Crítica | The Handmaid´s Tale: 1º temporada mostra uma sociedade medieval, distópica e atual

O cinema e a televisão, cada qual ao seu modo, tem explorado cada vez mais as distopias. Vislumbres de um futuro pós-apocalíptico, pós-guerra ou qualquer que seja o rumo indesejado tomado pela humanidade são importantes mostras da nossa visão atual de mundo. Neste sentido, The Handmaid´s Tale aposta em um devastador cenário, onde a privação de liberdade e o uso do extremismo religioso são utilizados como forma de controle opressivo.

Baseado no romance de Margaret Eatwood, publicado em 1985, The Handmaid´s Tale se situa em um futuro próximo na República de Gilead, antigos Estados Unidos da América. Em uma época com escassez de recursos devidos as guerras, o que também ocasionou severos problemas de infertilidade, a teocracia totalitária cristã é instaurada após derrubar o governo democrático americano. Quem nos conduz por essa jornada aterrorizante através de seu ponto de vista é Offred (Elisabeth Moss), que pertence a uma classe de concubinas sem direito de ir e vir, cujo propósito é prover filhos aos casais das classes superiores da sociedade.

Não há liberdade ou direitos individuais em Gilead. A ideia que o regime pretende passar é de que a purificação atende a um bem maior para superar qualquer individualidade. Cada pessoa exerce uma função específica na sociedade, com posições fixas na hierarquia instaurada. Traçando paralelos com a sociedade atual, onde os mais privilegiados possuem maior destaque, aqui os comandantes exercem esse papel. Os abordagem dos direitos individuais e a opressão às minorias também são importantes para entendermos o quanto estamos tão próximos de um regime distópico, em tempos em que o pensamento retrógrado como solução cada vez mais está em voga.

A maior representação desta liderança é o Comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes). O personagem é construído de forma que, além de exercer uma autoridade respeitada, tenha uma importância destacada na cadeia de comando em Gilead. Durante a temporada, inclusive, conhecemos sua jornada pregressa, como um daqueles que arquitetaram a tomada de poder. Ele ainda quebra as regras do próprio jogo criado, dando um tom moralmente discutível e acrescentando uma camada interessante, dentro justamente de um núcleo que preza pelo controle centrado na religião. Há de fato um regime hipócrita, onde as aparências, no fim das contas, é o que importa.

É interessante notar a relação entre o Comandante e Offred. Há uma dinâmica muito parecida com o que se passa em um sequestro, onde pode ser desenvolvida até um tipo de afinidade. Sim, há uma certa repugnância por parte dela e a aproximação se dá por conta de interesses. No entanto, devido a empatia que ele nutre por ela, nota-se um desconforto menor do que, por exemplo, é sua relação com Serena Joy (Yvonne Strahovski). A senhora Waterford é outra personagem importante para compreendermos o contexto desta república instaurada, tendo sido mostrada como parte importante no processo de criação do regime o qual ela mesmo acaba ficando de lado, não possuindo voz ativa na sociedade, da mesma forma que as demais mulheres.

Há portanto em The Handmaid´s Tale uma hierarquia feminina definida, porém, não se pode dizer que nenhuma delas é feliz. Não é algo que se diz mas se nota nos olhares e expressões. É extraordinário o trabalho de direção da série e as interpretações que captam os mais variados momentos. Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Ann DowdAmanda Brugel, Alexis Bledel e Samira Wiley dão o melhor de si na pele dessas mulheres. Offred, Serena, Tia Lydia, Rita, Ofglen e Moira sobrevivem (e resistem), cada qual a sua maneira e de acordo com as possibilidades que lhes são apresentadas.  

The Handmaid´s Tale é uma história feminista?

A série é mais do que isso. Mais do que mostrar uma tensão poucas vezes vista nos últimos tempos, The Handmaid´s Tale é acima de tudo, uma história de sobrevivência humana em um período sombrio. Afinal de contas, tais consequências afetam a todos. No entanto, a sensibilidade feminina mostrada através do ponto de vista da protagonista é determinante para compreendermos a crueldade que é cessar os direitos individuais. Isto é corroborado por uma direção extremamente competente, onde oito dos dez episódios ficaram por conta de mulheres.

