Crítica | ‘Entre Irmãs’: um épico feminino sobre mulheres construindo os seus destinos

Há uma fala de uma personagem de Entre Irmãs que é emblemática. “Eu não sou uma dama. Eu sou uma costureira”. Definido pelo próprio diretor como um épico feminino e intimista, o longa consegue abordar em quase três horas de duração temas variados em uma estrutura que embora tenda ao melodrama, é sustentada por atuações muitos sólidas e um excelente visual.

Em Entre Irmãs, Marjorie Estiano é Emília, uma jovem que sonha em casar e se mudar para a capital. Nanda Costa vive a impetuosa Luzia, que faz a opção de seguir um violento grupo de cangaceiros. Criadas para serem costureiras no sertão nordestino, ao serem separadas por circunstâncias adversas, elas enfrentam o preconceito e o machismo, tanto na alta sociedade quanto no interior.

O diretor Breno Silveira se mostra à vontade para mais uma vez desenvolver personagens fortes, como em 2 Filhos de Francisco e Gonzaga –  de Pai para Filho. Desta vez ele possui a missão de retratar duas mulheres de personalidades distintas, porém firmes e decididas. Outro ponto a favor de Breno é o Nordeste. Ele sabe como poucos captar imagens e compor os cenários do interior, auxiliado por uma ótima direção de arte e figurinos que evocam instantaneamente o Nordeste do país dos anos 20 e 30, época em que se passa o filme.

A fotografia também é didática ao dar visões distintas ao longa. No interior, cores quentes se misturam as da terra, enquanto enquadramentos mais abertos dão a sensação de imensidão do local. Na capital os planos são mais fechados (por conta da situação de uma personagem em específico) e o visual é mais clean. Outro aspecto técnico muito eficiente em Entre Irmãs é a montagem, que intercala bem as histórias de forma que haja dinamismo, algo necessário por conta da longa duração do filme. A fluidez só não é percebida no ato final, que é demasiadamente longo.

A trama se inicia com um prólogo em que acontecimentos da infância das irmãs são mostrados, passando pela juventude até o momento em que a separação acontece. Um acontecimento inimaginável soa como uma grande surpresa logo nos primeiros minutos. Se muito do que acontece no decorrer da trama é de certa forma previsível, há alguns pontos que subvertem as expectativas do público. As escolhas das personagens são fundamentais e movem o enredo, enquanto que o enfrentamento das dificuldades em um ambiente hostil são explorados em ambos os núcleos.

O roteiro de Patrícia Andrade, baseado na obra de Frances de Pontes Peebles “A Costureira e o Cangaçeiro”, é bastante cuidadoso em amarrar todas as pontas. No entanto, alguns arcos e subtramas demoram a receber seu desfecho e quando isso acontece, há um didatismo desnecessário. Porém, o texto é sensível em muitos momentos e há espaço para diálogos mais intensos, tanto no cangaço quanto na alta sociedade pernambucana. Há um ponto extremamente positivo que é, além de haver personagens femininas fortes, também há espaço para o desenvolvimento de personagens masculinos.

Se por um lado o longa possui uma trama de certa forma inflada por muitos acontecimentos, isso possibilita a discussão de diversos temas. Identidade, senso de pertencimento a um local, família, machismo, sexualidade e amor são tratados de maneiras sutis e tocantes. Também há um importante paralelo com o que acontece com Emília e Luzia, em relação as suas expectativas de futuro.

As atuações de Nanda Costa e Marjorie Estiano são extremamente elogiáveis. Nanda carrega em seu olhar mais fechado uma expressividade necessária à personagem, endurecida por circunstâncias da vida e até mesmo por sua própria personalidade. Foi uma escalação bastante acertada assim como a de Marjorie, que por sua vez traz doçura e ingenuidade em sua caracterização, algo que com o tempo os acontecimentos se encarregam de amenizar. A química entre as duas é algo muito importante aqui e elas convencem como irmãs.

Julio Machado e Romulo Estrela também estão ótimos como Carcará e Degas, personagens totalmente diferentes um do outro mas que possuem a complexidade para nos envolvermos com suas tramas. Mesmo com um tempo de tela mais reduzido, Letícia Colin se destaca como Lindalva, trazendo uma visão diferente de mundo em contraponto aos protagonistas. O elenco de apoio cumpre seu papel com eficiência, embora haja alguns trejeitos novelescos em determinados momentos.

Carregando consigo sensibilidade e firmeza do universo feminino em sua narrativa, Entre Irmãs ainda tem o mérito de discutir temas relevantes e que ainda são tratados com tabu nos dias de hoje. Com mais acertos do que erros, o filme figura como mais um bom drama nacional em 2017. É uma história sobre circunstâncias e escolhas, com um visual primoroso e belíssimas atuações.

Avaliação: 

Entre Irmãs estreia dia 12 de Outubro e é uma das atrações do Festival do Rio.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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