Crítica | ‘Planeta dos Macacos: A Guerra’ é um excelente blockbuster

Logo nos primeiros minutos de Planeta dos Macacos: A Guerra, a ação imposta sugere um intenso filme, corroborando com o seu nome. No entanto, o longa vai além da ação guerra pura e simples, demonstrando que um blockbuster pode ter um certo nível de profundidade, beleza e emoção. Sim, estamos falando de um filme feito para as massas no verão norte-americano mas que consegue ser contemplativo em seu conteúdo  intensão na execução.

Dando continuidade ao segundo filme da trilogia, Planeta dos Macacos: A Guerra nos insere diretamente em um conflito, onde César e seus macacos são forçados a entrar em um confronto mortal com um exército de humanos liderados por um Coronel impiedoso. Depois que os macacos sofrem perdas inimagináveis, César luta com seus instintos mais sombrios e começa sua jornada mítica para vingar sua espécie. Conforme a jornada os coloca frente à frente, César e o Coronel são colocados um contra o outro em uma batalha épica que vai determinar o destino de suas espécies e futuro do planeta.

O diretor Matt Reeves sabe o que está fazendo, mais uma vez. Depois de dirigir Planeta dos Macacos: O Confronto, ele retorna para finalizar a trilogia com muita segurança. A câmera de Reeves parece se mover com leveza até mesmo durante os momentos mais frenéticos e sabe captar profundas emoções nos momentos mais intimistas. Há muitas sequências no filme que assumem um tom mais minimalista, com poucos diálogos e muita expressão facial. A forma como são escolhidos os planos e os momentos em que a natureza é utilizada para nos situar em determinados locais dão ao filme um status de uma obra riquíssima em termos estéticos.

Estamos falando também de um filme em que o personagem principal é um macaco e nunca houveram tantos de sua espécie ao longo da trilogia. Em 140 minutos de projeção – que nunca se tornam massantes – a presença de César e seus seguidores é esmagadora em relação aos dois últimos filmes. Por conta disso, seria natural que em algum momento houvesse uma sensação de artificialidade. Mas isso não acontece aqui. Os efeitos especiais e a computação gráfica utilizada para dar vida aos símios é empregada de forma magnífica. Não somente o visual mas a fluidez dos movimentos e as expressões. Há filmes que convencem em termos de CGI. Este filme passou para outro nível, com apenas um pequeno deslize de artificialidade no final mas não relacionado aos macacos em si.

Se por um lado enaltecemos o trabalho de captura de movimentos e expressões, os atores precisam desempenhar um  bom papel para tornar este universo crível. É ai que o elogiado Andy Serkis atinge o seu auge em termos de atuação. Por ser um filme que assume um caráter mais emotivo e que coloca César em uma jornada pessoal, o ator tem a possibilidade de tornar o seu trabalho mais evidente, indo além reprodução de movimentos e falas. É possível enxergar uma ótima interpretação, o que eleva até mesmo o status de seu personagem, um dos mais interessantes e complexos que o cinema já mostrou nos últimos anos. César não é um herói tradicional e os três filmes o desenvolveram com tantas camadas e profundidade. Isso faz com que ele possua uma série de conflitos, sofra para conter os próprios instintos, assuma o protagonismo e abdique da liderança. Muitas coisas aconteceram nessa jornada e o que se vê aqui, de acordo com as motivações, são extremamente palpáveis.

A beira da extinção e com o vírus assumindo formas mais cruéis, a humanidade nunca esteve tão no limite quanto em Planeta dos Macacos: A Guerra. E a identificação com a mesma por parte do público é mínima, o que nos coloca diante de um vilão interpretado de forma brilhante por Woody Harrelson. Em que pese uma tentativa de emular Marlon Brando em Apocalipse NowHarrelson tem momentos muito bons e sua última cena no longa é de uma entrega notável. O personagem corria um sério risco de se tornar um vilão genérico e esquecível mas de forma até surpreendente, uma nova camada e motivações mudam esse panorama, o que evidencia ainda mais o ótimo roteiro escrito por Mark Bomback e Matt Reeves. É possível entender o porquê de suas atitudes e o primeiro filme sem Koba, o ótimo vilão dos filmes anteriores, não deixa de ter um bom antagonista. A propósito, há uma conveniência aqui e outra ali na história do filme, com direito a um deus ex-machina, mas nada que desabone o bom trabalho executado.

