Crítica | ‘Os Defensores’: Uma série que não é grandiosa, nem esquecível

Há cerca de dois anos e meio, a Netflix trouxe para o streaming em parceria com a Marvel aquela que foi a sua melhor série oriunda desta sociedade. Iniciando a caminhada de forma densa com Demolidor e introduzindo logo após, a perspicaz Jessica Jones, a aposta em uma futura reunião com Os Defensores, tal qual o cinema fez em Vingadores em 2012, era inevitavelmente promissora.

O tom mais sério e focado em tramas urbanas e nas falhas dos próprios personagens conferiam aos materiais iniciais uma profundidade diferenciada. Porém, com mais dois heróis apresentados na sequência (Luke Cage e Punho de Ferro) e outras três temporadas mostradas, o resultado obtido em Os Defensores não se refletiu na expectativa criada lá atrás, embora estejamos longe de falar de um material que não possua suas qualidades. A série tem como um de seus méritos atenuar o fracasso de sua antecessora mas assume um tom mais leve do que em todas as cinco temporadas apresentadas anteriormente.

A estratégia para reunir Matt Murdock (Charlie Cox), Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Danny Rand (Finn Jones) em uma única narrativa é apresentar uma ameaça em comum. Desta forma, Os Defensores nos conecta diretamente com os eventos ocorridos em Punho de Ferro, pior série deste grupo de heróis até então – e até agora. Se por um lado o Tentáculo tornou-se algo menos interessante por conta do que vimos na trama individual de Danny Rand, aqui ele volta a assumir um caráter mais perigoso, como quando conhecemos na segunda temporada de Demolidor. Mesmo que, ao final dos oito episódios, seus objetivos ainda não sejam convincentes. Entretanto, a única forma de combate-los seria reunir de uma só vez os quatro heróis, ou vigilantes, como queiram.

Vários personagens coadjuvantes estão de volta mas de forma acertada, eles movimentam a trama de forma dosada, sem gratuidade. Alguns servem para situarmos o momento pessoal de cada um deles, como é o caso de Karen Page (Deborah Ann Woll) e Trish Walker (Rachael Taylor), ou participam de forma mais efetiva, como quando vemos Collen Wing (Jessica Henwick), Foggy Nelson (Elden Henson) e Misty Knight (Simone Missick). Alguns deles são inseridos apenas com breves participações, como é o caso de Jeri Hogarth (Carrie-Anne Moss) e como não deveria deixar de ser, Claire Temple (Rosario Dawson) continua sendo uma espécie de catalisadora da dinâmica entre os Defensores. Sua participação, no entanto, ia bem até um certo ponto, mas o terceiro ato da série tratou de inseri-la em um contexto desnecessário e forçado.

Por meio de flashbacks, a série explica um pouco dos eventos ocorridos durante a segunda temporada de Demolidor, o que abre espaço para compreendermos melhor personagens como Stick (Scott Glen), um dos melhores e mais imprevisíveis nesta temporada, e Elektra Natchios (Elodie Yung), que retorna como Céu Negro. No que diz respeito a grande antagonista mostrada, Os Defensores acerta na escolha da atriz mas peca nas motivações, ao melhor estilo Marvel. Alexandra é uma vilã com enorme potencial, principalmente pelo fato de que estamos falando da excelente Sigourney Weaver. Sua presença em tela é imponente e ela domina as ações, no entanto, falta substância para que seu personagem vá além. Há outras figuras vilanescas aqui como a Madame Gao (Wai Ching Ho), que também assumem o mesmo caráter, só que bem mais unidimensionais. Ainda não foi desta vez que Killgrave e o Rei do Crime foram superados. 

Um dos grandes méritos em Os Defensores é conduzir de forma ágil e sem rodeios a sua história. Há problemas evidentes na construção da narrativa, com soluções fáceis, diálogos expositivos e incoerências lógicas, mas nada disso tem a ver com o ritmo da série. Tomando como pano de fundo uma Nova Iorque que une Matt Murdock, Jessica Jones, Luke Cage e Danny Rand, há uma ameaça que toma conta da cidade e que vai entrelaçando o caminho dos quatro heróis. A forma como esse encontro se dá é realizada com brevidade e o objetivo que eles tem em comum também não demanda um longo caminho a percorrer, o que se encaixa perfeitamente em 8 episódios, onde alguns chegam a ter menos de 50 minutos. O que é diferente das demais séries, onde há uma quantidade maior de tempo investido, tornando-as em determinados momentos arrastadas.

