Crítica | ‘Dupla Explosiva’: uma divertida homenagem aos filmes de ação dos anos 90

Logo nos créditos iniciais de Dupla Explosiva (The Hitman’s Bodyguard), a identidade do filme já é estabelecida e claramente estamos diante de uma obra que, no decorrer de sua projeção, nos coloca ao lado de uma dupla carismática em uma missão arriscada. Poderia ser um filme que nos anos 90 faria um enorme sucesso mas que embora não deixe de soar como datado, em 2017 torna-se um bom meio termo entre uma nova safra de filmes de ação e os mais genéricos blockbusters do gênero.

No filme, o guarda-costas de elite Michael Bryce (Ryan Reynolds), que só trabalhava para os clientes mais seletos do mundo, descobre que terá um novo cliente: o assassino de aluguel Darius Kincaid (Samuel L. Jackson), com quem costumava se estranhar no passado. Recém capturado pela Interpol, um arriscado acordo para libertar a esposa de Kinkaid faz com que o assassino tenha que ir depor na Corte Criminal Internacional em Haia. Apesar do ódio mútuo, eles terão 24 horas para viajar de Londres para a Holanda, enquanto são perseguidos pelos agentes do ditador bielorusso Vladislav Dukhovich (Gary Oldman).

O diretor do filme é o australiano Patrick Hughes, que retorna após Os Mercenários 3 (2014). Se em seu último trabalho o tom da produção evocava as produções de ação dos anos 80, em Dupla Explosiva há um certo resquício no final desta década, mas com uma aura constante que remete ao cinema de ação dos anos 90. Tanto o diretor quanto o roteirista Tom O´Connor (Fogo Contra Fogo de 2012) estão em casa neste gênero e desta forma, temos um filme que possui boas sequências de ação, protagonistas interessantes e bastante humor.

A projeção é um pouco longa e Dupla Explosiva possui quase duas horas de duração. No entanto, o bom ritmo empregado faz com que a trama avance constantemente. O filme já começa estabelecendo quem é um dos protagonistas (Reynolds) e também é ágil em apresentar a sua missão, colocando Bryce lado a lado com seu antigo antagonista. A dinâmica em dupla não é nenhuma novidade para filmes do gênero. O que determina nossa satisfação com este tipo de produção é a química entre os personagens. Aqui isto acontece de forma bastante acertada, o que nos faz até mesmo relevar algumas inconsistências no roteiro, compensadas por cenas de ação e comédia que nunca pendem apenas para um lado.

O ano de 2017 tem nos dado uma boa safra em relação a filmes de ação, com os recentes Em Ritmo de Fuga, John Wick: Um Novo Dia Para Matar e Atômica surgindo como expoentes de uma abordagem mais moderna do gênero. Ao mesmo tempo, as franquias Transformers e Velozes e Furiosos seguem em uma abordagem exagerada e pirotécnica para tratar esse tipo de filme. Indo na direção contrária a esses exemplos, Dupla Explosiva não pretende se levar a sério mas abre espaço para o público saiba disso e compre a ideia do filme.

Não há aqui um desenvolvimento de arcos dramáticos mais profundos e a proposta é mover os personagens de um ponto ao ponto cumprindo um objetivo em comum, entregando  ação e risadas na medida certa. Mas em contrapartida, abre espaço para uma breve discussão, quando um dos personagens questiona se quem mata os bandidos é pior do que aqueles que protegem os criminosos, em uma alusão ao assassino de aluguel Kinkaid e seu guarda-costas Bryce. 

As cenas de ação utilizam belos cenários da Europa como pano de fundo, o que inclui tiroteios, perseguições em alta velocidade e muitas discussões entre eles. Há alguns cortes desnecessários e algumas sequências bem genéricas, mas a maioria delas funcionam e são bem divertidas. As piadas são constantes no longa e surgem para que Kinkaid e Bryce ofendam um ao outro ou para resgatar o clima do filme, quando ele insinua ir para um lado mais sério. É como se um longa da Marvel fosse protagonizado nos anos 90 por Martin Lawrence e Will Smith. Pegou a referência? De fato Dupla Explosiva é um filme que você já assistiu em casa ou no cinema, por diversas vezes. É o típico filme pipoca que não tem intenções de tornar-se inesquecível mas é provávell que você tenha vontade de rever estes personagens em tela no futuro.

Depois de brilhar em Deadpool, Ryan Reynolds assumiu de vez a veia cômica, embora aqui ele tenha uma interpretação mais contida. Fazendo o tipo mais cauteloso e extremamente metódico, ao ver seus métodos questionados temos os momentos mais engraçados do filme. É isso justamente que abre espaço para que Samuel L. Jackson seja o que há de melhor no filme. Sim, Kinkaid é imprudente e Jackson fala incontáveis vezes o seu característico “motherfucker”, dá suas impagáveis risadas e entrega bem as cenas de ação. No fim das contas Jackson atua como ele mesmo e se você é fã do veterano ator, provavelmente irá gostar dele aqui.

No elenco de apoio temos Gary Oldman na pele do ditador Dukhovich, com direito a um sotaque meio russo. O ator nunca decepciona em seus papéis e justamente por isso parece destoar um pouco do tom do filme – e dos demais personagens – ao dar vida ao pscicopata líder do leste europeu. Além disso, não há muito desenvolvimento ou motivações para conhecermos melhor sua história, mas dentro do que o filme se propõe isso não chega a ser um problema.

Salma Hayek é um ponto positivo e mesmo com pouco tempo de tela, não decepciona como a latina de sangue quente Sonia, esposa de Kinkaid e responsável pelos momentos mais engraçados do filme. Outra personagem feminina que atua bem é Elodie Yung, como a policial Amelia Roussel que move a trama de maneira importante, embora ausente de uma parte da projeção. Seu passado amoroso com Bryce é explorado mas de maneira que isto não seja o centro da ação, abrindo espaço para a construção de suas próprias motivações.

Alguns aspectos técnicos do filme deixam um pouco a desejar, seja por alguns recursos de computação gráfica que são inseridos de forma não muito orgânica, ou pela fotografia que embora nos dê belos enquadramentos quando utiliza locações reais, não apresenta nada muito inventivo. Já a montagem auxilia o filme para que não se torne cansativo, não sendo de se admirar que Dupla Explosiva  tenha sido editado por Jake Roberts, responsável por editar os excelentes Brooklyn (2015) e A Qualquer Custo (2016).

A trilha sonora também se encarrega de dar ao filme o tom que ele precisa, trazendo cancões como Hello (Lionel Richie) e I Want to Know What Love Is (Foreigner) em momentos inusitados, responsáveis pelas cenas mais impagáveis do filme. Algumas músicas compostas para o longa (clique aqui e ouça), inclusive o tema, dão aquele clima que remete aos saudosos anos 80 e também aos filmes do gênero feitos nesta época e na década de 90, como Máquina Mortífera (1987), Bad Boys (1995) e até mesmo Shaft (2000).

Misturando conceitos oriundos de filmes de assassinos de aluguel e guarda-costas, ao trazer uma dupla improvável e carismática para a tela, Dupla Explosiva é um filme divertido e brinca com os clichés do gênero, com cenas de ação que agradam e que trazem caos e humor em proporções generosas. O longa não pretende se levar a sério e tenta lembrar disso a todo instante, sem precisar cair no erro de ser algo caricato, embora pareça datado. É uma alternativa no gênero da ação, sobretudo se você busca algo que não seja necessariamente denso ou excessivamente genérico.

Avaliação: 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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