Além do Coronel, há duas adições no elenco deste filme que nos colocam em situações opostas em termos de sentimento. Se nos distanciamos dos militares e torcemos para nossa própria extinção, é impossível não se conectar com a menina Nova (Amiah Miller), que surge como contraponto aos humanos que não sabem trabalhar em conjunto com os macacos. Já o divertido Macaco Mau (Steve Zahn) é surpreendente pelo desenvolvimento enquanto espécie e ainda confere um alívio cômico que para muitos pode não funcionar, mas como elemento que nos tira do suspense em alguns momentos, acaba se tornando uma boa introdução.

Outro fator que contribui para uma imersão ainda maior no longa é a majestosa trilha sonora de Michael Giacchino. Imponente em muitos momentos e principalmente nas cenas de transição com planos abertos (algo que era notável em Lost), os momentos mais íntimos são simples e bem dosados. Isto auxiliado pela ótima fotografia de Michael Seresin. Reforçando o clima mais denso deste filme, que assume um tom mais sombrio em determinados momentos, o longa torna-se mais escuro, com uma paleta mais fria em relação ao longa anterior. E se observarmos a transição do primeiro para o terceiro filme, o visual mais morto vai tomando conta da história, o que nos minutos finais do filme assumem um caráter diferente, de acordo com os derradeiros acontecimentos.

É importante destacar que a expectativa quanto ao longa pode ter frustrado aqueles que esperavam um filme de guerra. Nossa tradução errônea sugere um conflito (e alguns cartazes também) mas até mesmo lá fora, onde o título correto é Guerra Pelo Planeta dos Macacos, muita gente ansiou por um filme com tiros, mortes e uma ação constante. Isto não acontece em Planeta dos Macacos: A Guerra, o que é bom. Há momentos de ação mas este filme é essencialmente um drama, onde os personagens também lutam suas guerras internamente. A trilogia é um arco de desenvolvimento humano, símio e do mundo como conhecemos; o filme encerra o que se iniciou de forma bem coerente.

Em uma época do cinema de franquia, onde blockbusters são intermináveis, a trilogia Planeta dos Macacos torna-se brilhante em um especto primordial: a capacidade de contar uma história com início, meio e fim, discutindo temas como evolução, cooperação e até aonde estamos dispostos a nos adaptar. Pode não ter o mesmo impacto que os filmes originais causaram, décadas atrás, pois há o fator que envolve o papel desses filmes no imaginário popular. No entanto, cada um dos novos longas funciona como um ato onde há desenvolvimento de personagens em curso. O César que chega ao final de Planeta dos Macacos: A Guerra é totalmente diferente daquele macaco que vimos no primeiro filme.

Também há uma arco interessante quanto a humanidade e um senso de sobrevivência envolvido muito forte nesses filmes. Esses fatores colocam o conjunto da obra não somente como uma das melhores trilogias feitas no século XXI, como também tem o mérito de conseguir tornar seus filmes melhores, em escala progressiva. Nenhum deles é ruim e a qualidade só aumenta. Quantas vezes não vemos o terceiro sendo o pior? Este se encarrega de fechar de forma extremamente competente a jornada.

Certamente entre os melhores filmes de 2017, Planeta dos Macacos: A Guerra consegue atingir um grau de complexidade que estamos pouco (ou mal) habituados no cinema pipoca. Isso é possível a partir da construção de um dos melhores personagens que o cinema nos deu nos últimos anos, sem contar a interpretação cirúrgica de Andy Serkis e para não ser injusto, os demais atores. É  sim um blockbuster, mas com qualidade necessária para não tornar-se esquecível e pungente o suficiente para comover em seu ato final.

Avaliação: 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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