Crítica | Narcos: 3º temporada sobrevive à ausência de Pablo Escobar!

Se havia qualquer tipo de dúvida quanto a qualidade da terceira temporada de Narcos sem a presença de Pablo Escobar, ela se dissipa logo no primeiro episódio. Mantendo sua essência e introduzindo novos elementos, o terceiro ano da série encarou seu maior desafio com eficiência e a consolidou como uma das melhores originais que a Netflix dispõe em seu catálogo atualmente.

Nas duas primeiras temporadas, nenhum dos membros do Cartel de Medellin conseguiu impor uma ameaça necessária para rivalizar com Escobar. Não é por acaso que o segundo ano de Narcos se dedicou totalmente à perseguição ao Patrón,  com todos seus antagonistas se unindo, enquanto que o primeiro ano voltou suas atenções para a ascensão e queda do narcotraficante. Neste terceiro ano temos uma organização já estabelecida, que já havia sido introduzida anteriormente e que finalmente emerge com a queda de seu maior rival.

Desta forma, com a caçada sangrenta por Escobar encerrada, o DEA passou a voltar suas atenções para a organização do tráfico de drogas mais rica do mundo: o Cartel de Cali. Liderado por quatro poderosos chefões, este cartel operava de forma bem diferente do de Escobar, preferindo subornar oficiais do governo e manter suas ações violentas longe das manchetes. Além disso, o modo de trabalho mais estratégico e a utilização da tecnologia deram ao seriado contornos mais interessantes, adicionando o elemento de espionagem à narrativa.

Nesta temporada não há, porém, um chefão. Os quatro cavalheiros de Cali se encarregam, cada um à sua maneira, de oferecerem ameaça e antagonismo na medida certa. Todos possuem seu desenvolvimento, com destaque inicial para o enxadrista Gilberto Rodriguez (Damián Alcázar ). O estratégico e cauteloso Miguel Rodriguez (Francisco Denis) assume o controle da organização em determinado momento mas ainda há espaço para o desmedido Chepe Santacruz (Pêpê Rapazote), um novo personagem que nos insere pontualmente em Nova Iorque, amplificando as ações do Cartel. No entanto, o personagem que conquista uma evolução mais notável é Pacho Herrera (Alberto Ammann), o mais sanguinário e com mais camadas entre os quatro.

Um novo protagonismo

Se a história real nos conta que Javier Peña retornou aos Estados Unidos um ano após a morte de Escobar, em Narcos a decisão de colocá-lo como responsável por nos guiar à caçada é certeira. Pedro Pascal possui uma ótima capacidade de atuação e carisma suficiente para nos transmitir segurança e irmos com ele na jornada em Cali. A temporada sobrevive sem sentir falta de Steve Murphy (Boyd Holbrook), mas a presença de Peña seria muito mais sentida. As camadas do personagem dão um aspecto ainda mais humano ao personagem, que nos apresenta tons de cinza e um background familiar não visto anteriormente, aliado ao senso de dever que acompanha sua missão.

Peña também retorna em posição diferente. Se nas duas temporadas iniciais seu trabalho era mais voltado para o campo, aqui ele assume um status de maior patente, ao passo em que cada vez mais por dentro de decisões políticas, descobre segredos relacionados aos países envolvidos no combate as drogas e entre as próprias agências americanas de segurança. Parte da crítica que a série estabelece gira em torno da forma como isso é usado para diversos interesses. Não tratar a série apenas como um embate entre o bem e o mal é um dos grandes trunfos de Narcos.

Mas Peña não se resume apenas a burocracia. Ele também age de forma incisiva no campo mas sua posição mais estratégica abre espaço para o surgimento de dois novos personagens. Os agentes Chris Feistl (Michael Stahl-David) e Daniel Van Ness (Matt Whelan) são os subordinados de Javier, que assumem papel semelhante ao que ele e Murphy exerciam na primeira temporada. A dupla não possui uma química tão grande e o momento em que eles poderiam assumir um destaque não vem, com exceção de dois episódios. No entanto, os personagens ajudam a trama em sua movimentação, principalmente no viés de espionagem que a série assume nesta ano.

