Crítica | Better Call Saul 3×10: “Lantern” encerra a 3º temporada de maneira sombria

Atingindo a marca de trinta episódios completos e três temporadas finalizadas, Better Call Saul não havia apresentado um episódio tão sombrio quanto Lantern. E triste. A deteriorada relação entre os irmãos McGill tomou conta desta trama, movendo-a para frente sempre a partir daquele que era um dos pilares da vida do protagonista.

Analisando toda a história contada até aqui e a transformação que está ocorrendo com Jimmy McGill, não é difícil colocar Chuck McGill como um dos grandes responsáveis pela construção da personalidade que conhecemos como Saul Goodman. É claro, tudo o que Jimmy fez foi por sua vontade. É lógico também que a profecia de Chuck não poderia estar mais certa. “Jimmy, é isso o que você faz. Você magoa as pessoas”. Em determinado momento ele vai abraçar o lado sombrio sem se desculpar mais. No entanto, o irmão que era o espelho daquilo o que era certo e um exemplo para Jimmy nunca deixou de remoer seus sentimentos de raiva. Sua mente brilhante e correção nunca foram suficientes para se sobressaírem em relação ao carisma do irmão mais novo.

A cena que abre o episódio é emblemática e possui alguns significados. Os jovens Chuck e Jimmy, lendo em uma barraca, remetem a um sentimento de proteção e companheirismo que um dia existiu e hoje é apenas uma sombra tão escura quanto os últimos momentos de Chuck. Impossível não se perguntar como as coisas puderam dar errado desse jeito e, na vida real, quantas relações não se esvaem de forma semelhante? É triste perceber que, após abrir mão de sua casa, Chuck abdica de lutar contra sua doença justamente com uma lanterna, parecida com a que ele lia para o irmão. Estes momentos nunca acontecem por acaso em Better Call Saul.

Curiosamente, Jimmy já havia falado em Chicanery sobre o risco de manter sob o mesmo teto pilhas e mais pilhas de papel com lampiões e equipamentos a gás, sob o risco de provocar um incêndio. Sim, mais uma profecia vindo de um McGill se concretizou. Mas não da forma como se poderia supor, acidentalmente falando. Os irmãos chegaram ao limite um com o outro, humilhando-se e travando uma batalha no tribunal que culminou na aceitação de Chuck sobre sua condição mentalmente confusa. E ele estava indo bem. Os progressos evidentes, o disco de vinil e as luzes iluminando elegantemente a casa eram uma constatação de sua melhora. Uma das condições básicas para que alguém doente possa melhorar é admitir a existência da doença e ele estava progredindo. Porém, houve uma conversa:

“Você vai continuar a magoar os outros. Jymmy, é isso o que você faz. Você magoa as pessoas, repetidas vezes. Depois vem a exibição do remorso…No fim, vai magoar todos a sua volta. Não pode evitar. Por isso, pare de se desculpar e aceite. Aceite-se. Sério, eu teria mais respeito por você, se o fizesse. Vou tranquilizar sua consciência Jimmy. Não precisa fazer as pazes comigo. Está tudo bem como está. Não quero magoar você. Mas a verdade é que você nunca foi grande coisa para mim.”

De fato, estas linhas de diálogo escritas de forma brilhante pelo roteirista do episódio Gennifer Hutchison, definem a trajetória de Jimmy até aqui e sua luta, em vão, contra a maré. E também é, a propósito, a fala mais cruel e devastadora dita pelo velho McGill e será a última coisa que Jimmy terá ouvido do irmão que tanto admirava. A aceitação de Chuck, que ele nunca obteve em sua plenitude é uma dessas lutas internas mas de fato, sabemos que ele magoa pessoas como Irene e em breve, irá se aceitar. Chuck admitiu sua condição e desistiu de lutar por uma melhora. Em breve Jimmy irá abraçar sua real natureza para obter, enfim, o respeito que em vida nunca obteve de Chuck. 

Diante deste cenário onde o arco de Chuck se fecha, chegamos a conclusão de que há 3 pilares fundamentais que mantinham Jimmy atrás da linha a qual se encontra Saul Goodman. O primeiro era o próprio irmão. O segundo, seus clientes, sobretudo os simpáticos idosos do Sandpiper com os quais Jimmy busca uma redenção e alívio da consciência. Não importa o que ele faça, irá magoá-los e agora, perdê-los. Para isso ele consegue a ajuda da metódica advogada Erin, que lhe assessorava na Davis e Main. “Falei sério, cada palavra”, disse ela. Jimmy sabia disso porque sim, ele se aproveitou delas e traiu a confiança das simpáticas senhorinhas. Agora o cheque com seu aguardado milhão vai demorar muito tempo para chegar. Pode até ser que isso aconteça antes dos eventos de Breaking Bad mas, não duvide que isto ocorra quando ele já possuir uma nova identidade, no futuro.

