Crítica | ‘Lady Macbeth’: Uma tensa e surpreendente transformação feminina

Nem todo filme que é feito para chocar precisa necessariamente de um rótulo. Curiosamente, Lady Macbeth rejeita este conceito mas se apoia em alguns estereótipos, criando um denso e aterrorizante clima de tensão ao longo de sua narrativa, contando uma história de amor e furia sob a ótica de uma impiedosa jovem.

No longa, Katherine (Florence Pugh) está presa a um casamento de conveniência. Casada com Boris Macbeth (Christopher Fairbank), um homem amargo com o dobro de sua idade, a jovem agora se vê integrante de uma família hostil e sem amor. Quando ela embarca em um caso extraconjugal com um trabalhador da propriedade do marido, as coisas começam a mudar. Ela só não contava que sua atitude impetuosa iria desencadear vários assassinatos.

O filme é inspirado no romance do século 19, Lady MacBeth of Mtsensk District, de Nikolai Leskov, e que foi adaptado como uma Ópera. O longa se passa na Inglaterra rural, no ano de 1865, com direção de William Oldroyd, oriundo do teatro britânico. Aqui o diretor trabalha muito bem a questão do ambiente em que a narrativa se apresenta. O clima claustrofóbico dá exatamente a sensação de encarceramento que a protagonista possui, em planos constantemente fechados, ao passo em que a bela cinematografia de Ari Wegner auxilia o diretor através de enquadramentos assimétricos, onde faz uso de cores frias, como o azul, verde e tons pastéis. Além disso, há uma rima visual inesquecível no filme, no começo e no fim, que evoca o estado de espírito da protagonista.

Como protagonista, Florence Pugh é uma grata surpresa e consegue manter todas as atenções voltadas para os passos de Katherine. Este é o segundo filme de Pugh, que em 2014 protagonizou The Falling ao lado de Maisie Williams (Game of Thrones). Sua atuação contida vai dando lugar a um comportamento feroz que não perde o minimalismo e a mudança é gradual e orgânica. Aliás, o ritmo do filme se encarrega de nos manter em sintonia com o longa e seus 99 minutos não cansam em nenhum instante. Tal qual o material de origem, o filme desenvolve com calma o aparecimento de comportamentos perturbados de Katherine, após o casamento arranjado.

O desenvolvimento do caso extra-conjugal de Katherine nos coloca diretamente envolvidos com Sebastian, personagem vivido por Cosmo Jarvis. Sua atuação parece não acompanhar a determinação que nos faz não desgrudar os olhos da protagonista, mas cumpre o propósito do filme, além de haver química entre os atores em cena. A aproximação inicial entre os dois é inusitada e selvagem, porém um pouco exagerada. Mas ao mesmo tempo, tem consequências nos instintos que a moça passa a desenvolver adiante. Também há outra personagem interessantíssima, a criada Anna (Naomi Ackie), que estabelece um importante contraponto com Katherine, colocando temas como servidão em pauta.

Em um primeiro momento, Lady Macbeth parece ser uma trama que põe no centro da ação o empoderamento feminino. No entanto, há muito mais o que discutir como a posição social e os privilégios que são dados. É como se o verdadeiro eu de Katherine emergisse a partir do momento em que ela se vê só, tomando a rédeas da situação. Em suma: quanto mais poder, maior a possibilidade do oprimido tornar-se o opressor. Também não é certo o passado da protagonista, deixando nas entrelinhas se o controle apenas potencializou seu novo comportamento , que supostamente já existia. Essa dúvida paira no ar em alguns momentos.

Há um retrato de época de certa forma estereotipado quando o filme exibe a sociedade extremamente patriarcal, retratada através  de um homem mais velho – e asqueroso – que controla a situação.  O machismo com o qual os mais velhos lidam e o fato de que os criados todos são negros ou mestiços, além da opressão excessiva que a mulher sofre na figura da protagonista, também são indicativos desse padrão a ser seguido. O lado bom é que as atuações não deixam com que isso leve o filme para um lado mais caricato, com boa carga dramática, construção de personagens e diálogos.

A edição de som também é importante aqui. Não há trilha sonora e o filme é totalmente composto por sons diegéticos. Também há uma preocupação evidente com o uso da luz natural, o que possibilita uma boa imersão naquele universo frio e silencioso, onde não havia luz elétrica, obviamente. A composição das cenas e os figurinos nada extravagantes evocam o clima do interior a todo instante, havendo espaço para breves momentos e bem pontuais onde um humor incômodo se esconde.

É bom estar atento para o fato de que Lady Macbeth  é um filme denso do início ao fim, sendo construído, cena após cena, com uma tensão crescente. O que a protagonista é capaz de fazer e sua transformação são verdadeiros combustíveis para que a incômoda história se torne, contraditoriamente, envolvente. A propósito, quanto menos você souber antes de assistir ao filme, melhor.

Contando uma história sobre a conquista da independência em um universo particular dominado pelos homens, Lady Macbeth expande sua premissa inicial para além de uma drama com amor e assassinato, acrescentando temas como a obsessão e a influência que o poder dá. Com uma protagonista forte e que nos mantém interessados a todo instante, os desdobramentos do final do segundo e do terceiro ato mostram o quanto a história possui um desfecho que choca e te faz permanecer por um tempo na cadeira, durante os créditos.

Avaliação: 

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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