Crítica | Game of Thrones 7×03: The Queen’s Justice

Finalmente gelo e fogo se encontraram em Game of Thrones. Em um episódio que estabeleceu interessantes dinâmicas entre personagens, The Queen’s Justice também deu a oportunidade de presenciarmos em tela momentos de humor bem sutis, bons diálogos e um arco de desenvolvimento de personagem um pouco frustrante.

Logo no início e para a surpresa de muitos, o encontro entre Jon Snow e Daenerys Targaryen aconteceu e tomou para si boa parte do episódio. A dinâmica entre os dois foi regada por uma teimosia mútua, além de um monólogo poderoso e da soberba cada vez mais evidente de Daenerys, ainda flertando com a loucura. As motivações de ambos são claras. Jon não foi até Pedra do Dragão para se ajoelhar nem Danny está disposta a acreditar na fantástica história dos mortos, embora estejamos em um universo onde a própria é mãe de três dragões. Em um impasse onde nenhum dos dois parece ter interesse em suas agendas, surgiu mais óbvia constatação do bastardo de Winterfell:

“Porque agora você, eu, Cersei e todo mundo somos crianças brincando e gritando que as regras não são justas. Todos vão morrer antes do fim do inverno se não derrotarmos o inimigo no Norte”. Jon Snow

Nos bons diálogos entre os dois, ficou em evidência também o fato de que os filhos não podem pagar pelos pecados dos pais. O Rei Louco era um governante mau, disse a própria filha. Mas isto não a impede de desconfiar de um Stark, cuja casa apoiou Robert Baratheon em sua rebelião que quase dizimou sua dinastia. É hora de quebrar paradigmas, entretanto, pois frente a frente estão aqueles que tem feito isso com frequência.

Game of Thrones também traçou caminhos distintos para muitos personagens até aqui. Os diálogos entre Tyrion Lannister e Jon Snow, que possuem uma ótima interação aqui, exprimem bem isso. Durante a subida até a Mãe dos Dragões (que inclui um voo rasante de assustar qualquer nortenho) eles falam sobre Sansa e as jornadas de ambos, que os levaram até Meereen e Winterfell. O que para nós é de pleno conhecimento para estes personagens é uma surpresa e são histórias tão longas – e sangrentas – que levariam horas.

Também é curioso como o episódio tratou de dar uma camada sutil de alívio cômico ao encontro. É impossível não rir da apresentação interminável que Missandei faz sobre Daenerys, para em seguida vermos a réplica simplória de Davos: “Este é Jon Snow. Ele é o Rei do Norte”. As expressões de Peter Dinklage, Liam Cunningham, Peter Dinklage e Emilia Clarke foram impagáveis e o trabalho cênico dos atores foi brilhante.

Uma rainha cruel

Em Porto Real, Cersei fez valer o seu senso vingativo de justiça e expôs sua pior faceta. Como se ainda precisasse. Fria e calculista, a rainha não somente prendeu Ellaria e sua agora única filha. Ao envenenar a última das Serpentes da Areia e sentenciá-la a morte, os requintes de tortura para sua vingança foram elevados de uma forma que não duvidamos, mas ainda assim choca. Ver uma filha morrer e ser prisioneira para sempre é o tipo de coisa que dá eleva o status vilanesco da rainha.

Um pouco caricato mas trazendo um contraste com o clima tenso da capital, Euron Greyjoy conseguiu os seus presentes. Sua chegada à la rock star dá uma visão interessante do quanto o povo é volúvel em Porto Real. Os mesmos que xingaram Cersei na caminhada da vergonha agora ovacionam um gesto de vitória do regime atual. Qualquer semelhança com o que acontece em governos ao redor do mundo não é mera coincidência.

Outro fato corrobora a alcunha de Euron de melhor navegador dos 14 mares. Em um mesmo episódio ele retorna com seus “dotes” e depois está com sua frota no cerco ao Rochedo Casterly. Mas em defesa dele, também houve uma marcha relâmpago do exército Lannister em Jardim de Cima. A crítica neste ponto não é quanto ao avanço da história com saltos de tempo mas as demais tramas não parecem acontecer ao mesmo tempo. Entretanto, as cenas de batalha, embora breves (econômicas eu diria), foram bem executadas e foi bom ver pela primeira vez a morada das Casas Tyrell e Lannister.

O personagem que não evolui

Outro Lannister em evidência nesta temporada, Jaime tem tido um desenvolvimento muito aquém do que poderia. Cada vez mais aceitando e permitindo até mesmo uma espécie de abuso (pois é), o personagem era um dos que apresentavam durante toda a série um dos melhores arcos de desenvolvimento.

