Crítica | American Gods: 1º temporada é uma viagem confusa, diferente e visualmente incrível

Quando decidiram adaptar a obra literária homônima de Neil Gaiman, os criadores Bryan Fuller e Michael Green tinham uma tarefa ousada em mãos: apresentar um universo fantástico que une elementos mitológicos e modernos, representados através de cenários e pessoas reais. Em sua primeira temporada,  American Gods mostrou potencial suficiente para tornar-se uma série com uma estrutura ousada e única, apoiadas no visual peculiar de Fuller e na escrita hábil, porém oscilante de Green. Afinal de contas, estamos falando do criador de Hannibal e do roteirista do ótimo Logan (2017), do vindouro Blade Runner 2049 (2017) e do discutíveis Alien: Covenant (2017)  e Lanterna Verde (2011).

De fato, diversas séries tem feito um caminho bastante comum nos últimos anos. Migrar uma história das páginas para os livros é uma tarefa árdua, afinal de contas o público literário geralmente costuma exigir uma adaptação convincente, ao passo que em um novo formato, uma história não funciona exatamente da mesma forma, precisando ser palatável para a mídia em questão. Recentemente, The Handmaid´s Tale realizou com precisão este processo e do outro lado da moeda, Game of Thrones possui uma legião de fãs que apreciam mas impõem ressalvas sobre a adaptação das Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin.

De fato, a história dos Deuses Americanos não é fácil de se transposta para a tela. No entanto, um dos grandes méritos – e artifícios – da produção é se apoiar no elemento visual extremamente bem trabalhado, para preencher lacunas existentes na dúvida gerada pela vaga narrativa, evidenciada pela dupla que nos guia pela jornada principal. Tido como protagonista, Shadow Moon é um espelho perfeito para o público marinheiro de primeira viagem dessa história. A interpretação de Ricky Whittle pode até confundir o público, com uma apática e evidente ausência de questionamento que contrasta com seu ceticismo. No entanto, Shadow é um instrumento para manter o suspense por oito capítulos até a grande revelação que, aparentemente, só ele não percebeu.

Não poderia haver um guia de viagem mais compatível com a função do que Ian McShane. O veterano ator dá vida ao Mr. Wednesday de forma impecável, com ares de mistério, malandragem, sarcasmo e um carisma que faz saltar os olhos. A trama central de American Gods nada mais é do que um road trip, para recrutar deuses antigos que irão guerrear com os novos. Se de um lado temos um confuso Shadow, do outro há um seguro de si Wednesday, que também mostra um lado mais desapontado com os novos rumos do mundo. Ao longo do tempo, a humanidade perdeu a fé nas antigas divindades e passou a venerar novas formas de consumo como a tecnologia. O embate entre o novo e o velho, além do que eles representam, são um dos pilares desta temporada.

Os velhos deuses e a diversidade de crenças

Em American Gods, Wednesday é inicialmente apresentado como um trapaceiro que precisa de Shadow como guarda-costas. Trilhando um caminho pelos EUA, reunindo todos os velhos deuses que agora se incorporaram na vida americana, ele é responsável pela apresentação da maior parte deles. Isto porque, em alguns casos, essa introdução é feita fora do contexto dos episódios, como quando conhecemos pela primeira vez Mr. Nancy (Orlando Jones) e o Jinn (Mousa Kraish). Ambas representações são, a propósito, uma das melhores da série ao mostrarem um poderoso monólogo da lenda africana e uma ousada cena amorosa entre a entidade árabe e Salim (Omid Abtahi).

Não há como negar que a imponência das cenas que marcam os primeiros minutos em tela de Bilquis (Yetide Badaki) foram um dos momentos em que a série se torna diferenciada. Adotando um interessante recurso visual para mostrar o ato sexual em que a Rainha de Sabá consome seus súditos, a esquecida monarca etíope possui um início sensualmente poderoso e seguro de si, mas que não se conecta com a trama, com exceção de último episódio onde aparentemente haverá algo a ser explorado em uma próxima temporada.

No entanto, durante a jornada de Wednesday e Shadow pelas estradas americanas, há uma diversa e boa lista de personagens que se encarregam de mostrar, através de culturas diversas, essas divindades que estão prestes a se unir (ou não). Desde a visita as irmãs ZoryasCzernobog (Peter Stormare), passando pelo sacrifício de fogo do corrompido Vulcan (Corbin Bernsen) e a presença hipnótica da doce Ostera (Kristin Chenoweth), todas estas visões de deuses antigos trazem uma diversidade cultural e religiosa para a trama, aliadas ao tom quase cômico empregado por IanMcShane e a incredulidade de Shadow.

