Crítica | Okja é uma bela e sensível história de amizade

Se uma das propostas de Okja era falar de um assunto indesejado de maneira agradável, de fato este objetivo foi alcançado. Após ser aplaudido de pé no festival de Cannes, para ser vaiado em seguida por conta da polêmica distribuição pela Netflix, o longa propõe uma discussão de forma leve e visualmente bela, sem deixar de lado o viés desagradável que o tema expõe.

O filme se passa em 2007, quando a Mirando Corporation afirma ter descoberto uma nova raça de “super porco”, capaz de proporcionar mais carne do que qualquer outro animal no planeta e com menor impacto no meio ambiente. A empresa distribui animais para vários agricultores diferentes ao redor do mundo, para que eles cresçam livres. Dez anos depois, acompanhamos a trajetória de Mikha, uma menina sul coreana que arrisca tudo para evitar que  a poderosa empresa multinacional leve de volta sua melhor amiga, a gigante chamada Okja.

A direção é do hábil Joon-ho Bong, habituado em lidar com temas complicados. O grande mérito do diretor neste filme é fazer com que o filme atinja um equilíbrio, sendo acessível ao grande público, assumindo-se como uma aventura divertida em que, em alguns momentos, desenvolva através de tons mais sombrios seu tema complicado de discutir. A crítica social se faz presente quando observamos as corporações, as pessoas que as comandam, a forma de consumo e não necessariamente mira apenas no fato de comer ou não carne. A forma de tratamento dos animais é um dos subtextos que não necessariamente são falados mas percebemos, em momentos impactantes.

OKJA

Outros fatores contribuem para o desenvolvimento da linguagem visual do longa. Nas montanhas sul coreanas, a fotografia é limpa, bonita e quando adentramos as entranhas da Mirando, o cinza toma conta, conferindo um tom claustrofóbico que remete  a um holocausto. A intenção é clara: vilanizar a industria alimentícia, utilizando como exemplo a empresa. Só que ao mostrar o ativismo animal, na figura das Forças de Libertação de Animais, o roteiro não perde a mão, deixando bem claro que o extremismo é algo que pode prejudicar uma causa, além de evidenciar que não há perfeição e todos são falhos em algum momento.  

O tom aventureiro do longa nos coloca diretamente no centro da ação em vários momentos, sobretudo no segundo ato. As sequências são muito bem executadas, com perseguições de carro e fugas absolutamente bem filmadas, com ângulos bem escolhidos e que poderiam deixar filmes de ação em maus lençóis, se comparados. Quando desacelera para recuperar o fôlego, o ritmo cai e isso é perceptível. No entanto, a história é atraente o suficiente para não dispersar a atenção. Ao acompanharmos uma história que sobretudo foca na amizade entre uma menina e a super porca com quem cresceu, não desviamos o olhar em momento algum para o objetivo.

Se a direção é um ponto a ser exaltado no filme, o elenco também realiza um belo trabalho em Okja, com um número considerável de rostos conhecidos do cinema e da televisão. A sul coreana Seo-Hyun Ahn tem uma atuação envolvente no papel de protagonista, com uma expressão que remete a um misto de ingenuidade com determinação. A sempre hipnótica Tilda Swinton, mestre em papéis com um quê de estranheza, também realiza uma ótima composição na pele da empresária Lucy Mirando, com uma boa dose de mea-culpa e extravagância. Conferindo um tom mais exagerado, Jake Gyllenhaal entrega uma atuação tresloucada como o Dr. Johnny Wilcox, um famoso veterinário que está a frente do projeto. 

Okja

Liderando os ativistas, Paul Dano consegue transmitir as boas intenções de seu grupo e ao mesmo tempo, mostrar-se como uma figura que passa do ponto em determinadas atitudes. O mesmo pode se aplicar aos demais, onde destacam-se as boas atuações de Steven Yeun (mesmo lembrando o Glenn de The Walking Dead) e Lily Collins. Outro nome que merece uma menção é Giancarlo Esposito, que possui pouco tempo de tela mas, nos momentos em que ele aparece, em especial quando tem pouco a dizer, são notavelmente engraçados.

Quando o filme precisa mostrar situações cruéis, não necessariamente associadas ao gore, consegue fazer de forma inteligente e pontual, mantendo o choque mas não apelando para o sangue. Você pode procurar vídeos no Youtube com essa finalidade, a propósito, então não há, acertadamente, tanta necessidade neste sentido. Há duas cenas durante o terceiro ato capazes de arrancar lágrimas, mesmo que você continue comendo bacon sem culpa alguma em seguida. O tema se expande além do básico e vai bem além desta simples discussão.

Uma relação de amor e amizade

Dentre tantos elementos que qualificam Okja, um deles são os surpreendentes efeitos visuais. Os movimentos, a textura e o olhar da Okja são de fácil identificação e críveis. É claro que devemos assumir que, ao criar uma super porca que mais se parece com um hipopótamo com orelhas de coelho e temperamento de um cão manso, há uma intenção em criar mais empatia com o público, ao vermos em tela uma criatura mais “fofa”. De fato as expressões obtidas e a forma como ela se relaciona com Mikha, de cara, já nos coloca rendidos em relação a isso.

Um dos mais belos momentos do filme acontecem quando vemos, a partir da separação das duas, a importância que elas possuem uma para a outra. A relação entre homem e animal é explorada de formas distintas. Para os empresários da Mirando, os super porcos representam mais carne no prato e dinheiro no bolso. Para o avô de Mickha, parte de um acordo comercial. Para a menina, Okja é parte integrante da vida como ela conhece, tendo sido criada livremente, assim como a criatura.

Esta relação de amizade e respeito discute uma condição superior do homem, ao subjugar as demais espécies, sem considerar dar um tratamento digno em muitos momentos. Em uma determinada cena, Mikha deseja apenas trazer sua companheira de volta para as montanhas e viver, em compania dela, a vida simples de sempre.

Também é importante notar que grande parte da tensão observada vem no contexto psicológico, sobretudo no que pode vir a acontecer. Tal incerteza nos dá a exata sensação do que acontece em um matadouro e esta tensão é o que se discute muito hoje em dia, entre os grupos que inclusive defendem os direitos dos animais. Se não há como privá-los de servir à cadeia alimentar, que isto possa ser feito da maneira menos estressante possível. Este equilíbrio está contido nas entrelinhas de Okja, não sendo suficientemente panfletário, tampouco negligente em sua abordagem.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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