De personagem cinza que comete seus erros mas conseguiu ser misericordioso com Brienne nas terras fluviais, Jaime tem sido apenas um mero capacho da irmã. As ações de Cersei culminaram também na morte de seu filho Tommen, além da destruição grande Septo de Baelor. O senso crítico de Jaime tem dado lugar a uma submissão que tem tornado o personagem menor do que poderia ter sido. Há um amor envolvido nisso mas a questão do afeto também já deveria ter chegado em seu limite.

Pode ser que os roteiristas queiram nos levar para uma situação extrema onde, ao invés de morrer pela rainha ele poderá matá-la, fazendo jus ainda mais ao título de regicida e cumprindo uma profecia de temporadas passadas. Entretanto, o que mais haverá para revoltá-lo ou repensar sua posição? De certa forma, se isto acontecer há um terreno sendo pavimentado para justificar.

Reencontro no Norte

Comandando Winterfell, Sansa demonstra um estilo de liderança nato e sempre com Mindinho no seu encalço. Sabemos que Baelish e Varys desempenham um papel de bastidores semelhantes e exercem uma influência muito grande. Seu diálogo com a Lady interina do Norte é poderoso neste sentido e importante observar:

“Não lute no Norte nem no Sul. Lute em todas batalhas em todo lugar sempre, na sua cabeça. Todos são seus inimigos, todos são seus amigos. Todos os eventos possíveis estão acontecendo ao mesmo tempo. Viva desse jeito e nada vai surpreender você. Tudo que acontecer você já terá visto antes.”

No entanto, cabe aqui um questionamento: o que o Mindinho ainda faz por lá? Há um senso de gratidão por conta da batalha dos bastardos, é verdade. Mas você hospedaria uma pessoa pela qual você não demonstra confiança alguma por tanto tempo? Algo relacionado a isso ainda deve acontecer e parece que a situação está muito confortável para a pessoa em questão.

Outro momento curioso foi a chegada de Bran Stark. Ai é importante destacar alguns pontos. O primeiro é que o reencontro entre os irmãos foi extremamente frio e mesmo sendo o Corvo de três olhos, este Bran é muito alheio aos sentimentos do que era até o fim da temporada passada. Em um episódio onde Daenerys e Jon estabeleceram uma dinâmica interessante e Cersei roubou para si as atenções com sua maldade, a frieza com a qual isto foi retratada quase o fez passar despercebido. Também esperava um pouco mais de Sophie Turner no momento em que viu o irmão, já que Isaac Hempstead-Wright demonstrou uma inexpressividade única.

Sam é o nerd da cadeira

Samwell Tarly e Jorah Mormont tiveram uma boa jornada nesses primeiros episódios. A cena de despedida é muito boa e a dinâmica entre os dois personagens funcionou nos momentos em que estiveram juntos. Fica claro, porém, que na Cidadela Sam está atendendo às necessidades do roteiro ao movimentar peças importantes. Vejamos: lá ele conseguiu curar Jorah, que deverá desempenhar um papel importante na luta de Daenerys. Além disso, foi ele quem descobriu a informação sobre o vidro de dragão. Gostamos da jornada de Samwell e ele se tornou o nerd da cadeira, parafraseando Ned, o amigo de Peter Parker em Homem-Aranha: De Volta ao Lar. O que mais nosso nerd estagiário irá providenciar direto da fonte de todo conhecimento?

De modo geral, até aqui estamos diante de situações que fazem desta temporada de Game of Thrones um conjunto de acontecimentos interessantes, mas sem um fator que notabilizou a série (até um certo ponto) e os livros de George R.R. Martin: a imprevisibilidade. Com menos episódios para contar o fim dessa história, alguns acontecimentos apressados tem ocupado a narrativa, além de uma certa obviedade e conveniência em algumas tramas. No entanto, The Queen´s Justice obteve sucesso ao mostrar um aguardado encontro, além de estabelecer mais uma vitória de Cersei e colocar Daenerys na obrigatoriedade de uma ofensiva. Mas é bom lembrar: o Rei da Noite está vindo.

Últimas palavras

* Muitos personagens tem aparecido mas The Queen´s Justice deixou de fora o núcleo da Muralha neste episódio. A Irmandade Sem Bandeiras e o Cão de Caça também estiveram ausentes, mais uma vez.

* É uma pena nos despedirmos das boas atuações de atriz Diana Rigg.  Olenna Tyrell é uma daquelas personagens que caem de pé. Advertir Jaime sobre sua situação e ao mesmo tempo confessar a trama por trás da morte de Joffrey é um daqueles momentos em que não são necessários nada mais do que algumas linhas de diálogo para admirar uma atuação, além de ver um personagem ganhar o jogo mesmo perdendo a vida.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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