Crítica | Better Call Saul 3×09: todos estão no limite em “Fall”!

A descida moral de Jimmy McGill atingiu o seu ápice desta vez em Better Calll Saul. Curiosamente, sua ação mais cruel não envolveu apenas ilegalidades. Achamos muitos dos seus passos até aqui especialmente hilários, como ludibriar militares para gravar um comercial, simular uma queda no episódio passado e até mesmo o julgamento onde ele reverte a situação e deixa o irmão em maus lençóis. Mas partir o coração de uma senhorinha Jimmy? Ai não tem como te defender.

De fato, nosso futuro Saul Goodman sempre esteve do lado errado da questão, mesmo com seu carisma e irreverência. O que vemos neste episódio é uma combinação de todas as habilidades até então mostradas desde a primeira temporada, visando compor um modus operandi característico. Jimmy é um personagem inteligente, astuto e perspicaz. O cuidado que ele tem ao comprar vários pares de tênis, o minucioso trabalho para manipular o bingo (sua única fraude no processo) e a aproximação de Irene e as demais idosas, interpretadas com extrema competência, refletem o que já parece ser inevitável: a ruptura. Trazer o caso da Sandpiper de volta, aliás, é uma boa sacada na história e mostra que nada fica para trás neste universo.

Os limites que o episódio faz questão de mostrar evidenciam para personagens distintos várias linhas prestes a serem cruzadas, como a estafa de Kim, situações insustentáveis como a de Howard e o pavor de Nacho sobre o que pode acontecer com seu pai. Para Jimmy isso é uma transição, cada vez mais em direção a quem ele virá a se tornar. Cada atitude, uma após a outra, molda este novo caráter. Você até percebe um sentimento de que ele assume fazer a coisa errada, quando ele troca as bolas no bingo. As expressões de Bob Odenkirk são perfeitas nesse sentido e sua indicação para o Emmy, a propósito, é mais do que justa (já estou admitindo isso como fato).

Observemos também o quanto um isolamento pode causar nessa escalada para baixo do protagonista. Jimmy não tem mais relação com o irmão e muito do que ele tentava fazer de bom era para impressioná-lo. Seus clientes estão afastados porque ele perdeu a licença. Kim está cada vez mais ausente devido ao seu mergulho incessante no trabalho. É o mundo contra Jimmy? Não. É Jimmy distante de tudo por conta de suas ações. É emblemática, aliás, a cena onde ele brinda sozinho com Francesca. Até porque, dentro de seu núcleo na série, ela é quem vai restar. Falta apenas saber o que acontece daqui para frente.

O trabalho de direção do estreante Minkie Spiro é um dos melhores da temporada. Todas as cenas tem significado, os atores estão bem dirigidos e há o estilo visual característico empregado em Better Call Saul. Prova disso é o acidente mostrado, onde  literalmente temos a sensação do que acontece na realidade de uma colisão. Se você já dirigiu com muito sono sabe que em um momento está acordado e num piscar de olhos pode aparecer em outro lugar. Note a forma como as deixas são dadas. Primeiro ela pede mais café para Francesca e depois Jimmy diz que ela mais uma vez trabalhou a noite toda. Isso já havia sido mostrado, inclusive, em episódios anteriores. A construção lenta desta narrativa é o que torna a série tão primorosa, de fato. Nada é por acaso e tudo tem consequências.

Kim simplesmente entra em seu carro, decora seu script e derrepente a imagem corta para seu rosto ensanguentado e o carro em um local totalmente diferente. Você não precisa vê-la fechar os olhos porque isso foi plantado cuidadosamente. Em outras séries o acidente poderia ter sido mostrado, literalmente. Aqui, a combinação entre o roteiro de Gordon Smith e a câmera de Spiro são fundamentais para garantir não somente o impacto que o acidente tem, mas também a forma como o limite pode colocar tudo a perder para Kim. O fardo é pesado demais para ela e tal qual o protagonista, termina sozinha, em meio ao deserto com seus papéis organizadamente separados voando.  Méritos também para Rhea Seehorn, mais um grande nome nesta temporada.

O esforço para lidar com as situações extremas também são mostrados na relação já insustentável entre Howard Hamlin e Chuck McGill. Em uma cena com boas atuações de Patrick FabianMichael McKean (a quem também desejo uma indicação ao Emmy ), parece que o o plano de Jimmy deu certo e o aumento do seguro foi o estopim. Não advogar é uma solução para o sócio mas Chuck não vai abrir mão tão facilmente de sua paixão. Para isso ele finge lidar naturalmente com a eletricidade, mesmo sabendo que ainda não está curado.

Todo este empenho parece não ser eficiente, então quando ele decide apelar para o que sabe fazer de melhor, processando a empresa, mais um toque genial é acrescentado. Na reunião, Howard diz que Chuck é uma das mentes mais brilhantes com quem já trabalhou. Mais uma prova disso é a carta que ele recebe sobre o processo.

Aliás, é de Howard uma das melhores falas do episódio. Quando ele compara Jimmy ao Smeagol de Senhor dos Anéis, eu só pude supor duas coisas: a primeira é que ele foi um nerd em algum momento da vida e fã de Tolkien. A outra é que provavelmente o filme O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, exibido em 2003 (ano em que se passa a série atualmente), estava em evidência naquele momento.

“Você só está preocupado com sua parte no pagamento. É como falar com o Gollum. Você é transparente e patético.” Howard Hamlin

Tomar decisões diante de situações difíceis e insustentáveis também colocou Nacho em uma posição delicada. Mais uma vez Michael Mando esteve ótimo. Primeiro quando observa Hector Salamanca, aos berros e palavrões, quase cair finalmente, com um semblante que mistura tensão, torcida e desapontamento com suas pílulas falsas. Sua estratégia ainda não deu certo mas a cena filmada nas sombras, com Gus Fring e Don Eládio ao telefone foi cercada de expectativas.

Mais tarde, confessar ao pai é surpreendente pois muitos de nós sequer poderíamos admitir que sua relação com o crime era algo do conhecimento do senhor Manuel Varga. Ele sabe quem é Salamanca e o que isso pode trazer aos seus negócios e sua família. Nacho fez o que pode, arriscou tudo em Slip e agora, ainda mais. Mais um ponto de tensão foi elevado ao extremo aqui.

Aparentemente mais tranquilo, Mike tem apenas uma cena mas é o suficiente para tornar o episódio mais interessante. É um momento  intrigante com Lydia, cercado pela desconfiança de Ehrmantraut e a tranquilidade dela, refletida na forma como a gerente de RH fala dos negócios e na quantidade de funcionários que refletem a grandeza da multinacional. Lavar o dinheiro agora não será mais um problema.

Dar este passo, para o precavido ex-policial, é também um grande avanço e ele está totalmente dentro. Agora, se vocês puderem e tiverem a oportunidade de revisitar Breaking Bad em seus últimos dias, vejam como a personagem de Laura Fraser abraça a paranóia de forma que esse status é completamente alterado. E o que aconteceu a ela, Mike e Gus? Nada mais do que consequências, afinal. 

“Traficante de drogas? Se você acha que ele é só isso, então você não conhece Gustavo Fring” Lydia Rodarte-Quayle

Agora que a tensão voltou a se elevar, é provável que tenhamos uma season finale com bastante carga dramática. As situações dos personagens estão prestes a explodir e a queda de alguns deles, como sugere o nome deste episódio, já está em curso. Vejamos o que esta última hora dessa temporada de Better Call Saul tem para nos oferecer, semana que vem.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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