Crítica | House of Cards: 5º temporada abraça a vilania caricata dos Underwoods

Quando House of Cards surgiu em 2013, um dos maiores méritos da série era apresentar uma história baseada nas entranhas do poder político, com uma lista de nomes a perder de vista e inúmeros personagens para se lembrar. O jogos por trás das cortinas e os bastidores de Washington eram a grande sacada da série criada por Beau Willimon, que revolucionou o modo de se consumir séries legalmente, afinal de contas foi a primeira série original da Netflix.

Cinco anos depois e com quatro temporadas realizadas, após 52 episódios a pergunta era: Como manter a jornada de Frank Underwood (Kevin Spacey) e Claire Underwood (Robin Wright) atraente, após uma escalada cuidadosamente planejada? Com manipulações e estratégias que incluíram, entre pequenas vitórias e derrotas durante o percurso, o alcance do objetivo final, manter-se no poder investindo no jogo político apenas não pareceu o suficiente para garantir a continuidade da trama.

A 5º temporada começa do mesmo ponto onde a anterior termina, com as últimas semanas antes da eleição presidencial sendo mostradas. O arco inicial que inclui as eleições presidenciais contra Will Conway (Joel Kinnaman) fez valer a afirmação do desfecho do 4º ano (leia a crítica). Quando Frank diz não se submeter ao terror e sim criá-lo, isto é levado ao pé da letra, indo além das ameaças terroristas com as quais seu governo se beneficia. Manter-se no mais alto cargo dos Estados Unidos utilizando ameaças do grupo terrorista OCI (Organização do Califado Islâmico) foi apenas um dos elementos que remetem à realidade. A continuidade da trama que envolveu Aidan Macallan (Damian Young) e o vazamento de dados, com a Rússia acolhendo o delator, também traça um importante paralelo com acontecimentos recentes da história norte-americana.

Porém, o drama político acaba sucumbindo neste 5º ano a uma espécie de vilania mais caricata de Frank e Claire. Claro, nenhum dos dois nunca representaram o lado bom da trama. Estamos falando de protagonistas que são movidos pela ambição e fazem de tudo para alcançar seus objetivos, sobretudo Francis. O problema começa justamente quando muitas cartas parecem se acumular nas mangas. Ao final de mais 13 episódios, a sensação que fica é que nada parece ameaçar os planos do protagonista. Em momento algum o seu controle é ameaçado e não é possível temer uma derrota maior que algumas suspeitas ali e investigações.

Mesmo em um universo ficcional, a maioria das jogadas de Frank se davam por meios lícitos, manipulando e jogando conforme seus peões eram designados. Suas ações mais espúrias eram momentos pontuais, como nas temporadas 1 e 2. As mortes de Zoe Barnes (Kate Mara) e Peter Russo (Corey Stoll) davam o tom sombrio necessário ao personagem disposto a tudo para satisfazer seus interesses. Mas era no congresso que a fluidez da trama se desenvolvia com maior intensidade, mesmo com as subtramas envolvendo Doug Stamper (Michael Kelly) as voltas com Rachel Posner. Um dos méritos da série era fazer com que extensos e complicados diálogos sobre economia e afins não parecessem maçantes.

Neste quinto ano, porém, há uma preocupação em eliminar pontas soltas para que a partir disso, todas as ações de Frank possam manter-se encobertas. Mesmo com uma participação tão insossa quanto sua química com Claire, Tom Yates (Paul Sparks) parece ter sido descartado de forma gratuita e com imensa facilidade. Inclua ai também o empurrão de Frank na secretária Cathy Durant (Jayne Atkinson), que deixaria Nazaré Tedesco bastante orgulhosa. O mesmo pode se dizer dos desfechos do já citado Aidan Macallan e de Leann  Harvey (Neve Campbell). Até faz um certo sentido que a morte (?) de Leann possa servir como estopim para uma ruptura entre Doug e Frank. Mas a maneira como essas coisas acontecem parecem destoar do estilo do seriado. São queimas de arquivo em série, afinal.

Da mesma forma, utilizar o nada confiável Mark Usher (Campbell Scott) para limpar a sujeira parece não fazer o mínimo sentido para Claire. Aliás, se o volúvel Usher fosse brasileiro, certamente seria filiado ao PMDB. O personagem é interessante mas foi introduzido de forma confusa, a propósito. Não bastassem essas atitudes, ainda há outra grande adição ao elenco mas que parece ser alguém aparentemente tão sedenta por poder que a gente se pergunta onde ela esteve nesses 4 anos? Jane Davis (Patricia Clarkson) trás um frescor revigorante a trama, sendo uma espécie de Frank Underwood de saias. O estranho em tudo isso é o seu extremo poder de persuasão e as facilidades obtidas por ela nos processos que ela coordena por trás dos panos. Nas últimas cenas até entendemos o porquê. O problema é que esse é justamente o ponto.