O terceiro e único fator de sustentação que irá se quebrar em breve é justamente Kim. A personagem chegou ao limite e deu uma desacelerada, o que incluiu o esvaziamento na agenda e um momento leve, com uma ida a locadora para alugar filmes. Ainda há coisas interessantes sobre ela aqui: note que, ao dispensar Francesca, é por Kim que a futura secretária de Saul parece nutrir maior carinho. Outro fato curioso é que, ao longo desta temporada onde assume-se que eles estão de fato juntos, isso não ficava muito explícito mas aqui, há uma cena onde ela demonstra afeto beijando-o. É um momento necessário para ela, que passava por uma fase de culpa por tudo que aconteceu com o Mesa verde e por isso, havia mergulhado incessantemente no trabalho.

Porém, quando o incêndio for de conhecimento de Kim e Jimmy, haverá consequências e a culpa será algo que retornará para eles. E também para Howard. Afinal de contas, seu ultimato ao sócio e o convite para ele se retirar da firma também serão determinantes para que este personagem sinta-se culpado. De fato, a firma (e por tabela a advocacia) era algo importante para Chuck. Algo que ele ajudou a construir e que, ao longo de 18 anos anos, moldou sua respeitável reputação. A cena em que ele é ovacionado pelos funcionários já era um prenuncio de sua retirada. Não foi bom para nenhum dos dois, afinal.

Depois do escorregão, a queda

A queda de Salamanca já era algo anunciado. A forma como isso iria acontecer também. Porém, a surpresa ficou por conta das reações. Já estava plantado desde o início a predileção de Don Eládio pelos métodos eficazes de Gus Fring. Quando Juan Bolsa dá a sentença que faz, enfim, o velho Salamanca cair de cara no chão, o primeiro homem a cuidar de tudo e socorrer Hector é justamente seu maior inimigo.

Gus já havia dito a Mike (ausente neste episódio),  lá no início da temporada, que uma morte rápida para Salamanca seria algo “muito humano” por não haver sofrimento. Por isso toda a preocupação em chamar o resgate e fazer a manobra cardíaca. No entanto, Fring esteve atento aos movimentos de Nacho. É interessante notar o seu olhar, observando o que acontece quando ele recolhe as pílulas. Também funciona como uma espécie de prenúncio/easter-egg a visita de Don Hector a loja do Sr. Manuel Varga, antes disso. Repare no sino que está justamente localizado no balcão. Você pensou em ding-ding?

Uma terceira temporada primorosa

A terceira temporada de Better Call Saul foi capaz de avançar consideravelmente a descida moral de Jimmy ao encontro de Saul Goodman, e também, promoveu avanços significativos em torno de Mike, introduzindo Gus Fring, o Cartel e definindo o futuro como conhecemos em sua série de origem. Praticamente dividindo a temporada em dois momentos distintos, no primeiro vimos Jimmy e Chuck atingindo o limite de sua rivalidade, enquanto Mike ensaiava o início de uma parceria duradoura.

Na segunda parte, foi a vez de desenvolver novos rumos para os irmãos McGill, aceitando suas condições ou lutando contras as mesmas. Foi o momento de mergulharmos de cabeça na premissa desta série, que mostra a transformação de uma pessoa através de uma trajetória controversa. Além disso, houveram consequências para todos os personagens, mesmo com uma queda visível no ritmo mas nos preparando para saber que nada fica para trás. No Âmbito geral, Vince Gilligan e Peter Gould conseguiram dar profundidade e drama em larga escala, apoiados em uma cinematografia impecável e que tanto notabilizou Breaking Bad.


É neste terceiro ano que Better Call Saul atinge, definitivamente, o status de uma série que vai além do spin-off. As atuações deste ano também precisam ser lembradas como acima da média. A lista é grande: Bob Odenkirk, Michael McKean, Jonathan Banks, Michael MandoRhea Seehorn deram vida aos seus respectivos personagens com absoluta competência. Isto sem mencionar as boas participações de Giancarlo Esposito e Patrick Fabian. Afinal de contas, estamos falando de um dos melhores dramas da televisão, em exibição atualmente.

Avaliação: 

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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