Crítica | Better Call Saul 3×07: Expenses

Para todo ato bom ou ruim há uma consequência. É o que acontece com Jimmy McGill em um momento transitório onde, suspenso, precisa seguir em frente. No episódio Expenses, definitivamente temos a prova de que em Better Call Saul, assim como na vida, a glória pode durar uns dias mas os boletos tem data fixa.

Todo processo que culminou no surgimento de Saul Goodman, mesmo que ainda em uma “versão de testes”, continua em evolução. Afinal de contas, a ruptura definitiva entre o Jimmy que conhecemos e o que ele se tornará ainda não aconteceu. De fato falta pouco para ele cruzar a linha e em vários momentos percebemos isso. Desde a sua atitude no bar, onde ele mais demonstra amargura do que se diverte, até o momento final onde seu monólogo cheio de drama dá lugar a um sorriso sombrio de quem acabou de desferir mais um golpe no irmão.

Certamente as atitudes de Jimmy estão fazendo com que o rumo de sua vida seja levado cada vez mais para um caminho nebuloso. Na seguradora ele menciona que perdeu a licença para advogar, sua namorada está descontente e seu irmão o odeia. Tudo que se planta colhe e desde que a armação do Mesa Verde foi feita, um caminho sem volta foi traçado. Kim está sofrendo as consequências dos esquemas de Jimmy enquanto Chuck, um homem doente e sua única família, é a pessoa que mais o quer longe no momento.

As despesas que dão título ao episódio são geradas pela falta de dinheiro de Jimmy, que agora terá 12 meses pela frente sem exercer a profissão. Como ignorar o fato de que as contas fecham no vermelho e você não pode fazer nada? Nem todos os comerciantes locais são presas tão fáceis assim para a sua lábia, que com falta de confiança, fica notoriamente prejudicada. Na loja de instrumentos é onde isso fica mais evidente, quando Jimmy fica desconcertado e oferece o serviço gratuitamente. Uma medida desesperada para uma situação ruim.

A propósito, como é engraçada a interação da equipe de filmagens da Saul Goodman Produções. Esse alívio cômico é um dos momentos mais engraçados da série, sem que a intenção seja necessariamente fazer graça. Seria hilário ver esses quatro desajeitados em um sitcom mas talvez não funcionasse tanto quanto aqui.

A abertura do episódio também deixa claro de forma mais contundente que sim, uma pena alternativa é uma pena a ser cumprida. Quando as quatro horas de serviço comunitário se transformam em meia hora, a primeira de várias negociações frustradas acontece. É ai que percebemos toda a capacidade de atuação de Bob Odenkirk. Com uma temporada muito segura, o ator vem desenvolvendo muito bem essa transição que ocorre na terceira temporada e exige mais camadas do personagem. O otimismo inicial vem sendo substituído pelo ressentimento e futuramente irá culminar em um momento de explosão.

O Saul Goodman de alguns anos mais tarde é certamente alguém que já está curado de certas feridas. Vê-las expostas é o que vai moldar seu futuro caráter e veremos em breve esse processo se concluir. Curiosamente, a única saída para Jimmy parece ser exatamente Saul. Uma hora o dinheiro guardado acabará, assim como as inserções na televisão. É ai que veremos realmente o surgimento do personagem que tanto queremos conhecer em seu início.

Na outra ponta, Kim também vem sendo uma personagem em um momento de transição. Ela está moralmente afetada quando ela questiona o julgamento de Chuck com Paige e acima de tudo, cansada. A direção de Thomas Schnauz (que também escreveu o episódio) consegue em vários momentos captar, a partir das expressões extenuadas de Rhea Seehorn, um certo abatimento que beira à estafa. Kim também está prestes a quebrar e mesmo sendo uma mulher forte que se recupera em um cochilo de cinco minutos, também destrata o próprio cliente por não saber lidar com a pressão.

Cabe ressaltar que em se tratando de séries de Vince Gilligan, as cores falam conosco. Essa linguagem é percebida no episódio que gira em torno do dinheiro (ou a falta dele). Jimmy aparece em todas as situações de verde, em vários tons. Note que quando ele pensa em aplicar um golpe o tom é o mais escuro. Já Kim, bem intencionada mas se questionando sobre suas atitudes, veste o habitual azul com tons mais escuros.

Com os grandes chefões do crime fora do caminho, também é hora de movimentar peças que podem definir um futuro que já conhecemos. A forma que Nacho encontra para adulterar os comprimidos é definitivamente uma possibilidade de como Salamanca poderá parar em uma cadeira de rodas. Ele também se encontra no limite, com sua família em risco por causa da loucura do chefe. Mesmo se o plano der certo, não há uma garantia de que o sucesso seja completo e para isso, nada como uma boa consultoria.

Curiosamente, quando todos escolhem caminhos que levam até um futuro mais sombrio, Mike é quem estabelece uma tentativa de trilhar uma trajetória boa. Acompanhar a nora na igreja, ajudar a construir o parque das crianças, flertar e apenas trabalhar na cabine do estacionamento poderiam lhe dar um destino bem diferente do que conhecemos. Mas quando Pryce aparece para lhe contratar, invariavelmente estamos de volta a um ciclo onde cedo ou tarde, se é tragado de volta.

No momento em que Mike adverte Nacho sobre a forma de agir, sem que isso levante suspeitas, percebemos quanto o personagem possui a capacidade de encobrir rastros. A espiada no tanque de gasolina mostra que o tempo é capaz de ensinar mesmo quando já se sabe muito. Não é de se espantar que ele tenha chegado tão longe anos mais tarde, embora seu desfecho em Breaking Bad ainda seja um lamento. Ou não. Conforme a primeira frase desse texto diz, para todo ato bom ou ruim há uma consequência.

Depois do excelente Chicanery, onde tivemos o maior momento da temporada até aqui, este foi o segundo episódio que pisou no freio para desenvolver uma nova mudança de status para os personagens. É ai que está grande parte do mérito de Better Call Saul. A calma e a fluidez como as situações são apresentadas justificam todos os momentos de clímax. Uma catarse está por vir, só que desta vez não deverá ser algo tão bom para a maioria dos personagens.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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