A série tenta manter, de certa forma, plausibilidades em seu enredo, dando a ideia de que estes heróis estão situados em um ambiente urbano. Há alguma transições de cena onde trens cortam a cidade e reforçam esta ideia, plantada de forma mais incisiva quando vemos a relação dos personagens com Hell´s Kitchen, Harlem e a própria cidade sendo realçadas. No entanto, em Os Defensores o lado místico acaba sendo explorado de maneira mais acentuada, dando continuidade de forma direta a segunda temporada de Demolidor e a última série antes dessa, que introduziu o Punho de Ferro. Desta forma, alguns diálogos são importantes para conectar os mundos “normais” de Luke Cage e Jessica Jones, com humor ácido da anti-heroína e a incredulidade de Cage ganhando destaque.

Outro ponto interessante apresentado é a identidade visual marcante para cada personagem, que fica bem clara nos primeiros episódios. Até que a história deles esteja definitivamente conectada, a fotografia da série vai assumindo um padrão visual para cada um dos personagens em questão. Desta forma, vemos o vermelho no núcleo do Demolidor; uma paleta mais fria e azulada nas cenas que envolvem Jessica Jones; o laranja em Luke Cage e um visual mais clean e esverdeado quando vemos o Punho de Ferro.

A dinâmica entre cada um dos Defensores vai evoluindo conforme os episódios avançam. Nenhuma relação é forçada, embora haja o clichê de apresentarmos conflitos individuais, que vão desde a discussão de ideias e agressões, até a negação do trabalho em grupo. Bobeiras como “é só um trabalho e depois está acabado” aparecem por aqui mas nada é muito exagerado, o que não nos tira da história. Usando do humor como artifício para aproximá-los, Os Defensores é a série mais leve até então, fazendo uso deste artifício de forma inteligente e irônica. Desta forma, é divertido ver a incredulidade de Luke e Jessica sobre as histórias de Danny e Matt, sobre monges, cidades místicas e pessoas que ressucitam.

As cenas de ação não oferecem nada de novo em Os Defensores. Com exceção do primeiro encontro em que eles lutam em uma boa cena no corredor, e em alguns momentos na sequência final, as coreografias não empolgam e os cortes não facilitam as coisas. O senso de equipe ainda não parece aprimorado, quando eles lutam juntos. Ainda assim, é divertido ver o grupo em ação e a forma como Jessica Jones rouba a cena com as melhores tiradas é um dos pontos altos da relação entre eles. Luke Cage a Danny Rand apresentam uma boa química em cena, enquanto Matt se mostra menos sisudo aqui.

As séries anteriores também estabeleciam uma ligação com o universo cinematográfico da Marvel. A invasão alienígena de Vingadores é utilizada, inclusive, como pano de fundo em Demolidor e reverbera das demais tramas. No entanto, aqui não há uma menção sequer os heróis das telonas. De fato, há uma incoerência em estabelecer que, em uma Nova Iorque que sofre uma constante ameaça, um Tony Stark ou o recém chegado Peter Parker não possam dar as caras para eliminar facilmente uma ameaça. Da mesma forma, ao desvincular-se desta necessidade em conectar tudo, há uma liberdade para que esta equipe possa atuar com a devida importância.

Com a proposta clara de unir os quatro personagens criados e torná-los mais palpáveis ao público que não necessariamente é fã de séries e filmes de heróis, Os Defensores cumpre seu propósito. A série diverte, resolve seus problemas com agilidade mas não foge do raso com sua ameaça, tampouco inova em termos de ação. Há um plot twist interessante próximo do fim e um final que, embora seja agridoce, poderia ser mais corajoso. Ainda não foi possível superar a fase inicial deste universo em termos de profundidade, ou inovação, mas ainda assim é uma boa opção no catálogo da Netflix, que se está longe de ser grandiosa, também não é esquecível.

Avaliação:


Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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