Crítica | Game of Thrones 7×04: The Spoils of War

Há episódios que são capazes de mudar o status uma temporada. É o que acontece em The Spoils of War, que além de movimentar peças importantes e proporcionar ótimos momentos, coloca novamente Daenerys e Cersei em pé de igualdade, em um confronto que foi marcado pela grandiosidade de uma batalha como ainda não tínhamos visto. Em suma, uma mostra de que Game of Thrones em seus melhores dias pode proporcionar ótimas horas de televisão.

Além de combinar esses elementos, o episódio fez com que a conexão entre temporadas anteriores se intensificasse. Isto já vem ocorrendo por conta dos reencontros que a série vem promovendo e principalmente pelo fato das ações do passado estarem reverberando no presente. O que nos leva diretamente a um intrigante diálogo, que pode ser decisivo para um dos personagens mais astutos da trama.

Winterfell

Petyr Baelish ou Mindinho, desde o início, é um dos grandes jogadores desta guerra dos tronos. Sabemos que ele era amante de Lysa Arrin enquanto seu marido, Jon Arryn, era mão do rei Robert Baratheon. Arryn havia descoberto que todos os filhos do Rei eram frutos de incesto. Com isso, Mindinho deu a ela o veneno que matou Jon e enviou a um corvo para a Catelyn Stark informando que isto teria sido obra dos Lannister. Mindinho também falou para Catelyn que a Adaga usada no atentado contra Bran Stark era dele mais estava em poder de Tyrion, um Lannister. Por este motivo o anão foi capturado no Vale e a guerra de fato foi declarada. Conspirador e agente do caos, ele fomentou desde o princípio o ódio entre as Casas Stark e Lannister para assim dar início a tudo o que vimos até então.

Quando Bran Stark recebe a adaga de Aço Valiriano das mãos de Mindinho, que tenta a todo custo adular o jovem, a princípio o rapaz se mostra indiferente. Já sabemos que a postura do mesmo enquanto Corvo de Três Olhos mudou. Sentimos isso na frieza de seu reencontro com Sansa e agora com Arya (a quem surpreende ao mostrar que sabe de sua lista). Porém, um detalhe até pode ter passado despercebido mas um dos diálogos mais memoráveis que Game of Thrones já apresentou conectou-se diretamente com este momento.

“O caos é uma escada.” Bran Stark

Na cena final do do episódio 3×06 de Game Of Thrones, The Climb, Petyr Baelish e Varys falam sobre mentiras, o medo e a forma como as pessoas encaram a realidade. Em determinado momento Mindinho afirma: “o caos não é um precipício, o caos é uma escada”. Dada a capacidade de Bran parafrasear um das conversas mais importantes da trama e ter dado a arma para sua irmã, podemos concluir que o fim da linha pode estar próximo para Baelish. Como a trama atingiu um certo grau de previsibilidade ultimamente, se você apostar suas fichas nisso não estará pensando tanto errado.

Brandon tem sido um personagem que, desde a quarta temporada, vem sendo preparado para o grande momento que se aproxima. A maneira fria distante como ele tem se comportado, inclusive rejeitando o rótulo de lorde, dá uma noção que ao lado de Jon Snow, ele é aquele que mais tem noção do real perigo que vem do extremo norte. Veja o que ele diz quando despede-se de Meera: “Lembro-me de ser Brandon Stark. Mas lembro-me de muito mais agora”. Ela cumpriu seu propósito para a trama e ele apenas agradeceu.

A chegada de Arya Stark em Winterfell rende um momento bastante engraçado, em uma espécie de alívio para o que viria mais tarde. Seu diálogo perspicaz com os guardas é afiado e também coerente com a situação. O reencontro com Sansa, na cripta de Ned, é afetuoso e se lembrarmos que as duas não eram as maiores amigas anteriormente, é interessante notar a satisfação e o senso familiar. São duas jornadas que como elas mesmo dizem, ainda não terminaram. São longas e nada agradáveis histórias. De fato, nenhum dos Starks que retornaram à Winterfell são sombras do que eram antes.

O reencontro entre Arya e Brienne também é um dos grandes dos momentos do episódio. E é preciso observar este divertido duelo nas entrelinhas. Quando Sansa observa a irmã com uma expressão séria, é como se ela estivesse constatando no que ela se tornou agora e o que é capaz de fazer. Arya, ao desmonstrar suas habilidades, parece ter tido essa intenção. E que trio de personagens femininas forte temos agora em Game of Thrones. Cada qual a sua maneira, sendo mulheres que fogem do padrão convencional e seguiram suas jornadas para se tornarem diferenciadas em seu tempo.

Pedra do Dragão

A relação entre Jon Snow e Daenerys Targaryen passou para um outro nível. Assumindo que ele já está lá durante um bom tempo (é o que os eventos sugerem), a decisão de ajoelhar-se perante à rainha ainda não foi tomada. É interessante notar os pontos de vista. Jon não quer perder a confiança dos senhores do Norte, que o colocaram como protetor. Quase que como uma necessidade em não desagradar a escolha visto que ele não é por direito, quem deveria ocupar o cargo. Já Daenerys é bem perspicaz em seu questionamento: “A sobrevivência não é mais importante do que o seu orgulho?”. Ela vai ajudá-lo apenas se ele jurar lealdade, afinal.