Podemos enxergar também maridos que perderam suas esposas e os filhos que não tem mais suas mães e as mulheres, agora como propriedade do estado e que desequilibram a sociedade como nós conhecemos. Quem nos dá este outro panorama são dois personagens: Luke (O-T Fagbenle), marido de June, e Nick (Max Minghella). Ambos também não possuem escolha neste cenário, o que torna estes homens sem posição hierárquica determinante foragidos ou meros serviçais.

Não há como negar, no entanto, o privilégio em ser homem nesta sociedade. O estupro é o principal elemento introduzido e que, da forma menos gratuita possível, é uma maneira desconfortável de mostrar o senso de propriedade em Gilead. A “cerimônia” é filmada de forma emblemática, onde há brevemente uma visão de cima para baixo, como se fosse algo divino. No entanto, os close ups no rosto de Elisabeth Moss só evidenciam o que aquilo na verdade é: repulsivo.

O design de produção da série é muito bem trabalhado, com figurinos que remetem ao surreal mundo que mesmo no futuro, se assemelham a uma época medieval e traçam um paralelo entre o futuro cronológico e o pensamento retrógrado. A fotografia conversa a todo instante com o espectador, fornecendo paletas de cores distintas em flashbacks e no presente, além do aspecto das cores ser algo muito presente. São cores vivas que contrastam com a palidez do cenário, onde o vermelho se mistura ao beje e as cores da terra frequentemente. Os enquadramentos parecem ser milimetricamente planejados e a composição da mise en scène é extremamente rica, fazendo muitas vezes o uso de luz natural. A linguagem cinematográfica, sem dúvida, é um deleite visual para a desconfortável narrativa, o que torna a experiência ainda mais instigante.

Mesmo com tantos aspectos relacionados a elementos técnicos, a série não deixa a desejar em termos de atuação, com um elenco de primeira. Elisabeth Moss possui uma atuação impecável do primeiro ao último episódio. Suas expressões corporais e principalmente faciais são extremamente críveis e frequentemente, a câmera acompanha seu rosto para nos transmitir esses sentimentos. A personagem é um misto de sentimentos, sendo uma espécie de resistência de dentro para fora, mostrando subserviência e ao mesmo tempo tentando buscar uma saída, mostrando que a resistência é o elemento central aqui. O cuidado com o qual a série é trabalhada em seus aspectos técnicos eleva o patamar de The Handmaid´s Tale mas a junção destes elementos com as excelentes e já citadas atuações de seus atores tornam o conjunto da obra magnífico.

Para as mulheres, Offred é a representação literal do pavor que poderia existir em suas vidas, tomadas por tal situação. A forma como os direitos femininos são ceifados, conforme vimos nos primeiros episódios, remete a uma sensação de impotência e ao mesmo tempo, insegurança com relação ao que um governo em seu extremo pode realizar. Há privilégios para os homens, sendo que os mais ricos e poderosos são aqueles quem desfrutam das maiores regalias e ao mesmo tempo, são responsáveis pela hipocrisia, como quando secretamente se reúnem para extravasar a luxúria reprimida. A vida de aparências, mesmo em meio ao extremismo religioso, reflete a forma como o pensamento totalitário pode ser ambíguo, a partir de regras que não podem ser cumpridas ou não tem sentido algum de existir.

De certa forma, não é errado negar que este este mundo fictício esteja tão distante de nós. Atualmente, pensamentos extremos cada vez mais ganham força, evidenciando uma possível busca pelo retorno de valores moralmente (e religiosamente) aceitáveis. Muitos deles semelhantes aos que provocaram guerras santas e dizimaram populações no passado. É também o que estamos acompanhando neste período norte-americano, com Trump na presidência e até mesmo no Brasil, onde movimentos que convergem para o âmbito religioso tem obtido cada vez mais destaque e conquistando adeptos. Afinal de contas, onde há uma aparente desordem, também há oportunidade e quanto maior é a ignorância, maior se torna a porta de entrada para lideranças sombrias.

Extremamente relevante e importante para o atual momento, The Handmaid´s Tale torna-se não somente uma das melhores séries do Hulu mas também uma das obras que estarão, certamente, nas listas das melhores produções de 2017. Mesmo com uma narrativa desconfortável e alguns socos no estômago, certamente é umas das melhores horas gastas com televisão/streaming atualmente.

Avaliação: 

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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