribuem para manter o público focado essencialmente na história. Além da agilidade com que o filme se desenrola, com uma energia pulsante e a boa edição feita pelos próprios roteiristas, a música com ares de ciberpunk e techno é propositalmente alta e pulsante, sobretudo nos raros momentos em que vemos planos mais abertos, onde claro, a perseguição se desenrola. Além disso, a fotografia de Daniel Lopatin sempre coloca em evidência cores supersaturadas, com o vermelho, verde, azul e o amarelo em destaque.

Combinando ações frenéticas em um ótimo thriller de perseguição, Bom Comportamento é um filme onde os irmãos Safdie conseguem nos guiar pela jornada desastrada e determinada de Coonie, que é um bom personagem. Porém, isto não seria possível sem a brilhante atuação de Robert Pattinson, que dá um dos melhores desempenhos de sua carreira. E que, além de tudo, você precisa assistir em uma sala de cinema.

Avaliação: 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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