Crítica | Na Mira do Atirador (The Wall)

Você já deve ter ouvido aquela máxima de que um determinado filme não é para você. Seja pela forma como a história é contada ou até mesmo por questões de gênero, algumas obras podem não se encaixar com aquilo que estamos esperando. Em Na Mira do Atirador (the Wall) essa sensação pode ocorrer, o que não apaga ou deixa de lado os méritos que o longa possui.

A premissa é simples e o filme é bastante objetivo e ágil em definir o que iremos presenciar. No fim da guerra do Iraque, os soldados americanos Isaac (Aaron Taylor-Johnson) e Matthews (John Cena) são encurralados por um atirador iraquiano, após investigar uma atividade suspeita no meio do deserto. Nada além de uma parede em ruínas os separa, numa batalha que envolve inteligência e precisão.

A direção é de Doug Lim, que tem em seu currículo filmes como No Limite do Amanhã (2014), Sr. & Sra. Smith (2005) e Identidade Bourne (2002). Entretanto, neste filme ele consegue trazer um aspecto diferente para a tela, com poucos atores envolvidos e uma ação que é praticamente nula na maior parte do tempo. Há um esforço em emular um cenário claustrofóbico, quente e tenso, a partir do momento em que Isaac se vê encurralado atrás de um muro. A relação entre ele e seu algoz Juba (voz de Laith Nakli ) passa a ser o que move o filme, fazendo com que a narrativa sustente através do psicológico do encurralado.

Embora haja um cenário de guerra e algumas discussões sobre o papel do soldado americano nesse estúpido conflito que foi a guerra no Iraque, o filme vai além disso e constrói uma situação de tensão, onde a sobrevivência em meio a um beco sem saída se torna o centro do interesse. Além disso, nota-se uma interessante dinâmica entre desafiado e oponente, sobretudo aqueles que acham que tem o controle da situação. O roteiro de Dwain Worrell deixa bem claro o papel de cada um dos lados na trama e os planos escolhidos, embora sejam repetitivos, não economizam em dar tempo suficiente à importância dos eventos.

A duração do filme é mais do que acertada, embora haja mesmo assim uma certa repetição de situações mostradas. Em noventa minutos toda questão é resolvida, com duas interessantes reviravoltas e uma revelação que faz com que o ritmo do longa não caia. Os diálogos de Na Mira do Atirador não são totalmente primorosos mas há bons momentos, sobretudo quando há uma discussão sobre as motivações de cada um. O terceiro ato do filme é corajoso e sugere algo que ele mesmo se encarrega de subverter depois, fazendo com que o filme termine lá em cima após um segundo ato muito extenso.

A atuação de Aaron Taylor-Johnson é a única a ser comentada em Na Mira do Atirador. Isto porque ele torna-se o alvo primordial, a partir do momento em que seu companheiro é alvejado logo no início. Embora o britânico não apresente trejeitos totalmente convincentes de um soldado americano, sua angústia torna sua interpretação bem consistente, auxiliado por um ótimo trabalho de maquiagem. Por outro lado, John Cena tem momentos mais reduzidos mas não deixa de dar conta do recado, naquilo que lhe é proposto.

A cinematografia do filme é boa e emula bem o cenário em questão, dando um tom até mesmo apocalíptico para a projeção. Até porque, o que é uma guerra para uma cidade senão isso? Em determinado momento o personagem Juba, em uma de suas conversas pelo rádio com Isaac fala sobre o local e o que ele era antes da guerra. A fotografia é quente como não poderia deixar de ser o trabalho de edição sonora também é muito bom, uma vez que o filme faz uso apenas de sons diegéticos e mantém nossas atenções grudadas nas ações do protagonista.

A ação é inexistente na maior parte do tempo mas o jogo de xadrez que a situação se torna é interessante e isso não compromete o ritmo na maior parte do tempo. No entanto, quando a ameaça se revela pelo rádio, ainda no início do segundo ato, alguns diálogos repetitivos podem cansar um pouco, mesmo com um tempo de tela acertadamente não muito extenso para o filme. Contudo, Na Mira do Atirador confere ao seu espectador um suspense contínuo, onde um personagem que não vemos tenta entrar na mente de outro, o qual presenciamos toda sua aflição.

Ao final, Na Mira do Atirador não pretende deixar grandes reflexões acerca da guerra do Iraque e nem seria necessário. Mas involuntariamente ele acaba deixando algumas questões (embora batidas) no ar como o papel do soldado médio em um conflito, os sucessivos erros cometidos em uma situação limite e a forma com se enxerga o lado inimigo. Como terror psicológico o filme é um acerto, oferecendo um bom suspense e emprestando uma visão de guerra, para uma narrativa centrada no domínio do oponente através da inteligência estratégica.

Avaliação: 

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

Deixe seu comentário: