Crítica | The Leftovers 3×06: Certified

Como a sinopse de Certified informava, Laurie, uma ex-terapeuta, reviveria a profissão novamente na Austrália, para ajudar Nora e Kevin ao longo de suas jornadas. Porém, o que se viu em The Leftovers foram despedidas, em um episódio dramático e ao mesmo tempo dotado de um humor sutil e peculiar que somente esta série é capaz de entregar.

Não haveria ninguém melhor que Carl Franklin para dirigir mais um episódio onde o brilhantismo de Amy Brenneman se fez tão presente. O mesmo diretor de Off Ramp (episódio 3 da segunda temporada que mostra Laurie ajudando as pessoas a sair dos Remanescentes Culpados) usa e abusa aqui de planos fechados no rosto da atriz. Um expressivo olhar e ao mesmo tempo indecifrável, diga-se. Afinal de contas, a verdadeira motivação de Laurie se revelou apenas nos minutos finais do episódio que também teve poderosos diálogos envolvendo Nora, John e Kevin.

A série tem realizado uma grande façanha que é entregar dentro de uma obra-prima que é a terceira temporada, episódios acima da média em larga escala para a televisão atual. Embora seja uma época transitória que se ressente do fim de grandes dramas como Mad Men e Breaking Bad, ao mesmo tempo estão em exibição obras como Fargo, The Americans, Better Call Saul e a estreante The Handmaid´s Tale, para não citar outras. Sim, as sobras são hoje o suprassumo da televisão. Isso é um fato.

O que Certified se encarrega, em 57  minutos, é entregar situações que até poderiam soar engraçadas se não fossem tão dolorosas. Laurie nos guia como o pé no chão diante de situações tão absurdas como as convicções de Nora, Matt, Grace, John, Kevin Sr. e Kevin. Sejam profetas ou apóstolos, todos querem que o messias morra para atender as suas vontades. Tal qual a fé cristã, todos querem ser salvos e precisam de um Jesus, ou o seu personal Jesus. Mesmo assim, a ex-remanescente evoca o seu lado terapêutico para ganhar confiança mas não os julga. Sua jornada pode até ter tido uma intenção de ajudar mas no meio do caminho, mediante tantas certezas, o mundo como ela conhece jamais será o mesmo de qualquer maneira.

A montagem do episódio nos coloca em 3 tempos distintos para compreender justamente o fim. Desta forma, quando vemos em seu consultório a mulher que perde o seu filho na primeira cena da primeira temporada, estamos diante de uma Laurie que vivencia novamente a experiência de ter perdido o filho, na gestação. Isso nos leva a refletir de forma sensível sobre o quão doloroso pode ser uma perda. O grande paradoxo nisso tudo é que aquilo, para ela, nem fez muita diferença, uma vez que a gravidez não era algo desejado.

Nos dias atuais, entre a perseguição de Nora em busca da máquina que pode levá-la ao outro lado, e o dia na fazenda de Grace, a ex-terapeuta atua como alguém que anda entre os quebrados, mas que bem antes disso, já estava devastada. Após a partida, o que fica claro é que absorver toda essa carga emocional a consumiu de tal maneira que isso culminou até em pensamentos suicidas. Por outro lado, quem poderá dizer quais foram suas motivações? Fato é que o prólogo do episódio é um show de atuação de Amy Brenneman, que se entrega totalmente e nos coloca imersos em uma situação angustiante e que a leva direto aos Remanescentes Culpados. Tudo isso ao som de Wherever I May Roam, do Metallica, em uma versão em cordas.

É curioso notar que sua relação com Nora é explorada de maneira intensa e Carrie Coon também atua de maneira brilhante neste episódio. Seja por demonstrar toda a amargura de quem acabou de perder Kevin ou ter que lidar com aquela que ajudou a colocar uma réplica de sua família em sua casa. É justamente no conflito que surge o conforto. Uma belíssima cena final, em tom de despedida, talvez seja uma das mais bonitas da série. Matt está ali, não mais como um fanático mas como irmão. Laurie está ali para se despedir, mas não da forma que eles poderiam pensar.

Mas não foi somente com o suicídio que o episódio flertou. O lado espiritual sugere novamente uma nova visita de Kevin ao hotel e passagens bíblicas, como a última ceia e o Apocalipse, que podem ser vistas de formas distintas. Afinal de contas, o Judas seria Michael ou Laurie? E a interpretação do Apocalipse, tida como literalmente ridícula por Matt, falando do francês que explodiu o submarino e a levou ao pé da letra. Haviam sete cabeças na casa de Grace. E se Kevin for o anti-cristo? Melhor parar por aqui, até porque, diferente de outras séries, a graça desta é se deliciar com a trajetória e não se importar com o destino.

O fato de Laurie drogar a todos para ter uma despedida afetuosa com Kevin, regada com verdades inusitadas, foi um certo descaso com John e os demais. Quando acordarem, ela já terá partido. O que mais importou, no momento crucial, foi aquele amor que transcende a carne. Fato é que as relações humanas são expostas de maneira fantástica em The Leftovers. O fato de que mesmo com todo o passado amargo que envolve o abandono ao marido (e à família), o vínculo eterno de uma casamento que gira em torno de uma história com filhos rende um lindo momento de afeto e respeito. É um tipo de laço que a propósito, entre outras coisas, faz você nunca esquecer quantas vezes por dia seu ex-marido vai ao banheiro. Laurie, Laurie…

A todo instante e cada vez mais nos damos conta de que os que ficaram são os verdadeiros desaparecidos. Suas vidas, almas e convicções foram despedaçadas ao longo de sete anos. A crença em algo é o que sustenta uma vida que urge por uma fuga. É devastador ver, quando Kevin diz que sente-se mais vivo no hotel, o quanto nada mais faz sentido para ele neste mundo. A perda é algo indescritível e julgá-la é injusto. É isso o que Laurie faz. Um exemplo disso é quando John explica, em uma belíssima cena de Kevin Carroll, num momento de profunda sinceridade sobre o que ele quer que a filha saiba. Ela era amada e esse é o recado. Talvez, em vida, isso não tenha sido expresso da forma como somente em uma perda você pode ser capaz de dizer.

O desfecho do episódio pode ter sido o fim da jornada de Laurie. Talvez definitivo ou que gere interpretação. Viva ou não, seu papel está concluído e o arco da personagem se encerrou. É uma cena construída lentamente, que gera uma expectativa desde a chegada ao local mais distante possível no mar até a ligação (uma bela conveniência do roteiro). A agradável conversa poderia soar como a despedida ideal e seria o jeito perfeito de encerrar ali sua trajetória. Você está no mar, um acidente acontece e quem dirá que foi um suicídio? Porém, este vínculo com os filhos pode demovê-la da ideia, mas se for uma questão aberta a interpretação, isso foi moldado de forma tão precisa que sim, podemos viver com essa dúvida.

Um dos melhores de toda a série, Certified encerra um arco importante, sendo uma obra-prima que reforça a condição de excelência da terceira temporada de The Leftovers. É um episódio agridoce onde a paz é encontrada através de um olhar sensível às motivações dos outros, com uma atuação fantástica de Amy Brenneman. Se houver alguma justiça no mundo, ela deverá concorrer ao lado de Carrie Coon nas premiações de televisão deste ano.

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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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