Crítica | Mulher-Maravilha

Desde 2013, quando iniciou seu universo cinematográfico, a DC e a Warner tentam sem sucesso agradar crítica e público de forma satisfatória. Após três tentativas com O Homem de Aço (2013), Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) e Esquadrão Suicida (2016), finalmente pode-se dizer que houve um acerto neste sentido. Reunindo elementos como aventura, ação, romance e humor, além da presença de boas personagens femininas, Mulher-Maravilha pode marcar uma nova etapa neste universo compartilhado.

O filme conta a origem da Mulher-Maravilha mostrando Diana (Gal Gadot), princesa das Amazonas, sendo treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível. Criada em uma paradisíaca ilha afastada de tudo, Diana descobre por um piloto americano acidentado que uma guerra sem precedentes está se espalhando pelo mundo e, certa de que pode parar o conflito, decide deixar seu lar pela primeira vez. Travando uma guerra para acabar com todas guerras, Diana toma ciência do alcance de seus poderes e de sua verdadeira missão.

A história se concentra, com exceção de uma pequena conexão com Batman vs Superman, na apresentação da origem da heroína. Estabelecendo suas raízes e explicando o motivo pelo qual ela irá aparecer no futuro, o roteiro de Allan Heinberg segue a protagonista desde os seus primeiros dias na ilha em várias fases da vida, até o momento em que conhece o piloto Steve Trevor (Chris Pine). 

A direção é de Patty Jenkins, realizando seu primeiro grande trabalho nos cinemas. E ela não decepciona. Em um longa marcado pela presença de mulheres fortes, a diretora conduz o filme de maneira firme nas cenas de ação, extraindo uma fisicalidade ímpar de cada uma das amazonas, criando um forte senso de personalidade para cada uma delas. Ao mesmo tempo, temos uma visão extremamente graciosa ao mostrar com exuberância o primeiro ato na ilha de Temiscira, com lindos planos abertos e movimentos elegantes quando a calmaria se faz presente.

Um acerto observado em Mulher-Maravilha é a forma como o heroísmo é retratado. A protagonista possui uma visão otimista do mundo, a partir da visão que ela conhece. Este ponto liga diretamente o filme a elementos mitológicos que incluem deuses representados na forma de Zeus, Ares e até mesmo a origem das amazonas. Poderia ser uma tremenda armadilha conectar esses fatores com o mundo real e as trincheiras da guerra mas, a coesão da história dá sentido a isso, através da apresentação de seus personagens e as situações mostradas.

É admissível dizer que Gal Gadot já havia roubado a cena em Batman vs Superman. Aqui, sob o protagonismo que lhe coube, novamente ela não decepciona. O carisma com o qual ela se entrega para o papel permite observarmos diversas nuances na personagem, através de expressivas manifestações de ingenuidade, angústia, alegria, tristeza e é claro, as cenas de ação. Não há o que se criticar em sua interpretação que também é bastante favorecida pela boa química entre ela e Chris Pine. A relação entre os dois se dá de maneira espontânea e rende inclusive momentos engraçados, que suavizam o filme por diversos momentos.

De fato há uma dose de romance no filme e pode-se dizer que o humor também está presente de forma satisfatória porque esses elementos não são exagerados. Nenhuma piada destoa do tom e há pelo menos umas três situações envolvendo Steve e Diana que são hilárias, inclusive quando ela conhece o mundo exterior pela primeira vez. O acerto aqui é não extrapolar, armadilha que inclusive foi um dos pontos negativos de Esquadrão Suicida. O equilíbrio que se vê em Mulher-Maravilha indica uma certa maturidade do estúdio na forma de fazer filmes, mas que também é beneficiado pelo fato de que a história cumpre um propósito com início, meio e fim, sem necessariamente precisar entregar um gancho para uma continuidade.

Os demais personagens do filme tem um tempo mais reduzido de tela mas a importância de cada um deles é destacada. Não há tempo para desenvolver muitas camadas mas ao menos, as funções deles na história são bem estabelecidas. O trio Sameer (Saïd Taghmaoui)Charlie (Ewen Bremner) e The Chief (Eugene Brave Rock) contribuem para o andamento da história, ao passo que outros coadjuvantes como Sir Patrick (David Thewlis ) e a divertida secretária de Steve, Etta (Lucy Davis), também tem boa participação.

O núcleo das amazonas também entrega uma boa porção de diversão neste filme, com cenas de ação vistosas e presenças bem convicentes. Brilhando na atual temporada de House of Cards, Robin Wright desempenha um importante papel como Antiope, irmã da rainha Hippolyta, vivida por Connie Nielsen. As duas possuem uma ótima presença na tela e contribuem para a forte presença feminina que prepara o terreno para o que vem a seguir. Diana cresceu em uma sociedade onde não haviam homens e se vê, em determinado momentos, na década de 10 onde a presença de mulheres em certas discussões na sociedade era ignorada. O roteiro é hábil em expor essa questão e consegue passar a mensagem sem ser panfletário.

Algo muito comum em filmes de super-heróis é a ausência de figuras antagônicas de peso ou com algo mais a dizer além de uma face de extrema maldade. Em outras palavras, os vilões na maioria das vezes não agradam. Aqui há um pouco deste lado genérico do lado mau, principalmente quando se concentra na guerra e portanto, apresenta uma ameaça militar, na pele do general Ludendorff (Danny Huston) e da Dra. Maru (Elena Anaya). Já o elemento fantástico, que desemboca na ameaça relacionada a mitologia é um pouco decepcionante na forma como é apresentada, com um CGI visivelmente artificial. Porém, o restante do filme é eficiente neste sentido e isso atenua essa impressão.

Em Mulher-Maravilha, além de uma heroína com carisma e presença que estávamos esperando, há diversos fatores que contribuem para o sucesso do filme. O grande mérito, porém, é o equilíbrio com o qual lida com todos eles. Isso prova que é possível fazer um filme de super-heróis com protagonistas interessantes e motivações satisfatórias para a proposta, combinando cenas de ação sem tanta gratuidade e humor que torne o filme divertido sem ser bobo. Talvez este não seja o tom que a DC irá aplicar em seus próximos filmes mas de qualquer forma, pode ser um divisor de águas na forma de se tratar o gênero.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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