Crítica | The Leftovers 3×05: It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World

Desde a primeira temporada, aprendemos que quando The Leftovers apresenta um episódio focado em Matt Jamison, algo de bom acontece. Menos para ele, na maioria dos casos. Também é certo que quando isso ocorre, acompanha elementos que incluem uma enervante tensão. Em It’s a Matt, Matt, Matt, Matt World, todas as camadas e nuances do personagem mostradas até aqui culminaram em uma metafórica e catártica experiência emocional.

De fato, a vida não tem sido fácil para Matt, desde sempre. O pregador já enfrentou uma leucemia na infância, a morte dos pais em um incêndio, dificuldades financeiras, a catatonia da mulher e sempre, em meio a tudo isso, manteve sua fé e tentou propagá-la. Mesmo com uma característica que vem beirando o extremismo, que o faz acreditar que Kevin é um Messias ou até mesmo a crença que o levou a colar cartazes expondo os pecadores na primeira temporada, o personagem sempre é testado severamente e aqui não foi diferente.

Disposto a trazer Kevin de volta a Miracle até o 14 de outubro, Matt não se importa em pegar uma balsa por 11 horas, em meio a uma orgia flutuante que inclui um leão de verdade. O episódio, aliás, começa no mar e explica o fim do capítulo anterior, mostrando a explosão e justificando a necessidade deles irem através da água até Melbourne, via Tasmânia. Mas a estranheza aqui não se resume somente ao homem nu destruindo uma ilha no Pacífico, tampouco ao ritual onde é proibido mencionar o nome Frasier, um leão que gerou 35 filhos aos noventa anos. A conversa com Deus, ou aquele quem diz ser o próprio, é o êxtase.

Examinemos antes, porém, a teimosia de Matt. Seu fanatismo caracteriza exatamente o jeito de ser das pessoas, sete anos após a partida. Tudo é mais intenso, inclusive a paranóia. Ninguém mais é totalmente normal e a crença em algo (ou a falta dela) foi minando o psicológico das pessoas ao longo deste período, conforme vemos frequentemente. É o que acontece com nosso protagonista do episódio. O arrogante e teimoso pregador, mesmo sendo advertido que não dá para voltar para Miracle a tempo, mantém sua fé cega em seus princípios, seguindo uma agenda pessoal mencionada no fim do episódio.

Porém, é notável a forma como Matt se expressa. A verdade com a qual ele enxerga as coisas ao seu redor e sua entrega emocional são incríveis. O desfecho deste capítulo e sua serenidade após entender o seu propósito pessoal são provas disso. A capacidade de Christopher Eccleston em transmitir isso de forma tão verdadeira é uma das melhores coisas desta série, sem dúvida alguma. Foi um trabalho de construção e posterior desconstrução do personagem bem gradual. As atuações, a propósito, tem tornado esta temporada cada vez mais uma forte candidata a melhor produção deste ano, sem exagero algum.

Outro fato interessante em The Leftovers tem sido a questão da perspectiva. A cidade que para Matt curou sua mulher, lhe deu um filho e torna Kevin alguém que não morre, é a mesma que arruinou o casamento e tirou a filha de John. Isso nos leva a uma reflexão acerca dos panoramas distintos. Quando temos uma visão moderada, outra extremista e a cética, representada aqui através de Laurie, transitamos por pontos de vista distintos, onde ninguém parece ter ou faltar com a razão. O que a série faz é jogar com todo viés possível, nos apresentando visões religiosas, profanas, científicas e até as absolutamente descrentes.

Deus ou deus?

Voltamos para o todo poderoso que joga pessoas do barco e tem um cartão com perguntas frequentes. Eu tinha a sensação de que já havia visto o rosto de Bill Camp na série e David Burton já apareceu em duas ocasiões na temporada passada, mas sem nome creditado. No episódio 8, International Assassin, ele é o homem na ponte que adverte Kevin sobre levar a pequena Patti ao poço e lhe oferece a opção de pular. No episódio final, I live Here Now, o homem no bar que orienta o policial a cantar para retornar à vida também é ele. Um pouco antes no episódio 3, Off Ramp, enquanto Laurie escrevia seu livro e Tom chegava em casa (a partir do minuto 18), o noticiário da televisão informou a seguinte notícia:

“Ressurreição? Afirmam da Austrália, quando testemunhas descrevem que alguém que morreu…saiu de uma cova em Waneroo, fora da cidade de Perth. Saiu coberto de picadas, dizia estar em um hotel. O homem, identificado como David Burton…”

Hotel, Perth, falar com Deus. Parece que estamos falando a mesma língua de Kevin Sr. e Kevin Jr. não? No entanto, na estreia da temporada anterior em Axis Mundi, aquele homem que ficava no pilar e morreu alguns episódios atrás entregou uma carta endereçada a David Burton. Quando Michael leva para o homem um café da manhã, ele recebe a correspondência dele e se encarrega de despachá-la:

Se David Burton é realmente Deus ou um farsante, depende do ponto de vista. Para Matt, que finalmente enxerga suas atitudes como em favor de si mesmo, a melhor resposta é a que lhe convém. Isso inclui crer no homem que se abstêm de responsabilidades e afirma que Jesus tinha um gêmeo. Tudo bem, desde que esse deus o ouça. Isso é aquilo que ele sempre quis. Agora o reverendo já pode partir e admitir isso.

Sem dúvida alguma, The Leftovers se trata de uma série onde a lógica é desafiada a todo instante. Cada detalhe que antes julgamos aleatórios ou até  menos importantes estão fazendo sentido. Essa conexões mostram que Damon Lindelof e os demais roteiristas sabem aonde querem chegar e série tem transitado com segurança em um terreno onde facilmente poderia se perder. A grandiosidade da série vem de um conjunto de fatores, que este ano estão impecáveis.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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