Crítica | ‘Mãe!’: uma experiência que só o cinema é capaz de proporcionar

Se você chegou até aqui e já assistiu Mãe! , deve saber que trata-se de uma experiência única e catártica. Para o bem ou para o mal, popularmente falando. Fato é que por ser um filme extremamente desconfortável, perturbador e angustiante, isso é justamente aquilo que o torna inesquecível em diversos aspectos. Uma junção de metáforas – as vezes em exagero – e uma cinematografia impecável que torna essa experiência cinematográfica uma das mais intensas de 2017.

A sinopse de Mãe! é curiosa: “A relação de um casal é testada quando visitantes não esperados chegam à sua casa e atrapalham a tranquilidade da família. “Mãe!” é um suspense psicológico sobre amor, devoção e sacrifício”. E não é nada do que pensávamos ou vimos no trailer. A primeira camada do filme existe mas não faz muito sentido. O poeta com a criatividade afetada e a esposa devotada são apenas uma fachada, embora exista também uma história nesse sentido. Adentrar o mundo com as  interpretações entrepostas que o longa possui é ao mesmo tempo divertido e angustiante.

O diretor Darren Aronofsky dispensa apresentações. Há cineastas que gostando ou não, servem como referência por conta de seu estilo. Aqui a identidade visual e narrativa é clara, assim como as reações despertadas pela sua obra. Em filmes como Requiem Para um Sonho, Cisne Negro e Fonte da Vida, as opiniões polarizadas costumam ser frequentes. Mas não haverá nada parecido em sua filmografia a partir de Mãe!, por se tratar de um filme em que ódio e amor serão as reações possíveis. Não há espaço para indiferença.

A cinematografia impecável que o filme nos apresenta é de saltar os olhos, a partir de movimentos de câmera que passeiam pela casa, além de um senso de continuidade muito bem definido. A câmera, a propósito, pega a protagonista Jennifer Lawrence pela mão e a segue por todo o filme. Seu ponto de vista é o nosso e a mãe, através de seus olhos, nuca e rosto não nos cansam. É acolhedor e ao mesmo tempo claustrofóbico, uma vez que a casa é o único local mostrado, embora esta seja apenas a superfície da história. A fotografia soturna e que dá ao filme um tom de desconfiança contínuo é também uma representação de que a linguagem cinematográfica bem aplicada é capaz de despertar os sentimentos mais intensos. Principalmente quando há uma transição do primeiro para o segundo ato, onde ainda havia luminosidade e tons mais claros. Era o paraíso, afinal. Não é a toa que Lawrence nos oferece uma primeira visão bastante à vontade em um primeiro momento.

As atuações são dignas do maior reconhecimento. O filme é sobre a mãe e Jennifer Lawrence entrega o melhor de si o tempo todo, com várias nuances e uma performance que ela ainda não havia proporcionado. Tão contraditório quanto o seu Oscar em 2013 seria um não reconhecimento em 2017 por Mãe!. Ao mesmo tempo, estão impecáveis Javier Bardem, Ed Harris e de uma forma malevolente e estonteante, Michelle Pfeiffer. Ainda há espaço para pequenos papéis, que se tornam grandes pela capacidade de mover a história. Entram nesse time Kristen WiigDomhnall Gleeson e Jovan Adepo. Em um filme com grandes significados em pequenos símbolos, toda participação torna-se essencial, e como consequência, não há espaço para desenvolver nenhum deles, a não ser é claro, a mãe. Há um total senso de empatia e identificação com a protagonista.

A edição de som e principalmente a mixagem são essenciais neste filme. É no silêncio que Mãe! desenvolve seu terror psicológico e apresenta sua angústia. No ranger de uma porta e no estalar dos pisos, logo no início, percebe-se que há uma intenção em dar ao filme um tom realista, em contraponto aos primeiros segundo onde já é mostrada uma casa se recompondo e uma mulher em chamas. Afinal de contas, o que estamos vendo? Esse é o maior propósito do longa, apesar de Aronofsky escancarar algumas de suas intenções ao longo da história.

Mas afinal: o que Aronofsky quis dizer?

No roteiro escrito pelo diretor em cinco dias, natureza, criacionismo, inspiração, bíblia, fama e humanidade se confundem e ao mesmo tempo dão, cada um ao seu modo, um significado diferente para a projeção. A interpretação bíblica é a mais explícita, a partir do momento em que vemos um apanhado das escrituras, metafóricamente representadas pelo paraíso e Deus. Adão, Eva, a maça, Caim, Abel, o dilúvio, Jesus e o Apocalipse vem em sequência, mas o choque com o que há de pior na condição humana, que é sua própria humanidade, dão a percepção da sombria e desesperançosa visão de Aronofsky para esse tema.

Se Jennifer Lawrence é a natureza, também é inspiração e  luz que ilumina a criação do poeta. É também a mulher mais jovem exibida como objeto, a casa e também a esposa que não se liberta de uma relação abusiva. Javier Bardem é essencialmente Deus, aquele que cria, a palavra viva e que acalenta. Mas poderia ser uma celebridade, o que não deixa de ser a mesma coisa nesta visão. Na primeira camada em que ele é apenas um poeta, também é uma homem egoísta, justamente aquilo que muitos acusam o Deus do Velho Testamento e o que o próprio Aronofsky expôs em Noé (2014).

Segundo o autor, querermos sempre mais e mais, pisamos e castigamos a natureza, somos humanos e nos permitimos usar e abusar de tudo e de nós mesmos. Deturpamos Deus e interpretamos conforme nossa conveniência e somos capazes de odiar e amar uns aos outros em todo tempo. Em Mãe!, o sentido das ações da humanidade é atemporal, o que permite observarmos a ótica pessimista do cineasta desde o Gênesis, passando pela chocante cena do bebê, chegando até as guerras e os conflitos atuais. Talvez tenha sido o que ele tenha tido intenção de contar. Ou não. Há um terreno vazio neste filme que é justamente aquilo o que ele quer dizer. É uma experiência essencialmente pessoal.

De certa forma, Mãe! é um filme contraditório em todos os sentidos, seja pelas reações adversas provocadas e pelo fato de que aquilo que o torna uma obra de arte é também algo questionável. Até que ponto apoiar-se tanto em metáforas e símbolos em profusão é necessário?

Ao mesmo tempo, questionar a decisão de Aronofsky, que pode ser até acusado de pretensioso mas nunca corajoso, também é uma forma de julgamento injusta. Afinal de contas, podemos receber a arte da forma como quisermos, mas só sentimos o que sentimos graças ao chocante e memorável trabalho realizado. Boa ou ruim, estamos diante de uma verdadeira experiência cinematográfica. É isso que torna o cinema uma forma de arte tão incrível.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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