Crítica | The Leftovers 3×07: The Most Powerful Man in the World (and His Identical Twin Brother)

Além de ser lembrada como uma das séries mais intrigantes desta década, The Leftovers pode ser orgulhar de um grande feito: colocar os teóricos da internet no escuro. O surreal e inimaginável The Most Powerful Man in the World (and His Identical Twin Brother) é uma prova disso. Afinal de contas, quem poderia prever o que aconteceu neste penúltimo episódio?

Verdade seja dita: conforme imaginávamos o outro lado estava lá. Kevin pode morrer e ter uma outra vida fora de Jarden e ele ainda tem a capacidade de manter-se dentro da narrativa quando tem sua “morte interrompida”. A questão é que o episódio sobre os gêmeos idênticos é repleto de simbolismos que refletem a dualidade do protagonista, oscilando entre o drama que é impulsionado pela loucura pós partida, que curiosamente, é o mesmo motivo pelo qual situações que beiram ao ridículo sejam sustentadas até o limite.

E agora? Kevin Garvey Sr.

A grande questão em The Leftovers sempre foi acompanhar esse grupo de pessoas quebradas que ficaram, ou literalmente, as sobras. A intensidade com a qual eles lidam com a partida e a sensação de impotência é tão grande quanto a ausência de controle. Desta forma, é fácil se apegar a uma ideia ou crença, mesmo que isso soe tão absurdo quando um frango que diz o que Kevin Sr. deve fazer ou a ideia de que Matt alimentava acerca de um Messias. Todos querem respostas para suas angustias ou o protagonismo para si, mas nunca estão preparados para lidar com a negação da expectativa. O que acontece quando o plano falha? E quando tudo aquilo que resta para se apegar se vai? É que questiona o pai de Kevin, sem rumo após promover uma cruzada bizarra pela Austrália.

O mesmo diretor de International Assassin, Craig Zoebel, retorna neste episódio para nos guiar por quase uma hora entre dois mundos. O plano real, onde um dilúvio está prestes a acontecer, e o outro, seja qual for, onde Kevin Garvey também é Kevin Harvey. Lá vemos uma séries de rostos conhecidos como Dean, Meg, Patti, Christopher Sunday, Evie, Kevin australiano e até conhecemos os filhos de Grace Playford. Todos em versões alternativas. É um episódio com um tom mais tragicômico do que a primeira ida de Kevin, diga-se. Mesmo com a narrativa densa a intrigante, aqui sobra espaço para piadas sobre pênis e o próprio fato de que o homem mais poderoso do mundo é um remanescente culpado, em versão modernizada.

As missões que não foram cumpridas e a vida que segue

Com o mundo no lugar após uma grande chuva, um desapontado Kevin Sr. parece não ver mais sentido em sua jornada. De fato não há. A única coisa que pode ser pior que o fim do mundo é aguardar por este acontecimento e ele não ocorrer. Isso é de fato, uma grande rima com a mulher que ia para o telhado no início desta temporada. Pior do que aguardar a volta do Messias foi constatar de fato que ela estava errada e continuar a vida. No caso do egocêntrico, irritante e até por vezes engraçado ex-chefe de polícia, é o fim e mais um arco da série.

As respostas que todos procuravam não foram bem solucionadas do outro lado. Os filhos de Grace pareciam indiferentes, o ministro Christopher Sunday não tinha música alguma para impedir o fim do mundo e Evie não aparentava crer em nada do que Kevin dizia. No entanto, sobre sua família estar morta ela estava errada mas nunca algo soou tão certo sobre Kevin Garvey:

Seu discurso de agora…aquelas palavras eram suas? Você não parecia acreditar nelas. Você só faz o que lhe dizem. O que você quer?

A angustiante cena onde Justin Theroux expele água pela boca é uma das mais emblemáticas de toda a série. Ali ele ouve um retrato de sua vida, sobretudo seus últimos dias. Ele não acredita mas cumpre as agendas individuais do seu pai e amigos, mas o que ele realmente quer não é nada disso. Neste momento, vários momentos de sua existência durante os sete anos em que se passam a série são mostrados de forma bem rápida, sobretudo suas “mortes”, os momentos com Patti e sobretudo Nora. Sempre intercalando com o sua tentativa de sufocamento com o plástico na cabeça. Tudo isso culmina em uma cena onde a fotografia de John Grillo é simplesmente exuberante, captada durante a intensa chuva.

Seja lá qual for e o que for o outro lado, de fato Kevin era até então um personagem em negação. Aqui isso é demonstrado através de seus dois lados. Policial protetor e assassino implacável, personagem de um livro e escritor de sua história, cético e ao mesmo disposto a morrer para atravessar uma dimensão. As duas faces do protagonista invariavelmente o levaram a tomar atitudes. Do outro lado ele desempenha um papel que não pode neste mundo. Ele não é capaz de se esforçar para cuidar de sua família mas encontra em missões sem sentido um objetivo.

Acabar com este mundo e matar o outro Kevin significa reconhecer que de fato a vida dos que estão ao seu redor não tem sido tão boa. Em especial a de Nora. Já tivemos um vislumbre de seu futuro nada feliz, seja lá o que tenha acontecido. Mas não é o que se passou na Austrália. Tanto a vida de Kevin quanto a dos demais poderia ter girado em torno de cuidar uns dos outros ao invés de buscar explicações satisfatórias e concretas. Nossa existência é calcada no questionamento mas nem tudo será respondido. Isso inclui nossa experiência como espectador também.

Sobre a jornada de Kevin em uma narrativa que inclui tramas militares, de espionagem e até mesmo comédia, ai vai um grande conselho: aprecie sem tentar extrair muita lógica. É um mundo disfuncional e um lado imprevisível, onde a cabeça de Kevin se funde com uma espécie de purgatório de situações limite para serem cumpridas. É uma viagem que nos entretêm por grande parte do tempo mas que no final das contas só nos mostra uma coisa: O controle não existe e há coisas que são simplesmente inexplicáveis. Talvez por isso ele se sentisse tão vivo e pelo mesmo motivo isso era tão irreal e mascarava o que realmente importava e estava ao seu lado. Não tenhamos, portanto, raiva de Patti. Ela cuidou de Kevin e o libertou. A cena da explosão, diga-se de passagem, é arrepiante.

Falta apenas um episódio para The Leftovers encerrar sua jornada. O flerte com fé, religião, física e outros tantos elementos apimentam essa irretocável temporada mas cada vez mais vemos que, a grande questão aqui é o cuidado. Sim, o amor em todas as suas esferas. Nisso esses quebrados personagens não tem obtido tanto sucesso e veremos o que esse último capítulo irá nos deixar para reflexão. Será uma despedida e tanto.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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