Crítica | Game of Thrones 7×06: Beyond the Wall: um episódio épico e sem sentido

Grandioso em sua produção e com problemas no roteiro, Beyond the Wall apresentou o desenrolar de um plano que, além de implausível, custou caro. Ao reforçar tensões e trazer bons diálogos, Game of Thrones abriu caminho para a season finale, que será o episódio com maior tempo de duração de toda a série.

Tensões em Pedra do Dragão

Um dos bons momentos deste episódio foi o diálogo entre Tyrion e Daenerys, em Pedra do Dragão. O plano escolhido, a composição de cena e a atuação de Peter Dinklage são notáveis. A impulsividade colocada em questão reforça que, a loucura dos Targaryen não é necessariamente algo relacionado a uma atitude extremamente insana, como queimar cidades. Quando ele expõe recentes acontecimentos que vem construindo a fama dela, a incapacidade da aspirante ao trono em assumir o descontrole fica mais clara.

“Uma vez você falou comigo sobre quebrar a roda. Aegon (Targaryen) criou a roda. Se esse é o tipo de rainha que você quer ser, como você é diferente de todos os outros tiranos que vieram antes de você? Será uma negociação difícil. Estaremos com pessoas que querem nossas cabeças. É provável que minha irmã fale algo provocador. E você é conhecida por perder a paciência de tempos em tempos, como todos os grandes líderes fazem. Depois que você quebrar a roda, como vamos garantir que ela continue quebrada?”

As palavras de Tyrion advertem Daenerys quanto ao perigo de entrar em território hostil sem o equilíbrio necessário, além de também falar sobre o novo mundo que ela quer construir. Aquela ponta de desconfiança, que vem sendo estabelecida desde os planos frustrados do início da temporada, se intensificaram quando a sucessão entrou em pauta. Esta tensão vem sendo construída ao longo de vários episódios e de fato, ambos não confiam plenamente um no outro neste momento.

Mais tensões em Winterfell

A relação entre Sansa e Arya pode soar como desinteressante quando comparada a ação do episódio, mas possui um caráter importante. Desde que voltou para casa e antes de sair de Winterfell, Arya nunca manteve uma boa relação com a irmã. Agora a tensão entre as duas assumiu um contorno diferente. Não é somente no âmbito político que Sansa enxerga a menina impetuosa como ameaça. Fisicamente, através de uma cena sombria, também fica clara a mensagem de que as coisas não estão nada bem entre as duas. As faces não foram tão bem representadas, é verdade, mas houve uma boa entrega de Maisie Williams e Sophie Turner.

A propósito, Arya no modo psicopata é assustadora e genuinamente irritante, como uma boa irmã mais nova pode ser.

Há ainda duas jogadas interessantes a serem observadas por lá. A primeira é a decisão de Sansa ao enviar Brienne para representar os interesses dos Starks no Sul. Sabe-se que ela não confia em Mindinho e sua presença por perto seria uma garantia a mais. Esta autossuficiência pode indicar que: primeiro, ela acha que pode lidar com ele; em segundo lugar, o caminho poderá se tornar livre para uma investida contra Arya. É uma situação para se acompanhar com atenção. A outra questão é justamente o caos criado por Baelish tomando forma. A contenda entre as irmãs é a escada perfeita e uma forma de eliminar duas ameaças: Jon como Rei do Norte e Arya com seu instinto vingativo. Ele sabe o que fez e tem jogado, nas sombras. Veremos se isso será intensificado ou desconstruído pelas irmãs.

Além da Muralha

As cenas que mostram a viagem de Jon Snow e seus cavaleiros suicidas se alternam durante o episódio, até atingir o clímax. Para que possamos ter uma sensação exata da grandiosidade e do imenso vazio daquela região, os planos abertos que são mostrados são incríveis e a direção de Alan Taylor é complementada pela fotografia de Jonathan Freeman, uma das melhores de toda a série. Em tempo: o canadense já está habituado com fogo, gelo e mortos, pois foi diretor de fotografia dos episódios The Door (aquele em que descobrimos a origem de Hodor) e Blood of My Blood (que mostra brevemente o Rei Louco), na temporada passada.

Os diálogos estão presentes em boa parte da caminhada mas nada é enfadonho. Jon se encarrega de fazer parte de alguns deles, seja quando estabelece uma conexão com Jorah por causa de seu pai, ex-Comandante da patrulha da Noite; ao falar com Beric sobre a ressurreição e o propósito de retornar à vida; e sobre a forma como Tormund o compara ao povo livre por não se ajoelhar facilmente (algo que iria ecoar mais tarde no episódio, por sinal). Tormund, a propósito, proporciona uma imensa dose de alívio cômico, importante para a tensão que estaria por vir. Seus diálogos com Clegane são engraçados e a forma como eles tiram sarro de Gendry também ameniza a tensão. Se o desenrolar do roteiro de David Benioff e D.B. Weiss tem problemas visíveis, pelo menos essa construção foi bem preparada. Só não faz sentido andar e parar toda hora, mas isso é o de menos se comparado a alguns deslizes bem maiores.

É justamente no momento mais grandioso que Game of Thrones derrapou em Beyond the Wall. Não no início da ação, onde eles encontram um urso transformado em plena nevasca ou quando o cerco se fecha, literalmente. Não há, ne verdade, motivos para justificar o fato de que os white walkers não foram para cima deles. Mas se pensarmos de forma mais ampla, podemos assumir que o Rei da Noite queria era justamente atrair mais pessoas para a morte. Isto significa dizer que ele permitiu que a ajuda fosse providenciada. Ok, dá para conviver com isso.

