Crítica | Master of None: 2º Temporada

A segunda temporada de Master of None estreou na Netflix sob o risco que muitas séries correm, que é o de entregar uma segunda temporada cercada de expectativa e um resultado menor que o esperado. Felizmente isso não aconteceu e a série mostrou, ao longo de dez episódios, uma qualidade acima da média neste retorno.

A parceira da época de Parks and Recreation entre Aziz Ansari e Alan Yang continua firme, com os dois dirigindo e escrevendo a maioria dos episódios desta temporada. A trama urbana com todos os dilemas e questões pelos quais um jovem adulto passa são mostrados novamente, só que ao contrário da primeira temporada (leia a crítica), aqui a jornada se inicia de forma mais pacata e intimista.

Em The Thief, um belíssimo episódio de estreia, de cara já vemos uma bela referência ao cinema italiano, situando Dev (Aziz Ansari) em um novo ambiente: a pequena cidade de Modena, na Itália. Mas ao contrário do que acontece em Ladrões de Biciletas (1948) de Vittorio de Sica, aqui Dev tem o seu smartphone furtado, explorando aquilo que a série faz de melhor: os temas atuais. Além disso, no decorrer dos 10 episódios, racismo, homofobia, minorias e até abuso sexual são inseridos na trama de forma sutil e relevante como poucas produções sabem fazer.

A tecnologia dita o ritmo novamente em muitas situações, propondo um retrato dos relacionamentos modernos. Os encontros via aplicativo em Fist Date, episódio que possui uma montagem incrível, escancaram isso, assim como as consequências que vão desde a falta de química nos encontros ao vivo e a expectativa aquém da realidade. A propósito, a comunicação via celular é algo bastante presente novamente e vemos o aparelho, muitas das vezes, como uma extensão do corpo de Dev. O realismo com que a série trata sua narrativa, embora apresente algumas situações mais irreais, continua presente neste segundo ano.

Quando dedica um episódio inteiro abdicando de seu protagonista para mostrar a diversidade nova iorquina em New York, I Love You, um dos melhores da temporada, Master of None tem momentos de genialidade. Da mesma forma, Thanksgiving explora mais camadas da amizade entre Dev e Denise (Lena Waithe) em um belo e sensível episódio que consegue discutir inúmeros temas em menos de meia hora. É simplesmente um daqueles momentos em que as palavras não podem definir o que se passa na tela.

A relação entre pais e filhos também continua a ser explorada e quando isso acontece, já aprendemos que teremos a sempre agradável presença dos verdadeiros pais de Aziz Ansari. Seu pai continua impagável e engraçado, como em Door #3 ou em Religion, que se propõe a discutir o tema da prática da religião. Apesar da forma que o episódio se desenrola, abordando o fato de Dev não ser um muçulmano genuíno, há um sub-texto presente que explora as atitudes que tomamos para agradar nossos pais e como isso pode influenciar a vida de uma pessoa.

Além da amizade entre Dev e Denise, Arnold também aparece com uma dinâmica muito interessante entre ele e o protagonista. Eric Wareheim, que dirige um dos episódios, é inclusive uma presença constante na segunda temporada e o gigante gentil proporciona em Le Nozze momentos bem divertidos e uma das cenas mais engraçadas da série. Quem acabou um pouco esquecido foi Brian (Kelvin Yu), que teve pouco tempo de tela neste ano.

Se na primeira temporada Dev lutava para emplacar algum trabalho interessante na carreira, aqui ele possui um programa fixo que ainda não faz seus olhos brilharem. A “Batalha dos Cupcakes  da Food TV é o único trabalho na televisão que ele desempenha, ao contrários dos vários testes que vimos anteriormente, o que já é uma evolução profissional do personagem. Isso abriu espaço para a boa participação de Bob Canavalle como Cheff Jeff, o excêntrico e exagerado chefe de Dev no canal.

Relacionamento é um tema que se discute a todo tempo na série. As experiências de Dev são exploradas em vários âmbitos, sejam profissionais, entre amigos e amorosos. Se tem algo que Master of None ressalta e valoriza é a busca do ser humano por aceitação e a relação entre duas pessoas com troca de experiências e as idas e vindas do cotidiano.

Logo de cara, quando vemos o fantasma da ex-namorada Rachel assombrar Dev, a impressão que se tem é que a trama poderia girar em torno desse desenrolar. O grande mérito, no entanto, é fazer com que haja um período de tempo para que ele viva novas experiências e por toda a temporada, a presença dela passa a ser muito pequena e se resume a mensagens de texto e uma breve cena. Isso dá espaço para o surgimento de novos sentimentos e a oportunidade de conhecermos Francesca, vivida pela bela e carismática Alessandra Mastronardi.

A evolução do que é inicialmente uma amizade e passa a se tornar um sentimento maior é bem desenvolvida e sem pressa. O contato que pouco a pouco vai dando a Dev uma nova perspectiva sobre Francesa discute não somente o que um relacionamento estagnado pode causar, mas também o quanto pode ser ruim abrir mão de um amor antigo por uma paixão repentina. Relacionamentos duradouros, onde o diálogo poderia ser o grande remédio terminam de forma desajustada e o roteiro não toma partido, embora haja uma crescente tensão sexual entre os dois. As duas consequências são mostradas e como na vida real, nada é tão fácil assim de se resolver.

A forma como a temporada termina é, mais uma vez, um desfecho que vai contra a expectativas mas não contraria a lógica. Afinal de contas, situações reais nem sempre possuem um final feliz. Assim como na vida, Dev passa por diversos acontecimentos onde, invariavelmente, ele estará mais frustrado do que feliz. E isso não torna sua vida ruim pois a jornada do protagonista é uma incessante busca por felicidade na vida pessoal e profissional, assim como a nossa.

Apostando em temas comuns e relevantes, Master of None se consolidada como uma série urbana que consegue tratar de assuntos em voga sem oferecer uma trama complexa. Com uma trilha sonora envolvente, uma belíssima fotografia e a peculiar linguagem cinematográfica, a série consegue mais uma vez ter relevância e ao mesmo tempo proporcionar um ótimo entretenimento. A Netflix acertou mais uma vez e a segunda temporada é uma belíssima obra de arte que consolida a série entre uma das melhores do ano até o momento.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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