Mas é ao solicitar seu conselho que vemos o estreitar dessas relações se intensificar. Quando ela questiona a lealdade (e eficiência dos planos) de Tyrion, pergunta imediatamente a Jon sobre o que deveria ser feito. “Se você usa dragões para derreter castelos e queimar cidades, você não é diferente”, disse ele. Mais cedo na caverna, ele mostra os desenhos deixados pelos filhos da floresta e isto parece dar a ela um pouco mais de crédito sobre Snow. É ai que se faz uma interessante conexão. Ao mostrar que os filhos da floresta e os primeiros homens se uniram para matar os White Walkers, concluímos que em algum momento a criação dos seres antigos saiu do controle e foi necessário entrar em acordo com seus inimigos para eliminar o mal maior. Do que se trata a situação atual de Westeros agora? O presente rima com o passado remoto mais uma vez e aparentemente, todas as forças juntas, odiando-se ou não, deveriam eliminar o mal maior. Algo ainda muito improvável no presente, diga-se.

A Grande Batalha

Após uma breve passagem onde Cersei demonstra toda sua confiança com o representante do Banco de Ferro, inicia-se o seu maior revés. A Batalha deste episódio é um dos momentos mais grandiosos em Game of Thrones, onde mesmo com um nível absurdamente notável de computação gráfica empregado, o realismo e a coreografia das cenas foram dignas de admiração.

O diretor Matt Shakman, que também dirigirá o próximo episódio, ainda não tinha filmado algo parecido em sua carreira e saiu-se muito bem aqui. O momento de tensão que antecede a chegada dos Dothrakis, os planos abertos enquadrando os soldados e a ação que se desenrola por toda a tela são impressionantes. O fogo que se vê em tela, em grande parte, é real e intensifica muito a imersão das cenas. Segundo uma reportagem que a EW publicou em Junho, 73 dublês foram incendiados durante a sequência, sendo que em uma das cenas, 20 ao mesmo tempo. Há ainda um plano-sequência incrível onde Bronn foge da ameaça em um misto de bravura e terror. O pânico ao ver um imenso dragão, a propósito, é notado a todo instante.

A incineração do exército Lannister é um daqueles momentos que garantem uma catarse coletiva, gostemos ou não de Daenerys. De fato, sem comprometer um civil, ela partiu para o ataque de forma impetuosa. No entanto, é impossível não lamentar por dois personagens que com todas as suas camadas, acabam sendo também queridos de alguma forma e que nos guiam pela batalha através de seus pontos de vista. Isto, aliás, é o que tornou a ameaça ainda mais assustadora.

Jaime Lannister, do qual reclamei não ter um bom desenvolvimento nos últimos tempos, roubou para si as atenções resistindo bravamente, sendo lançado para a morte conforme Olenna Tyrell o advertiu. Se ele sobreviver, talvez isto o faça refletir. Bronn, um dos mais carismáticos personagens da série, mostrou suas qualidades ao utilizar o “escorpião”, que feriu Drogon. A última cena deixa o futuro dos dois em aberto e encerra o episódio nas alturas.

É importante não deixar de lado a reação de Tyrion. Sua expressão aterrorizada no alto de uma colina reforça sua posição incômoda e nos dá a exata sensação de como enxergar a guerra por pontos de vista distintos – agora o dele. Talvez ele tivesse realmente tentado evitar, em sua estratégia de cerco, o confronto que poderia dizimar o exército de sua família. Agora que a guerra está em vias de fato, não há mais o que lamentar.

Definitivamente The Spoils of War trouxe uma nova perspectiva para Game of Thrones. Seja através de uma guerra em campo aberto ou nas entrelinhas em torno do poder, a série consegue retomar seu fôlego através de diálogos inteligentes e explorar toda sua mitologia, ao mostrar o ataque de um gigantesco dragão em sua plenitude. É um episódio que, tal qual a memorável Batalha dos Bastardos, não iremos esquecer tão cedo.

Últimas palavras

* Há uma teoria circulando entre fãs de que alguém está traindo Daenerys. De fato, Davos tem andado muito interessado em Missandei por conta de constantes questionamentos. A conferir.

* Se você é um entusiasta de Daenerys, deve ter temido pela vida de Drogon, quando escorpião usado por Bronn entrou em ação. Mas uma coisa é certa: que esta é definitivamente uma arma badass.

* É importante pensarmos (e relevarmos) que nesta temporada mais curta, os saltos no tempo estão cada vez mais largos. Não foi de uma hora para outra que Daenerys chegou até o exército dos Lannisters. Porém, será que o representante do Banco de Ferro está esse tempo todo em Porto Real? Que tedioso.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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