Ainda há momentos interessantes como a representação de Anubis (Chris Obi), trazendo para American Gods uma pluralidade ao mostrar o antigo deus egípcio dos mortos, além de Mr. Ibis (Demore Barnes). Ao mesmo tempo, também há espaço para Jesus (Jeremy Davies) e suas versões, como o Jesus mexicano (Ernesto Reyes) e os vários Jesuses que celebram a Páscoa no episódio que encerra a temporada. Tradições ocidentais e orientais acrescentam a série um interessante contraponto que a adaptação da escrita de Gaiman consegue unir, colocando divindades e lendas nórdicas, eslavas, árabes, germânicas e romanas em uma mesma narrativa.

Novos deuses para venerar

É inegável que nos momentos em que os novos deuses são apresentados, há uma certa abstração inerente às figuras mostradas. Mas isto não é ruim pois permite personificar diferentes figuras em Gillian Anderson (ótima por sinal), que pode ser David Bowie ou Marilyn Monroe, dando vida a  intrigante e hipnótica Media. Com ares de grande vilão, Mr. World (Crispin Glover) tem pouco tempo de tela mas se mostra um importante antagonista, diferente do Technical Boy (Bruce Langley), que apresenta um ar mais irresponsável e arrogante.

Na construção destes novos deuses, é curioso notar os traços de personalidade em cada um deles. A venerada internet, sem a qual não estaríamos desfrutando deste momento, é um invenção moderna e por isso muito bem representada por um ator mais novo. A multifacetada mídia também se apresenta de forma camaleônica, levando isso para o literal ao mostrar-se como Bowie.

É justamente no contraponto entre o novo e o velho que American Gods consegue discutir os aspectos de evolução da humanidade e a forma como o passado fica literalmente esquecido, na forma encontrada para representá-lo, que são os deuses que Odin recruta pelo país. Mas a série propõe várias dinâmicas e conceitos interessantes como a diversidade étnica, sexual e religiosa, ao abordar culturas tão distintas relacionando-se em um mesmo universo.

American Gods é uma série confusa?

Enquanto série, American Gods é uma das produções mais ousadas e diferentes que estão atualmente no ar. Somente ao mostrar deuses das mais diferentes culturas e manter ao mesmo tempo o pé em um mundo real, por si só já é um mérito. Porém, a adaptação acaba tendo alguns pontos desconexos em sua execução, com subtramas que não se ligam aos fatos mostrados em muitos episódios.

As introduções de Bilquis e Mr. Nancy, por exemplo, não parecem servir a propósito algum, embora tenham sido mostradas com excelentes recursos visuais e falas altamente envolventes. Por isso, há uma certa sensação em alguns momentos de que a trama se distancia do objetivo central, que é a jornada de Shadow e Wednesday pelos Estados Unidos. É importante ressaltar que subtramas não são dispensáveis, mas o equilíbrio é algo fundamental.

Um importante elemento utilizado foi a dinâmica de outra dupla que a princípio não parecia funcionar, mas acaba representando uma boa interação. A viagem do leprechaun Mad Sweeney (Pablo Schreiber) e Laura Moon (Emily Browning) acaba adicionando novos ares a abstração que intercala momentos desconexos e a premissa inicial, que é o recrutamento. A relação entre os dois rende não somente momentos de humor e gore, mas também o excelente episódio conceitual A Prayer for Mad Sweeney, que volta no tempo para explicar coisas importantes mas também funciona separadamente como uma história à parte.

Quando American Gods atingiu o seu melhor, conseguiu apresentar momentos fantásticos, sejam por meio de violência gráfica, sequências sexuais ousadas ou simplesmente através de diálogos e grandes atuações. Ou seja, tudo aquilo que se espera de uma série, que já nasce ousada em sua premissa, foi visto aqui.

No entanto, há momentos em que o ritmo cai de forma considerável, fazendo com que o aspecto visual impecável de American Gods precise garantir o resultado. Infelizmente, isso não é tudo em um série mas os erros não comprometem o resultado. Equilibrar os núcleos e estimular uma coesão é um dos desafios para o próximo ano, mas enquanto obra, há um promissor e bom trabalho realizado aqui.

Avaliação:

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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