Porém, ao lado de Peña, o grande personagem da temporada é Jorge Salcedo (Matias Varela). Em Narcos é uma constante vermos homens e mulheres que transitam entre o bem e mal, se corrompendo, se redimindo, indo de acordo com a maré ou simplesmente se adaptando ao meio. O que Varela entrega em sua brilhante interpretação é um homem que cumpre seu dever e sabe das implicações do que faz, chegando ao limite em muitas situações. Seu senso de questionamente, no entanto, é desenvolvido com calma, enquanto conhecemos a acompanhamos sua história. 

Salcedo foge do estereótipo comum dos integrantes do Cartel. Ele é um bom pai de família que não faz questão de andar armado, apesar de desempenhar um papel vital, sendo um dos responsáveis pela rede de segurança da organização, o que inclui uma ação estratégica de grandes proporções, que vão de escutas telefônicas até vigias. Além do que nem sempre o dedo no gatilho é o que provoca uma morte e esse questionamento sempre vem à tona. O personagem não nega sua culpa e a série não o torna herói quando determinadas ações acontecem. Sabemos distinguir o certo e o errado, apesar de uma leve intenção do enredo em produzir uma redenção e nos fazer sentir empatia. O que não deixa de ser algo verdadeiro, no entanto.

A narração em off continua sendo um dos elementos importantes e já faz parte do que a série introduziu lá atrás com José Padilha. Desta forma, Narcos também se encarrega de manter uma característica marcante de sua narrativa, com equilíbrio suficiente para dosar ação e investigação. Nesta temporada a inserção de imagens de arquivo continua acontecendo mas isso é um pouco mais comedido, ao passo que a utilização da violência gráfica continua sendo explorada mas em grande parte é apenas sugerida, o que não tira o medo que personagens como Navegante, Pacho e David Rodriguez impõem, por exemplo.

As cenas de ação e perseguições são bem filmadas com destaque para duas sequências: uma perseguição que o agente Peña faz ao ar livre e uma incursão na mata para cumprir uma determinada missão. Há uma sequência que também merece destaque, quando Pacho se vê encurralado em um tiroteio e nós também nos sentimos da mesma forma. Mesmo ele sendo um bandido, é bom que se diga. O carisma do personagem e do ator muitas vezes nos colocam em posição desconfortável para torcer e isso é uma prova da imersão que a série e o desenvolvimento de personagem são capazes de provocar.

Para cada fim, um novo recomeço

A guerra contra as drogas sempre irá provocar a derrocada de grandes líderes que depois serão sucedidos por outros. Há um conflito de interesses que também vai além da simples erradicação da droga. Quando a política entra em cena e os jogos de favores se fazem presentes, muito do que vemos servem apenas como peças de um jogo maior. Uma coisa é certa nisso tudo: ninguém detém o controle e as vitórias sequer podem ser comemoradas em alguns momentos, de tão passageiras ou amargas. É o que Javier Peña vivencia de perto em dois grandes momentos da série.

Assim como Medellin se viu livre de Pablo Escobar, Cali também teve sua redenção com os líderes do Cartel mais poderoso do mundo na cadeia. O que não significa que depois vieram outros, e depois mais outros, em uma linha de sucessão. É o que Narcos também se encarrega de mostrar, diga-se. Tantos outros países sofrem com o mesmo problema e por mais eficiente que uma operação possa ser e que ainda haja pessoas que não sejam corruptas, o sistema se encarrega de apenas reposicionar as peças. A série não deixa de retratar as vitórias, sem ignorar o tom agridoce ou por vezes mais amargo que elas possuem. Afinal de contas, o dinheiro que este negócio movimenta é absurdamente abundante.

Como obra de ficção, Narcos tem em seu terceiro ano o benefício de não possuir uma figura tão emblemática e peculiar quanto Pablo Escobar, abrindo espaço para o desenvolvimento de novos personagens e ampliando o caráter investigativo da série. Ainda que não possua a ação e o senso de urgência do segundo ano, é na terceira temporada que a série adquire corpo e mostra que ainda há vida por algum tempo, com novas histórias e se mostrando ágil em resolver em dez episódios o arco de Cali. Tal qual a maturidade de Peña parece ter sido alcançada aqui, a série também se mostra segura e clara sobre seus temas nesta temporada.

Avaliação: 


 

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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