Crítica | Dunkirk é uma incrível experiência cinematográfica

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma das histórias mais incríveis aconteceu durante a Batalha de Dunquerque, na França. Encurraladas pelos alemães, as forças aliadas que incluíam britânicos e franceses foram forçadas a deixar o país pelo mar, em uma fantástica operação batizada de Operação Dínamo. Dunkirk trás este retrato de forma magistral e impecável, sendo um registro definitivo do evento histórico.

O filme começa exatamente neste cenário de guerra, com centenas de milhares de tropas britânicas e aliadas cercadas por forças inimigas. Diretamente no centro da ação, somos empurrados para dentro da tela e nos sentimos como as tropas, encurraladas na praia e com o mar em suas costas, tendo que enfrentar uma situação impossível à medida que os inimigos se aproximam.

Com uma direção impecável, Crhistopher Nolan realizou um de seus maiores trabalhos em Dunkirk. O filme é dotado de uma cinematografia impecável que reúne elementos que se combinam para resultar em uma experiência única. Com poucos diálogos, o longa se apoia na trilha incessante e não convencional de Hans Zimmer, que dita o tom a medida que as situações se desenrolam. Fazendo uso de muitos efeitos práticos, planos abertos exuberantes e com sequências incríveis no mar e no ar, o filme não precisa de um óculos 3D ou outro recurso para aumentar a experiência. A imersão é inevitável e a tensão da guerra com todos os seus medos e perigos é uma constante.

Quando o longa recebeu uma classificação indicativa baixa (14 anos no Brasil), uma das dúvidas que surgiram foi sobre a capacidade de retratar um evento de forma fiel sem que, necessariamente, pudesse fazer algo como o recente Até o Último Homem. No longa de Mel Gibson, um verdadeiro espetáculo regado a sangue é mostrado na Batalha de Okinawa. Já em Dunkirk, Nolan deixa de lado a violência gráfica e investe na claustrofobia como elemento fundamental para criar a tensão. Com os horrores da guerra sendo expostos e colocando os personagens em situação onde todos os limites são testados, não há saída.

O senso de coletividade também é absurdamente bem desenvolvido. Na praia, centenas de soldados são vistos em um cenário a perder de vista, sempre com o horizonte ao alcance do campo de visão. Ali, um cenário de terra arrasada é percebido tantos nas tomadas aéreas quanto nos momentos mais intimistas, onde seguimos uma série de personagens sem, entretanto, ter uma forte conexão com eles. Assim como o silêncio que é interrompido por diálogos pontuais, o evento em si torna-se um personagem, dando as atuações apenas o papel de desempenhar pontos de vista distintos.

A narrativa intrincada e a estrutura não linear poderia causar confusão na compreensão dos fatos mas a montagem é executada de forma magistral. Em momento algum o filme perde o fôlego e os pontos de vista mostrados dão ao longa a propulsão necessária para se manter no topo. Nolan também assina o roteiro e sua intenção de dar ao filme uma visível falta de apego a uma figura inspiradora específica pode soar como fria ou problemática, mas é da mesma forma, um acerto em termos de proposta e mensagem que o filme transmite. A sobrevivência de um todo acaba sendo o foco principal.

O elenco em Dunkirk é responsável por dar o filme o realismo necessário para uma abordagem tão intensa. Nenhuma atuação deixa de transmitir o que cada momento pede e os personagens possuem características próprias notadas, mesmo com o proposital desenvolvimento raso. Com o conjunto dando lugar a um heróis, conhecemos apenas o suficiente de cada um deles e suas ações que combinadas resultam no sucesso da operação. Desta forma, a ausência de emoção por falta de um protagonista não se torna um problema e a admiração vem do feito conquistado por milhares de homens.

Todas as atuações, sem exceção, merecem destaque. Nomes menos conhecidos como Fionn WhiteheadBarry Keoghan, Aneurin Barnard e Harry Styler se unem a veteranos como Mark Rylance, Kenneth Branagh, Tom HardyCillian Murphy. Todos estão onde devem estar e fazem o que precisam fazer, com determinação, perturbação, medo ou dever. Há momentos onde uma expressão no rosto dos atores se torna mais do que suficiente para entender o que se passa. Tudo é transposto de forma que a técnica se mistura a boa interpretação, dando o status ao filme de obra de arte em sua essência.

Determinadas obras costumam marcar um gênero e se Dunkirk será uma obra-prima cultuada por décadas ou um clássico instantâneo como muitos gostam de definir, somente o tempo poderá dizer. Mas como retrato de um evento histórico e como filme que redefiniu a guerra e a maneira como ela pode ser mostrada, definitivamente estamos diante de uma obra-prima assinada por Christopher Nolan.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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