Crítica | Game of Thrones 7×07: The Dragon and the Wolf

Depois de seis episódios e uma temporada caracterizada pela rapidez de seus acontecimentos, Game of Thrones soube entregar um bom episódio de encerramento, dando força a chegada da próxima e última temporada. Isso não apaga o desequilíbrio que este ano apresentou mas é no mínimo curioso notar que, ao voltar a mostrar equilíbrio narrativo em sua trama, a série inevitavelmente ganha substância.

O que se viu em The Dragon and the Wolf  foi uma mistura elementos que caracterizaram a série ao longo dos anos, sobretudo em seus melhores dias. Estamos falando de um universo onde existem dragões, gigantes e mortos (e vivos) que revivem, mas que não despreza o contorno político que a trama possui. Negociações, alianças, barganhas, reviravoltas e estratégias sempre estiveram no centro de Game of Thrones, que apresentou neste que foi o melhor episódio da temporada, ótimas atuações, bons diálogos e uma direção muito bem executada.

Se no fim da temporada passada os ventos de inverno sopravam no Norte em uma bela cena entre Sansa Stark e Jon Snow, aqui o diretor Jeremy Podeswa e o diretor de fotografia Gregory Middleton tornaram um momento ainda mais emblemático, anunciando não apenas o fim de Porto Real como conhecemos, mas também da jornada de Jaime Lannnister. Isto em um lindo plano, enquadrado de forma a enaltecer também a mudança de status no rumo da série, intensificada mais tarde por um final apoteótico.

Mas voltando ao ponto fundamental de Game of Thrones, se por um lado a ação magnífica que assombra o público no fim do episódio é catártica, é nos pormenores que o episódio ganha solidez, como em breves diálogos entre Bronn e Tyrion, na chegada ao Fosso dos Dragões. São essas pequenezas que nos colocam diante de personagens que tem um quê de realidade em meio a este mundo fantasioso e ao mesmo tempo real em suas maquinações, algo que vinha faltando na escrita de David Benioff e D.B. Weiss, que assinam o roteiro deste episódio.

Nervos a flor da pele

Chegamos finalmente ao dia em que o estúpido plano que custou a vida de Viserion tomou forma. A construção deste tenso cenário deu tempo para o público respirar e sentir o clima carregado e denso. Repare que de maneira acertada, cada conversa entre Tyrion, Pod, Brienne, Clegane “O Cão” e Bronn evocam saudosismos, amenidades e também ameaças. É curiosa também a forma como isso trabalha em nossas memórias o senso de conexão entre eles, de forma que em momentos distintos da trama, todos estiveram lado a lado ou um contra o outro. Bronn ajudou Tyrion a defender bravamente a capital contra a investida de Stannis, na Batalha da Água Negra; Brienne de Tarth e Sandor Clegane duelaram de forma visceral em uma luta que quase custou a vida ao Cão; e Podrick já foi escudeiro de Tyrion e tanto o Lannister quanto Bronn possuem uma relação antiga. Todos os caminhos convergiram para aquele momento específico, onde um exilado Jorah Mormont e o derrotado Davos Seawoth também retornassem a King´s Landing, assim como Lorde Varys.

A cena que abre o episódio, porém, é a mais pura demonstração de intimidação e um recado de Daenerys ao Reino. O exército dos Imaculados, Dothrakis e mais tarde os dragões conferem a postulante ao trono um status de ameaça para Cersei, que mesmo tendo muito a perder, mantém uma postura irredutível. De fato a reunião que abrigou tantos personagens diferentes para tentar chegar a um objetivo em comum é representada de forma imponente e grandiosa. Não somente pelo cenário e as ruínas que remetem a centenas de anos de história, mas pela vulnerabilidade que um lindo plano aberto faz questão de enfatizar, mostrando todos abrigados em seus lugares, frente a frente, em um local aberto. Minimalista e ao mesmo tempo grandioso, o encontro colocou em um mesmo lugar, personagens que já foram heróis e vilões tentando chegar a um acordo.