No entanto, a velocidade com que Gendry chega até Eastwatch só não é menos plausível que o corvo que voa expressamente até Pedra do Dragão. É ai que começam os grandes problemas do episódio, que seria em condições normais de temperatura e pressão, o mais trágico possível. Ao invés disso, optou-se por um caminho onde Daenerys chega a tempo de Jon e os demais não morrerem de frio, ou na pior das hipóteses, mortos de forma violenta. Ninguém morrer, além de Thoros de Myr, foi um dos improváveis desdobramentos que o episódio apresentou.

É bom que seja dito: a ação em Game of Thrones nesse episódio é apoteótica. O CGI utilizado para mostrar os dragões foi de uma magnitude ímpar. A cena em que um deles é abatido, além de trágica, é extremamente crível. Menos a reação de Emilia Clarke, que não entrega o drama necessário para a perda de um filho. Mas as lutas e o exército dos mortos são mostrados de forma muito competente, o que justifica novamente a demora no retorno da temporada e uma quantidade menor de episódios. E ai entramos naquele terreno indesejável: ganhar de um lado para perder de outro.

Ao assumirmos que mais uma vez Jon Snow foi salvo milagrosamente, definitivamente chegamos a um ponto onde se há um herói nesta saga que se notabilizou por não possuir esta figura central, este é o bastardo. A morte quase abraçou o Rei do Norte desta vez mas não somente os dragões a jato de Dany foram suficientes: Tio Benjen também salvou o dia para que possamos ver Kit Harington em cena mais vezes, em um anunciado romance com a Mãe dos Dragões e na derradeira batalha com os mortos.

A fantasia pode anular a coerência?

Ao assumirmos as deficiências na escrita desta temporada – não somente o sentido de lógica de tempo e espaço – entramos em um território desconfortável onde precisamos reconhecer as facilidades impostas aos personagens. Ao longo da série, situações limites e sem escapatória não foram piedosas com aqueles que nelas se encontravam. Seja no Casamento Vermelho ou na angustiante execução de Ned Stark, não houve possibilidade de uma solução vinda dos céus. Estes são exemplos mais emblemáticos, se lembrarmos que esta série se notabilizou ainda por inúmeras mortes imprevisíveis para o senso comum. O  material de origem não deixa brechas para isso e George R.R. Martin deixou este legado para o seriado: ninguém está estava a salvo.

Porém, assumindo que esta é uma adaptação e não transliteração do livro, você poderá questionar essa crítica. Mas analisando o que a série construiu como adaptação apenas, Game of Thrones também estabeleceu este senso de imprevisibilidade, mesmo com suas modificações e diferenças para sua obra original. Portanto, avaliar desta forma é tomar como alvo de críticas apenas a série. Muito do que foi construído tem dado lugar a previsíveis ações que servem para levar personagens de um ponto ao outro, mesmo que durante este percurso, isto se torne impossível de acontecer.

Uma questão crucial em Beyond the Wall é: Jon e os demais precisam sobreviver, em uma temperatura extrema, o tempo suficiente para que Gendry volte para Eastwatch e envie um corvo para Pedra do Dragão, para que em seguida, Daenerys chegue para salvá-los. O que acontece em termos de ação é espetacular mas será que isso faz algum sentido? Ou não precisa fazer por que oras, estamos falando de fantasia?

As soluções ou o deus ex machina que tem imperado nesta temporada (e que certa forma já havia orbitado a trama no ano anterior) atingem diretamente personagens principais, economizam mortes dadas como certas e comprometem o roteiro de forma que a verossimilidade seja completamente descartada. Só para deixar claro: a verossimilidade em questão é com o universo criado e não com a nossa realidade. As coisas precisam fazer sentido dentro do mundo de Game of Thrones. Se algo estabelecido durante a série é ignorado, ai está a deficiência. Isto faz com que possamos apontar erros. Isto posto, dragões e white walkers não fazem com que precisemos nos abster do senso crítico ao analisar certos acontecimentos. Afinal de contas, o fato de um corvo enviar mensagens faz com que ele possa enviá-las mais rápido que um simples e-mail?

Da mesma forma, podemos questionar a forma com o dragão de gelo emerge da água, por meio de correntes que não se sabia da existência ou possibilidade de existirem. Já havíamos visto o exército de mortos algumas vezes e em nenhum momento o elemento foi inserido para que mais tarde, já estivéssemos familiarizados ao menos.

O próprio episódio criou elementos novos dentro de sua mitologia que poderão ser usados mais adiante. Quando o Rei da Noite atinge o dragão em pleno vôo com um tiro certeiro, ainda que você questione sua habilidade (não se esqueça que tempo para treinar não lhe falta), você está sendo apresentado a uma particularidade que é uma marca do personagem daqui para frente. Ele pode errar, é verdade. Mas sua lança é fatal. Da mesma forma, quando Jon derrota um daqueles caminhantes e todos ao seu redor morrem, um novo elemento surge. Isto nada mais é do que criar fatos para que, mais tarde, possamos ver coerência nas atitudes dos personagens.

Contudo, Beyond the Wall não é um episódio ruim. Ágil, com bons diálogos e tenso em todos os seus núcleos, seu ponto fraco reside justamente onde a temporada tem tropeçado. As ações possuem um caráter grandioso mas são prejudicadas por serem desconexas, no geral. Talvez isto só melhore quando tudo estiver centralizado ou em poucos locais, possivelmente na última temporada. Por enquanto, fica a expectativa para o desenrolar deste que foi o plano mais estúpido que Westeros já viu. Conforme a prévia da season finale mostra, todos estarão frente a frente.

Assista ao vídeo promocional do último episódio da 7º temporada de Game of Thrones:


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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