Se os ecos e as consequências da morte de Zoe ainda ecoam, não parece fazer sentido que tantos sumiços tenham sido projetados dessa forma. A investigação de Tom Hammerschmidt (Boris McGiver) esquentando é um dos pontos altos desta temporada, trazendo aquele tom jornalístico que esteve presente de forma mais intensa nos primeiros anos de House of Cards. Porém, os sumiços de Leann e Tom, a morte de Macallan, o escorregão de Cathy, a prisão de Doug e a renuncia de Frank são fatos muito sequenciais, que poderiam ter sido ao menos mais divididos, ao longo dos episódios. Há coincidências demais ocorrendo neste quinto ano, para quem quer se livrar do problema sem qualquer suspeita. Isso se reflete no ritmo da série que avança de forma considerável nos episódios finais, onde percebe-se montagens rápidas, porém desconexas entre algumas cenas. 

Kevin Spacey e Robin Wright são o que há de melhor na temporada

Se por um lado a trama abraçou um lado mais bruto e implausível, as atuações de Kevin Spacey e Robin Wright foram fantásticas. Também pode se dizer o mesmo dos aspectos de direção, o que auxilia bastante nesse sentido. Frank Underwood quebra bastante a quarta parede e não há uma única vez que isso não seja bom. Mas é nos seus trejeitos e na arrogância peculiar que estão os grandes momentos do presidente. Enquanto isso, Claire demonstra agora um lado mais sombrio e uma firmeza muito bem representados, o que dá a ela o merecido protagonismo por muitas vezes. Afinal de contas, agora chegou a sua vez. O “batismo de sangue” vai mudar Claire ainda mais e na próxima temporada, deveremos ter uma presidente implacável. Será que ela vai quebrar a quarta parede também?

No entanto, é necessário dizer que a trama desta temporada não foi ruim. Isto não é uma incoerência desse texto que, em grande parte abordou aspectos negativos. Explico: a temporada parece ter mudado de tom abruptamente mas inúmeros temas foram explorados de forma que, se não podem competir com a realidade, espelham muito do que estamos vendo atualmente. Os primeiros dias de um governo envolto em ilegitimidade, dúvidas e incertezas, o vazamento de dados para beneficiar o pleito eleitoral, a utilização do terrorismo como fachada, o comitê do deputado Romero e a vigilância online são temas absolutamente atuais e relevantes.

Ainda há um segmento em especial na temporada que pode ser visto por uma ótica interessante. Antes das eleições derradeiras, quando Frank vai para uma espécie de retiro Illuminati, vemos todos os políticos, empresários e homens que movem o país reunidos. O que é poder senão isso? Uma dezena de senhores que controlam os rumos da economia, reunidos, trocando amenidades, farpas e informações.

Se não foi impactante como na temporada anterior, ao menos House of Cards apresentou uma virada no tom, onde subverteu todo o contexto inicial desses dois últimos anos. Relembrando, Frank termina a terceira temporada como candidato de seu partido mas inicia o ano seguinte em meio a um turbilhão de confusões com sua esposa. Quando eles se unem, conquistam tudo novamente e curiosamente, agora caminham em direções opostas novamente. Esta ruptura definitiva indica uma nova temporada que pode se reinventar, mas que inevitavelmente pede por uma resolução. Sim, o fim é uma necessidade para que possamos manter a série em um nível respeitável. Mesmo com as derrapadas, ainda podemos considerar este drama um dos melhores dos últimos anos.

Esticar essa história além de uma 6º temporada não deve ser uma decisão sensata, apesar desta confirmação ainda não ter sido anunciada pela Netflix. A jornada de Frank e Claire, com  a quantidade de rastros deixados, não permitirá mais tantos avanços porque eles parecem já terem atingido o limite. Não esqueçamos que a presidente está nas mãos de Usher, Jane e aparentemente do próprio Underwood. A propósito, ver o ex-presidente fora da Casa Branca, movendo as peças através do setor privado, deverá ser para nós brasileiros uma espécie de competição com a realidade. Neste ano, como um próprio tweet da empresa disse, não deu para competir, a propósito.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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