Crítica | GLOW: 1º temporada é uma comédia viciante e divertida

Revisitar os anos 80 não é nenhuma novidade para a Netflix. Nem explorar uma trama com personagens femininas no centro do protagonismo. Afinal de contas, Stranger Things e Orange is the New Black estão ai para comprovar essa afirmação. Em GLOW, há uma atmosfera nostálgica e mais de uma dezena de mulheres lutando, não necessariamente no ringue, mas pelos seus objetivos e lidando com as consequências de suas escolhas.

Criada por Liz Flahive Carly Mensch, a série acompanha Ruth (Alison Brie), uma atriz desempregada e desiludida que em los Angeles, encontra uma nova forma de sobreviver. Ela se une a um grupo de mulheres, entre elas atrizes, dublês e dançarinas, para formar a “GLOW”. Elas participam de lutas livres e esperam fazer carreira no show business. Com produção executiva de Jenji Kohan e Tara Herrmann (Orange is the New Black), a inspiração vem de uma famosa liga feminina de luta livre dos anos 80, que chegou a ficar no ar por 4 anos e ganhou um documentário lançado em 2011, intitulado GLOW: The Story of The Gorgeous Ladies of Wrestling.

É importante não se enganar sobre a abordagem em GLOW. Aparentemente, pode parecer uma série sobre wrestling. Mas a luta livre acaba se tornando um bom elemento como pano de fundo, dando espaço para o desenvolvimento das personagens e seus arcos. Algumas possuem menos tempo de tela, ao passo em que outras possuem naturalmente um maior destaque. Mas o importante é que, em seus 10 episódios, o foco permanece em mostrar com um humor ácido, a luta de 14 mulheres por um lugar ao sol.

Mesmo sendo uma comédia, há certos temas abordados que dão um toque dramático à história, ao lidar com temas como aborto, misoginia, infidelidade, racismo e o papel da mulher na indústria e sociedade em geral. Não chega a ser uma série feminista, embora tenha um certo viés neste sentido. Glow é mais sobre suas personagens do que uma bandeira específica. Este grupo de mulheres torna-se o foco, a partir de suas frustrações e expectativas, cada qual ao seu modo. E o melhor: em que pese um tom meio caricato em alguns momentos, elas parecem mulheres de verdade, o que é um ponto positivo para a trama.

A atmosfera da série trás um quê de anos 80 em vários aspectos. Seja em seu design de produção e fotografia que remetem aos filmes deste período, passando pelos penteados característicos e os figurinos exagerados da época. A ar cafona necessário é empregado mas sem grandes exageros. A série ainda brinca com elementos históricos da época como a Guerra Fria, rendendo um dos melhores e mais engraçados episódios. A música também é importante neste sentido, oferecendo um clima especial ao trazer Tears For Fears, Journey, Roxette, Scorpions, Queen e David Bowie. No entanto, mesmo jogando com elementos nostálgicos, GLOW não se apoia nisso e conta uma história que independente destes aspectos, é atraente.

Os destaques acabam sendo, inevitavelmente, o trio principal. Alison Brie dá vida de forma cômica e graciosa à Ruth, personagem que transita entre o estereótipo da atriz que busca uma oportunidade sem sucesso e algumas camadas mais aprofundadas, como a mulher que tenta se virar sozinha em uma época ainda machista, mas com mudanças sociais ainda em curso. A série também explora sua vida amorosa, confusa e inusitada, tendo inclusive uma grande surpresa revelada piloto. Ruth leva o seu papel a sério, e ao tentar impor dramaticidade a sua personagem na luta livre, acaba não obtendo muito êxito, tendo que se adaptar ao meio e se reinventar.

De fato, Ruth dá a série o poder de discutir, através de uma metalinguagem, cinema e a televisão sem o glamour dos grandes estúdios. É ai que também temos outros dois personagens importantes neste processo. O diretor Sam Sylvia, vivido por Marc Maron, possui um lado caricato ao expor sua visão de arte para com as lutadoras, trazendo um ar inicialmente detestável como um amargo diretor de filmes de baixo orçamento, que no decorrer dos episódios gera um pouco mais de empatia com as meninas. O cineasta ainda não conseguiu emplacar um grande sucesso e quem chegou mais perto disso, estrelando uma novela, foi Debbie. O melhor da atuação de Betty Gilpin é poder transitar entre os papéis de mãe, mulher, atriz e esposa traída, com feições variadas como fúria, fragilidade e imponência. No entanto, sua subtrama perde em substância nos últimos episódios.

Porém, não há como ignorar as demais personagens que acrescentam humor e tornam GLOW especialmente empoderador e hilário, mostrando através de mulheres com múltiplas personalidades e objetivos, uma série de questões inerentes ao cotidiano feminino, mesmo que não haja tanta profundidade. A série também  se encarrega que não esquecer que é um comédia, refletindo isso através de personagens como Rhonda “Britânica” (Kate Nash) e Sheila “A Loba”(Gayle Rankin), ao passo em que procura desenvolver algumas histórias mais aprofundadas para que possamos nos identificar, como quando lidamos com a simpática Carmen “Machu Pichu” (Britney Young) e com a “treinadora” Cherry (Sydelle Noel), que procuram lidar com baixa auto-estima e frustração. 

Com 10 episódios de aproximadamente meia hora, o ritmo não se perde, com pequenas exceções no meio da temporada. Este formato mais enxuto permite contar uma história simples e ao mesmo tempo dar espaço e voz as personagens. Em tempos onde a Netflix não assegura mais suas produções para uma nova temporada com a certeza de antes, ainda é incerto o futuro de GLOW. Mas não se pode negar que a série é divertida e mesmo descompromissada, sem possuir a profundidade de um drama, tem conteúdo suficiente para não tornar-se apenas rasa, com boas atuações e um texto bem dosado.

Avaliação: 

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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