A condução da negociação e a forma como cada diálogo é tratado faz com que pensemos a todo instante que uma tensão vá desencadear algum desembainhar de espadas. Em dois momentos isso vem a tona de forma arrebatadora: a primeira é quando o morto emerge da caixa e vai de encontro a Cersei, em uma perfeita alusão a expressão “ver a cara da morte”. E ela estava viva, diria Cazuza. A outra é quando Jon Snow reforça seu caráter nortenho e não mente sobre apoiar Daenerys. Interessante como cada diálogo pode remeter a acontecimentos futuros dentro do episódio, quando este senso de identidade também vem a tona na conversa entre Snow e Theon Greyjoy, já em Dragonstone, e com a própria confirmação da identidade de Jon.

“Quando as pessoas fazem falsas promessas, as palavras param de significar qualquer coisa e não há mais respostas. Apenas mentiras melhores.” Jon Snow

O longo episódio de 81 minutos permitiu não somente desenvolver as coisas com calma, mas dar tempo aos diálogos e deixar fluir as interpretações. A melhor cena é sem dúvida quando Tyrion vai ao encontro de Cersei. A troca de olhares, a voz embargada, a pausa para o vinho e o silêncio perturbador conferiram à cena o status de uma das melhores da temporada, senão a melhor. A câmera dá espaço para cada fala e reconhece a importância da reação do outro, o que enfatiza ainda mais todo rancor e mágoa contidos ali. Desde a quinta temporada, Peter Dinklage não entregava algo tão digno de reconhecimento, enquanto Lena Headey, que costuma não decepcionar, esteve a altura e deixou seu companheiro brilhar.

A estratégia de Cersei é clara ao reconhecer a ameaça que vem do Norte e ignorar o fato de que poderá lidar com ela, a partir de sua aliança com o Banco de Ferro. Isto não só estabelece que a união em Westeros é algo impossível de acontecer como também modifica e torna a jornada de Jaime mais interessante. O personagem perdeu muita força nas últimas temporadas, fruto de sua devoção insensata à irmã. Fazendo a tão aguardada ruptura com o Reino, ele modifica completamente seu status quo na trama e será interessante acompanhar sua caminhada nesta última temporada. Parece que Cersei quer preservar a família mas se esqueceu do lema de sua casa: “Um Lannister sempre paga suas dívidas.”

Sonsa?

Se havia um evento que era previsível desde o início da temporada eram os dias contados de Mindinho. Fazendo hora extra em Winterfell, Baelish havia encaminhado mais uma conspiração, o que poderia levar o público a uma confusão sobre a tensão entre as irmãs Stark. A construção da cena trouxe de volta a tensão ao episódio: o Grande Salão, frio e escuro, onde homens simetricamente alinhados aguardam a Lady de Winterfell, ao lado de Bran, se pronunciar. Entre eles Mindinho, naquele que foi o seu último sorriso cínico na espreita. 

Sansa fez a leitura exata de toda a situação que desencadeou uma série de eventos cruciais para a série. Grande conspirador e traidor, Baelish nunca esteve em posição tão vulnerável em Game of Thrones, bem representada na atuação de Aidan Gillen. Mas sua morte poderia ter um quê de nostalgia. Já imaginou se Sansa ou Arya cortasse a cabeça do Mindinho? Ned ficaria orgulhoso. No entanto, ao trabalharem juntos, os Starks se fortaleceram e nunca houve um êxito tão grande por parte desta Casa na série.

O diálogo final entre as irmãs é uma bela cena, onde o enquadramento utilizado reforça a origem das duas (a neve e o Norte) e a distância que elas possuem (separadas pelo muro). No entanto, há um respeito e um grande senso de admiração entre elas. Certamente este é um tipo de relação que se fortalece para a oitava temporada, onde grandes tribulações e perdas estão por vir.

“O lobo solitário morre, mas a matilha sobrevive” Sansa Stark

Ainda no Norte, a maior revelação da temporada aconteceu mas não de uma forma surpreendente. Para dizer a verdade, por mais que a chegada de Samwell Tarly em Winterfell tenha sido uma boa adição ao núcleo, parece ter sido inserida apenas para uma exposição de diálogo e complemento ao que fora visto por Bran, na Torre da Alegria. A propósito, o Corvo de Três Olhos atualizou as definições da expressão “não assistiu direito, assiste de novo”.

De fato de fato Rhaegar é pai de Jon e ele é um Targaryen, por conta da legitimação do casamento. Nós podemos até questionar o fato de que Bran poderia ter enviado um corvo ao irmão (ou tio né) para informá-lo mas a única justificativa para isso é o caráter tão pessoal da revelação. E também sejamos sinceros: será que ele iria ver a tia Dany com os mesmos olhos?

