Crítica| Valerian e A Cidade dos Mil Planetas

A montagem da sequência inicial de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas dá ao filme um prognóstico promissor. Sem diálogos e ao som de David Bowie, o conjunto de cenas no espaço apresenta de forma rica a mitologia do enredo, mas que acaba se perdendo dentro de suas próprias pretensões.

No longa acompanhamos a história do major Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne), dois agentes intergalácticos que são encarregados de manter a ordem em todos os territórios humanos. Sob a ordem do Ministro da Defesa, os dois embarcam juntos em uma missão para a surpreendente cidade de Alpha – uma metrópole em constante expansão, onde espécies de todo o universo dirigem-se para compartilhar conhecimento, inteligência e cultura um com os outros. O objetivo dois dois é investigar um mistério no centro da cidade, que ameaça a existência pacífica da Cidade dos Mil Planetas.

O diretor Luc Besson emprega aqui um esforço notável para dar vida a um projeto que tem nitidamente um ar pessoal, produzido e também sendo roteirista do longa. Inspirado na HQ Valerian: O Agente Espaço-Temporal, de Pierre Christin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé, o visual rico em cores e detalhes chama atenção. Visualmente falando, o filme é bonito e inventivo, remetendo inclusive a uma notável obra do diretor: O Quinto Elemento (1997). Besson é um cineasta talentoso e consegue proporcionar a imersão necessária ao dar vida a uma obra cujo material de origem influenciou George Lucas. Não é a toa que muitos possam pensar que Valerian que se pareça com Star Wars, quando na verdade, em termos de conceitos, seja justamente o contrário.

Como o filme se passa em um universo onde milhares de espécies convivem em futuro distante, muitos são os alienígenas mostrados. Os detalhes em cada um deles e as diferenças entre si são bastante evidentes e a forma como são apresentados reforçam o ótimo design de produção do filme. A fotografia sempre é vívida e em um filme com uma exuberância de cores em profusão, os tons quentes sempre estão em evidência, também remetendo muito ao visual de Guardiões da Galáxia. Não há muito investimento, porém, em desenvolver tempo de tela para essas criaturas e muitas são vistas somente de passagem, com apenas algumas delas ganhando destaque durante a projeção.

De fato, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é um filme repleto de efeitos visuais. A computação gráfica empregada é muito convincente e rende ótimas cenas, como uma excelente sequência que explora realidade virtual, a melhor do filme por sinal. As naves mostradas e os movimentos de câmera que nos guiam por dentro das cidades mostradas também são um ponto positivo. Em alguns momentos, porém, a fluidez de movimentos de alguns personagens não parece tão natural, se comparado as cenas com efeitos práticos e seres humanos. Não é o suficiente para tirar a imersão do filme, mas a impressão que se tem é que não houve aquele passo a mais que filmes como esses podem dar.

Em termos de coesão narrativa o filme deixa a desejar em alguns aspectos. Não quando apresenta o seu primeiro ato em que nos mostra os protagonistas e uma primeira aventura. A partir do momento em que a grande ameaça vai ser explorada há um desnecessário investimento em esticar toda a aventura, dando a sensação de estarmos diante de um outro evento episódico dentro do filme. Ou seja, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas poderia apresentar uma história mais simples e objetiva. Porém, ao longo de 136 minutos, o filme acaba perdendo fôlego e o roteiro de estende além do que deveria.

Os diálogos aqui também não são os mais interessantes. Não apenas pelo fato de que algumas falas em si sejam bobas, mas também pelo excesso de exposição contida neles. Lembra que no início do texto é mencionada uma sequência sem diálogos onde há uma boa explicação apenas ao observarmos as cenas? Em determinado momento o filme faz questão de reforçar aquilo tudo de novo, através de falas que apenas servem para nos contar aquilo que já sabíamos.

Em termos de atuação, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas não encontra uma boa harmonia. Dane DeHaan é um bom ator e este ano mesmo foi um dos pontos positivos do suspense A Cura (A Cure for Wellness ). Aqui o tom proposto para o personagem indica também problemas de direção, com a tentativa de impor um ar meio canastrão e que não condiz com a figura do ator. O personagem tenta ser uma espécie de Han Solo mais clean mas esbarra na visível falta de aptidão para o tipo em questão.

Talvez a sensação obtida com as atuações venha também da fraca química entre DeHann e Cara Delevingne. A atriz (sic) foi inclusive muito elogiada pelo diretor, dias antes da estreia do filme. Mas sejamos justos: não é o pior papel dela no cinema e até há alguns momentos em que, sozinha, Delevingne sai bem. Mas a falta de expressividade e entrega em determinados momentos compromete um resultado final mais satisfatório. A evidente beleza da moça não é suficiente para te fazer desgrudar os olhos da projeção, por muitas vezes interminável.

Embora tenhamos um bom elenco de apoio, as demais atuações também não são inspiradas , com exceção de uma participação muito divertida de Ethan Hawke. Uma pena não ter tido um maior tempo de tela, o que é justamente o que acontece com Rihanna, no papel de Bubble. A cantora tem presença em cena e sua dança rende um dos melhores momentos do longa, sendo uma sequência divertida e criativa. O problema é que ela precisa atuar e ai as coisas se perdem um pouco, além da desnecessária história que envolve sua participação. Clive Owen faz um papel bem genérico na pele do comandante Arun Filitt, enquanto que completando esse núcleo de militares que aparecem demais em um filme como esse, temos o desperdiçado Sam Spruell como o General Okto-Bar, o tempo inteiro tentando encontrar uma informação com a qual já ninguém se importa do meio para o fim.

A trilha sonora de Alexandre Desplat dispensa comentários. Em muitos momentos há um viés mais eletrônico, quando em outros a trilha assume um tom mais voltado para a fantasia e também remete à space opera, algo intrínseco a aventuras espaciais. Isso somente reforça que esteticamente e em termos técnicos, mesmo não sendo memorável, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas oferece bons recursos e consegue encantar.

Ao final da projeção, a sensação que se tem é que uma história que possui mais de duas horas poderia ter sido contada em menos tempo, aumentando o interesse e desenvolvendo mais alguns pontos deficientes. Sendo assim, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é um filme que tem um visual incrível e boas concepções futuristas, além de ter uma boa premissa, mas que em seu roteiro e atuações, demonstra inabilidade em fazer o público criar um vínculo maior com seus personagens.

Avaliação:

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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