Crítica | The Book of Nora e o lindo final de The Leftovers

Nada é respondido. Tudo é respondido. E então termina. Sob essa premissa, The Book of Nora prometia contar, em 70 minutos de duração, seu último capítulo com uma já ensaiada ambiguidade. O que The Leftovers fez, durante essa três temporadas, foi mostrar histórias de pessoas que neste mundo pós-partida não souberam como lidar. Nada melhor do que um fechamento singelo e digno, para que como nossos protagonistas, possamos seguir em frente com respostas ou não.

É de se admirar que Damon Lindelof, Tom Perrota e o demais envolvidos no processo criativo tenham escolhido realizar, de maneira tão simples, um desfecho para essa história. Estamos falando de uma série que, dentre tantos acontecimentos, mostrou um homem que vai para outra dimensão (seja lá o que for aquele lugar) e fala com mortos, um outro que ressuscita e diz ser Deus e uma mulher que é curada de uma doença degenerativa em uma cidade milagrosa. Para não citar tantos outros elementos fantásticos que estiveram presentes ao longo de 28 episódios.

Há uma ideia nesta série de que não importa como a história seja contada e qual a sua perspectiva; The Leftovers sempre foi sobre pessoas quebradas e o cuidado que elas não tiveram umas com as outras. Em outras palavras, a busca pelo inexplicável enquanto aqueles que realmente precisavam de ajuda estavam ali, frente a frente. Desta forma, ver Kevin Garvey e Nora Durst se reconciliando anos e anos após os eventos que os separaram é como uma serena constatação de que o amor pelos que ficam é o que importa. A partida repentina é como uma metáfora para a própria morte, só que súbita e inexplicável. Aquilo que se pode ver é mais aceitável e menos doloroso, afinal.

A perspectiva que permeia toda a narrativa desde a primeira temporada foi moldando nossa forma de enxergar a partida sob diversos pontos de vista. Há um sentido metafísico, religioso, agnóstico ou aleatório para tudo. Porém, pela primeira vez admitiu-se observar a situação pelá ótica dos 98% que não ficaram e sim sumiram. Se há um plano além deste, o quanto pode ser ainda mais devastador lidar com isso? Será que realmente vale a pena cruzar a linha? E se os que partiram juntos tem uns aos outros, seria este o caso da família de Nora?

“Eu estava no estacionamento, nua, curvada como um bebê. Era o mesmo estacionamento de antes mas não havia trailers, nem pessoas, nem nada. Estava frio então comecei a andar.  Passei por casas vazias, prédios abandonados. Então achei uma loja. Eu entrei e haviam roupas penduradas em araras., então eu me vesti e voltei a caminhar. Andei até me convencer de que eu era o único ser vivo lá. Ai anoiteceu, vi luzes e fui até elas. Era uma casa. Havia um homem e uma mulher lá. Foram gentis e me disseram…o homem disse que sete anos antes ele estava em um supermercado e todos desapareceram menos ele. E a mulher me disse que perdeu o marido, as três filhas e os oito netos. Foi quando eu entendi. Aqui…nós perdemos alguns. Mas lá…eles perderam todos nós.” Nora Durst

O monólogo de Carrie Coon tornou-se sem dúvidas um dos momentos mais fascinantes da televisão atual e uma das melhores coisas que The Leftovers já entregou. Auxiliado pela precisa e sensível direção de Mimi Leder, sua história torna-se tão fantástica quanto crível a partir do momento em que a câmera vai fechando em seu rosto e no de Justin Theuroux, envelhecidos de forma absurdamente real. Este momento é praticamente uma forma de dar uma visão mais aceitável para a desistência de Nora. Será que o Dr. Van Eeghen realmente construiria uma nova máquina apenas para ela voltar? Sendo assim, porque ninguém mais voltaria?

A grande questão, no entanto, não é negar a história de Nora, nem acreditar piamente. Afinal de contas, qual delas você pode aceitar para seguir em frente? Neste momento, particularmente, eu me senti como no final do filme As Aventuras de Pi, onde o protagonista dá ao repórter duas visões distintas de uma mesma situação. Só que aqui, em especial, nada disso precisa ser dito, o que é melhor ainda. O que importa? Os dois livros foram escritos, as histórias foram contadas e os arcos finalizados. Os livros de Kevin e Nora foram passados a limpo, e enquanto pessoas na busca pelos seus propósitos individuais, ambos não poderiam coexistir. Agora eles, enfim, podem seguir em frente.