Quanto ao peso deste fato para Game of Thrones, muito se discutiu no episódio sobre identidade, lealdade e família. É difícil acreditar que a essa altura, mesmo sendo herdeiro legítimo do Trono de Ferro, ele queria tal posição. Lembra de quando Jon disse a Theon que ele é um Greyjoy e um Stark? Jon continuará sendo Snow e Stark. Se ele chegar a saber, Targaryen. E Aegon.

Mais incesto?

É curiosa a forma como Game of Thrones trata o incesto. Os Targaryen, por exemplo, por gerações apresentam uma linhagem que tem como prática o relacionamento incestuoso (vide a própria Daenerys). Tal fato pode corroborar com a relação entre Jon e Daenerys, construída de maneira apressada, fruto de uma temporada corrida. No entanto, não é algo totalmente imune à repulsa no universo da própria série. Jaime e Cersei que o digam, e se as nossas reações, enquanto público, ao sabermos da verdadeira origem de Joffrey, Myrcella e Tommen são de aversão, por que seria diferente com o novo casal?

Fato é que este é um ponto delicado e interessante nessa história. Estaremos inclinados a gostar deste romance ou repudiarmos? Isto somente o tempo (e os memes) irão dizer. A cena que une os dois é silenciosa e bem feita, com um belo plano que utiliza o jogo de sombras mas mostra os dois em posição vulnerável, se entregando . Mas é fato que isso ainda vai reverberar no futuro. Tyrion que o diga. Estranharam a reação dele?

Não há mais nada além da Muralha

Os últimos cinco minutos do episódio trataram de dar ao público o espetáculo visual mais assustador da temporada. Uma legião de mortos que incluem gigantes chegaram e nossos olhos passam a ser os de Tomund e Beric. Aliás, se eles conseguirem sobreviver, quantas vidas restarão?

O CGI aplicado nesta cena foi algo digno de aplausos, embora não tenha atingido o nível de perfeição visto em Beyond the Wall. Ver a muralha caindo, Viserion cuspindo fogo azul e o Rei da Noite chegando de uma forma nunca antes vista foi o verdadeiro anúncio de que a Grande Gerra começou. O inverno é realidade e agora não há mais nada que possa separar os vivos dos mortos. Que aliás, depois de sete temporadas finalmente chegaram. E olha que não são zumbis lentos como em The Walking Dead

Embora não tenha apresentado nada tão surpreendente em The Dragon and the Wolf , Game of Thrones soube amenizar uma temporada irregular com um episódio organizado e mais contido, subindo na hora correta. Mais do que tudo, a forma como foi executado em termos técnicos e em sua narrativa trouxe uma sensação de equilíbrio para o desfecho. Talvez houvesse um impacto de maior grandiosidade se a temporada fosse bem trabalhada e desse tempo aos acontecimentos de forma desacelerada, como aqui. Como prólogo da grande batalha vindoura, este final define o começo do fim de forma emblemática.

Últimas Palavras

* Clegane Cão roubou a cena em três momentos: sua conversa com Brienne, na apresentação do white walker e em seu breve encontro com seu irmão, o Clegane Montanha. Ainda haverá espaço para um conflito entre esses dois?

* A propósito, o encantamento de Qyburn com o morto é algo espantoso e até engraçado.

* Em determinado momento, Mindinho diz a Sansa que Jon pode ter enviado um corvo e por causa do inverno, eles demoram mais. Esta não é, definitivamente, a mesma raça que foi enviada para Pedra do Dragão semana passada!

* Segundo Cersei, a causa primordial da morte de seus filhos e do enfraquecimento de sua família foi a morte de seu pai, Tywin Lannister. Por isso a raiva ainda maior do irmão Tyrion que de forma controversa, é o único pilar que pode sustentar uma investida “pacífica” de Daenerys. Não fosse por ele, Porto Real estaria em chamas até agora. Mesmo com tantos planos que deram errado.

* Dá para imaginar Jaime em Winterfell lutando ao lado dos Starks, Brienne e reencontrando Bran? É algo para se criar expectativas.

* Parece que acharam um propósito para Theon Greyjoy, finalmente. Com boas cenas e uma salvação que chega a ser cômica (mesmo sendo uma coisa ruim), o perdão e um sentido para sua jornada foram importantes para o apagado personagem.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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