Crítica | A Torre Negra

Você já deve ter ouvido falar em inúmeras obras literárias de Stephen King que se tornaram adaptações mal executadas ou que geraram alguma controvérsia. Só este ano, uma série de televisão está sendo exibida (O Nevoeiro, disponível na Netflix) e dois filmes chegam aos cinemas: It: A Coisa e A Torre Negra, projeto que há quase uma década vem sendo desenvolvido e ganhou forma somente em 2017.

O filme acompanha a saga do pistoleiro Roland Deschain (Idris Elba), que percorre o mundo em busca da famosa Torre Negra, prédio mágico que está prestes a desaparecer. Segundo a sinopse descreve, essa busca envolve uma intensa perseguição ao poderoso Homem de Preto (Matthew McConaughey), passagens entre tempos diferentes, encontros intensos e confusões entre o real e o imaginário.

Quem encara o desafio de transpor para as telas a obra de King é o cineasta Nikolaj Arcel. A mitologia imposta pelo escritor engloba uma série de gêneros diferentes como faroeste, medieval, futuro distópico, fantasia e realidade alternativa. O diretor até tenta introduzir alguns conceitos interessantes como a passagem entre os mundos e os conflitos internos do personagem principal, mas se perde em meio a uma expositividade enorme no roteiro e no desenvolvimento parco da história e de seus personagens.

Como em toda adaptação, é bom que se diga: um filme não precisa ser fiel a uma obra original, desde que estabeleça suas regras e apresente o universo proposto de forma clara. Desta forma, se a introdução de conceitos tão complexos e que se misturam não é realizada de forma clara, não há envolvimento suficiente por parte do público. O que se vê em A Torre Negra é um aproveitamento pobre da realidade alternativa, no que diz respeito ao que é mostrado e também no tempo de tela.

A introdução do filme, porém, dá um ar promissor ao longa, de forma a conectar o mundo como conhecemos com o fantástico. Jake Chambers (Tom Taylor) acaba sendo quem nos conduz até a jornada do Pistoleiro, através de suas visões que vão desencadear todo o enredo do filme. A atuação do jovem ator, porém, é pouquíssimo inspirada, não conseguindo transmitir emoção e incredulidade, tão necessárias diante de certas cirscunstâncias que o filme oferece.

Como protagonista, Idris Elba é o que há de melhor e entrega uma grande atuação. De fato ele é o único personagem que recebe alguma evolução, a partir do heroísmo inerente ao seu papel. Suas expressões, a forma como ele se move e seus diálogos roubam a cena, enquanto que por outro lado, Matthew McConaughey é apenas mais um vilão genérico que abraça o mal, sem maiores motivações ou sombra de um passado. Suas falas claramente não o favorecem e pelo que é oferecido em termos de roteiro, não há muito o que se comentar.

Muitos filmes em sua edição acabam sofrendo problemas que, pela longa duração, dão ao corte final um tempo que enfraquece o ritmo de suas narrativas. Em A Torre Negra acontece o inverso, mas também jogando contra o resultado final. Fruto de uma edição confusa onde cortes abruptos ligam um ponto ao outro ignorando até o sendo de continuidade, claramente os noventa minutos de projeção acabam sendo resultado não somente da montagem, mas de um projeto que parece ter sido apressado em sua produção. O filme é ágil mas precisa, acima de tudo, fazer sentido em sua unidade e isto não acontece em todos os atos.

Em termos de produção, o longa conta com bons efeitos visuais e eles convencem na maior parte do tempo. No entanto, há uma sequência que envolve um monstro e ela destoa dos demais, assim como as habilidades do Homem de Preto, em seu momento crucial. No entanto, quando o filme se encarrega em mostrar a perícia que o Pistoleiro tem com sua arma, literalmente acerta em cheio. Já em relação a construção dos cenários que envolvem a parte mais fantástica da trama, falta substância e pouco é mostrado, além de um deserto, alguns vilarejos e muitos, mas muitos cenários escuros.

As cenas de ação não são ruins como um todo. Durante o segundo ato, acontece a melhor delas e Idris Elba, conforme já fora dito, dá conta do recado. No entanto, isso não pode garantir que justamente o momento mais apoteótico do filme, que é o seu ato final, seja bom. A sequência parece truncada e cheia de soluções risíveis, amenizadas por alguns momentos em que, mais uma vez, Elba consegue salvar.

Ignorando alguns aspectos da parte técnica e o desenvolvimento raso que o filme tem a apresentar, como uma aventura genérica e sem complexidade, o filme pode até funcionar para uma fatia do público. Alguns leitores poderão inclusive até gostar, devido ao fato do filme conservar uma certa essência inerente à obra. Contudo, A Torre Negra não desperta entusiasmo como obra cinematográfica ao propor personagens unidimensionais que não tem muito a oferecer, fazendo parte de uma trama rasa e maniqueísta.

Avaliação: 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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