Ainda sobre Mimi Leder, diretora que soube tratar a série com tamanha excelência, vários momentos deverão ficar marcados neste finale. Desde o toque de ficção científica a la Kubric (quando Carrie Coon é enquadrada completamente nua e entra na cabine), passando pelos vários momentos em que a câmera a coloca no centro da ação, a emocionante dança no casamento e até o monólogo derradeiro; tudo é feito e planejado para que a expressão de Nora sempre esteja em evidência. Eis aqui a grande genialidade deste finale: colocar seu suposto protagonista como coadjuvante e tornar a personagem mais machucada de todas (e não menos importante) a chave para a compreensão deste ato final.

Outra decisão criativa que marcou este encerramento foi dar, em linhas de diálogo, um desfecho a vários personagens no futuro. Jill, Tom e Erika não tiveram um tratamento devido nesta temporada, mas não foram ignorados. Kevin Sr., tido como imortal, também rendeu um leve alívio cômico acerca de sua condição de ancião. Quanto a Michael, John e Laurie, todos foram mencionados e devidamente situados naquele período de tempo. Aliás, a terapeuta que já havia encerrado seu ciclo retorna para resolver uma questão que poderia ter ficado no ar, mas cumpre um propósito aceitável. Foi surpreendente, no entanto.

Matt Jaminson, depois de uma jornada tão intensa, esteve até o fim com a irmã. Que cena fantástica e que ator é Christopher Eccleston. Matt não foi curado por Deus, voltou para os Estados Unidos, se reconciliou com Mary e morreu de câncer. Ele encontrou a paz, teve um lindo velório e embora não tenha sido mostrado, quando sua busca pelo intangível terminou, alcançou sua redenção. Afinal, do que mais tratou a série se não a procura pelo significado da existência ou por uma justificativa plausível?

Há certos terrenos que por mais que possamos caminhar, nunca iremos entender. Neste ponto, The Leftovers desmonta qualquer teoria porque elas podem ter interpretações distintas. É como o plano em que Kevin transitava ou até mesmo o suposto “mundo invertido” de Nora. É o Deus que Matt queria compreender, à sua maneira, mas que nunca seria de uma forma que ele pudesse entender de fato. É a busca pelo incompreensível sem entender o que se passa dentro de si mesmo.

Uma história agradável para contar

Um ponto crucial para um possível entendimento do episódio, e por consequência o final, está em uma própria passagem que pode ter passado despercebida. E quando digo possível é porque não há aqui uma verdade absoluta. Quando Nora percebe que seus pombos não retornaram e tira satisfação com a freira, ela menciona que os bilhetes são apenas uma história agradável e significativa para as pessoas. Mesmo que não seja verdade, é algo que dá sentido ao que elas querem.

O que seria então a história que Kevin tenta contar quando a encontra? Ou a própria história de Nora? Tudo nada mais é do que histórias como forma de dar um significado. Quando Nora passa a enxergar a verdade não como um sentido de negação ou afirmação, e sim começa a entender aquilo que ela representa, a redenção finalmente pode acontecer para ela.

Um final como este certamente pode ter surpreendido quem ansiava por vislumbres e provas concretas sobre a partida. Certamente os mais entusiastas de interpretações abertas ficaram satisfeitos e até surpresos com revelações que aconteceram ou que poderiam não ter ocorrido. Certo mesmo é que, no fim das contas, um desfecho focado em duas pessoas que erraram, prejudicaram suas vidas e a si mesmos, mas que no final das contas conseguem se encontrar e dar sentido a vida, é emblemático.

Não temos aqui um final feliz mas é menos amargo do que poderia ser. Eis a beleza deste final: ele reflete a esperança baseada no sentimento mais humano que é o amor. Que sentimento faria Kevin viajar todos os anos em suas férias para procurar Nora? A perda é um gatilho para o reconhecimento daquilo que mais importa. Erramos e acertamos porque, acima de tudo, somos pessoas em busca de algo que valha.

Terminando em seu auge, The Leftovers alcançou o nível de excelência e soube terminar no momento certo. Desta vez, Damon Lindelof entregou um final singelo e ao mesmo tempo belíssimo, digno de reconhecimento. Mas não foi só o final. A trajetória teve seus altos e baixos no primeiro ano mas cresceu substancialmente até se elevar a um patamar quase unânime neste ano. Quem investiu, teve a recompensa. Está ai. Todo agradecimento aos envolvidos é necessário. Muito obrigado, de verdade! Que tempo para ter visto televisão. Que jornada e que série. Que partida…

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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