Crítica | 7 Desejos

Cuidado com o que você deseja. Sob essa premissa, 7 Desejos (Whish Upon) desenvolve uma história que gira em torno de vontades e consequências. A trama de terror com viés adolescente não é diferente de tudo o que você já assistiu e possui seus pontos altos e baixos, podendo desagradar aqueles que tenham uma expectativa alta ou até mesmo surpreender os que não esperam por uma grande produção.

No filme, Clare Shannon (Joey King) é uma garota de 17 anos que está tentando sobreviver a vida de estudante, até que seu pai (Ryan Phillippe) encontra uma antiga caixa de música e lhe dá de presente. O que a garota vem a descobrir é que a misteriosa caixa pode lhe conceder sete desejos e com eles, ela pode ter a chance de conquistar tudo o que quer. Porém, quando Clare descobre que tudo tem um preço, vai aprender isso da pior maneira.

Quem dirige 7 Desejos é John R. Leonetti, mesmo diretor de Annabelle (2014). É interessante notar que sua carreira na indústria é extensa, com dezenas de trabalhos creditados como diretor de fotografia, incluindo o ótimo Invocação do Mal (2013). Entretanto, Leonetti dirigiu apenas quatro longas em quase três décadas e nenhum deles recebeu grande aprovação de público e crítica. O Perigo Bate à Porta (2016)Efeito Borboleta 2 (2006)Mortal Kombat – A Aniquilação (1997) estão entre as produções de gosto duvidoso assinadas pelo diretor.

Em 7 Desejos, Leonetti opta por utilizar um recurso que pode provocar no espectador uma sensação de frustração, caso o mesmo esteja interessado em mortes com gore e violência gráfica explícita. Ao invés disso, a construção do clima e o suspense que as envolvem são exploradas, embora a maioria das mortes sejam previsíveis e simples, o que enfraquece o suspense. Algumas acontecem por meio de acidentes bem insensatos. Outro fator adicional é que, em grande parte, a fotografia do filme não sugere um clima de terror propriamente dito. A paleta de cores destacando o preto, vinho, roxo e vermelho é algo notável mas grande parte das cenas ocorrem de dia e no ambiente escolar. Não que isto seja uma obrigatoriedade ou garantia de sucesso, mas para um filme que se preocupa em explorar um elemento sobrenatural, soa deveras clean em grande parte. Curioso é o fato de que isso aconteça em um filme onde o diretor é competente na direção de fotografia, em filmes de terror, mais especificamente falando.

Quem assina o roteiro é Barbara Marshall, já ambientada com o gênero nos longas Viral (2016) e Verdade ou Consequência (2010). A trama possui basicamente uma fórmula dos filmes adolescentes, onde há os clichés inerentes a estas produções. Estereótipos como a garota popular, o nerd, o bonitão por qual a protagonista é apaixonada…tudo está presente e o longa gasta boa parte do primeiro ato para introduzir e motivar Clare a fazer os pedidos, além de explicar como a caixa vai parar em suas mãos. No segundo ato, as mortes começam a surgir e apenas no terceiro, há um plot twist interessante, mas que destoa de todo o contexto sobrenatural sugerido, misturando outros conceitos. Entretanto, isto revira totalmente a história do avesso, trazendo uma nova perspectiva.

Como protagonista, Joey King desempenha um bom papel e é o que há de melhor no filme. A talentosa atriz de apenas 18 anos é carismática, possui uma simpatia notável e isso auxilia bastante na construção de sua personagem. É importante dizer que 7 Desejos não tenta ser um filme sombrio, trazendo boas doses de humor em alguns momentos. Clare é uma adolescente com desejos e aspirações típicas da idade, tem problemas com a falta de popularidade e sente vergonha do pai, interpretado por Ryan Phillippe, que revira as lixeiras da cidade em busca de objetos de valor, como a caixa. No breve prólogo do longa ainda vemos Clare quando criança e os motivos que levam ela e seu pai a terem uma camada de tristeza em suas vidas, bem como suas motivações.

As demais atuações, no que diz respeito a proposta de 7 Desejos não comprometem o filme nesse aspecto. As duas amigas de Clare, Meredith (Sydney Park) e June (Shannon Purser, a Barb de Stranger Things), formam um trio divertido, cada qual com seu temperamento. Todas possuem um arco de desenvolvimento conforme os desejos vão sendo atendidos, embora haja traços mais caricatos na interpretação de Park. Outro personagem de destaque é Ryan, vivido por Ki Hong Lee. O garoto possui participação bastante efetiva do segundo ato em diante e o personagem cresce bastante durante o filme. Já Ryan Phillippe não possui uma atuação notável mas nada que comprometa, enquanto que Sherilyn Fenn, que interpreta uma vizinha da família, possui uma discreta mas boa participação.

A mensagem que o filme se propõe a passar são as consequências. Muitos poderão questionar os motivações de Clare, tendo os sete desejos em mãos (que ela vai descobrir que estão acontecendo com o tempo) e direcionando-os para seu benefício pessoal apenas, o que possibilita um desenvolvimento de caráter da personagem. Não, ela não erradica a fome ou pede a paz mundial, mas você não esperava por isso, não é? O filme até brinca com este senso individual em uma determinada fala, como se estivesse assumindo uma mea-culpa. Mas as atitudes são de certa forma coerentes com a mentalidade da personagem, sendo um dos pontos positivos que mantém a coerência. A reação em cadeia onde um evento indesejado vai levando a outro, tornam algumas situações irreversíveis, mesmo com aparentes soluções.

No entanto, a mitologia apresentada carece de algumas explicações, embora tudo aparentemente pareça ter sido amarrado dentro daquele universo. Ter uma caixa com origem chinesa e a grafia em mandarim antigo é de certa forma algo não muito inventivo, mas até interessante de se explorar. Mas ai as conveniências de roteiro se fazem presentes, além dos estereótipos culturais. Um amigo oriental, com uma prima oriental ( Alice Lee ) que estuda e traduz línguas antigas. Além disso, na escola aprende-se mandarim, é claro. Há também um quê meio oitentista na trama escolar ao mostrar os arquétipos típicos daquela geração transpostos para uma escola atual. Aliás, cabe aqui uma observação: o elenco juvenil torna-se inverosímel, em sua maioria, com atores na casa dos vinte e poucos anos.

Mantendo uma história que preza mais pela mensagem do que sua execução, 7 Desejos possui um bom ritmo, cria um clima de suspense previsível, apenas flerta com o terror mas consegue ser, no fim das contas, um divertido filme, para o bem ou para o mal e dependendo de suas expectativas. Ter cuidado com o que deseja é o que você poderá pensar no fim, pois as mortes e o elemento sobrenatural não irão assustar tanto ou ser memoráveis em sua maioria. No entanto, com uma reviravolta interessante e atuações que não comprometem, não é totalmente dispensável em seu gênero ou muito diferente da maioria dos filmes que exploram este conceito.

* Há uma cena durante os créditos finais e se você assistir ao filme, será importante conferir.

Avaliação: 


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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