Crítica | Better Call Saul 3×06: Off Brand

Depois de um episódio épico como Chicanery, era de se esperar que Off Brand pisasse no freio para trabalhar as consequências dos eventos recentes de Better Call Saul. É aquele típico exemplo de como tornar o que a princípio parecia morno em algo necessário, para redefinir os rumos da série.

Como já foi dito por aqui, a construção lenta que Vince Gilligan e Peter Gould atribuem à série favorece o crescimento da mesma, tal qual em Breaking Bad. Nas duas primeiras temporadas os personagens são apresentados, desenvolvidos e o universo se estabelece de forma orgânica. A partir do terceiro ano, época que também redefiniu a série original, temos aqui o aparecimento de vários personagens, conectando e finalmente dando forma a este universo criado com todo esmero possível.

O maior exemplo disso é Jimmy McGill. Ao final da primeira temporada, o primeiro ensaio sobre Saul aconteceu, depois de acompanharmos sua trajetória tentando fazer o que é certo para impressionar o irmão. No segundo ano, o duelo com Chuck culmina em tudo que estamos vendo agora, moldando cada vez mais sua nova personalidade. Ai entramos em uma questão primordial: como isso aconteceu e como ele se tornou Saul Goodman? Essa é a maior pergunta da série desde o início. Este episódio não nos mostra uma transformação completa mas é importante ao dar o passo mais emblemático até agora, através de algo que vem sendo trabalhado desde o começo da série: a construção do personagem.

Nesse sentido, o roteiro de Ann Cherkis e a direção do estreante na série Keith Gordon convergem bem em mostrar o novo status de Jimmy. Sem poder advogar por um ano, várias situações são expostas e todas fazem sentido. O aluguel do espaço, os salários de Francesca e os idosos são elementos que não poderiam ser ignorados na discussão. As ligações, a propósito, mostram o belo trabalho do diretor e de Bob Odenkirk, que vai do empolgado advogado pela manhã até o desgaste no fim do dia. Sim, a paciência daquele cara simpático também tem limites. No entanto, a grande ideia que provavelmente eu e a maior parte de vocês podem ter se esquecido eram justamente os anúncios.

Os comerciais de televisão fazem parte da história desde o começo. O viés marketeiro e caricato de jimmy é um dos talentos com os quais ele poderia levar a vida por um outro caminho. Ai está uma grande consideração sobre esses personagens: a escolha. Em algum momento, Saul Goodman irá advogar e o alter-ego irá tomar conta por completo, indo para o lado criminal. Assim como Mike irá para o lado de Gus ao invés de brincar com a neta. Todas as importantes escolhas feitas aqui definem o futuro que conhecemos, e não é por falta de opção. Não há motivos que não sejam a vontade dos próprios personagens, tal qual a saga de Walter White. Uns acabam mortos. Outros em uma lanchonete, a milhares de quilômetros de distância.

Dificilmente as coisas poderiam ficar totalmente boas para Jimmy. Porém, a suspensão por 12 meses acabou saindo barato e conforme vimos, Chuck é quem junta seus pedaços após a batalha jurídica. É um episódio de transição em todos os sentidos, qualquer que seja o núcleo. O experiente advogado, ao que parece, enfim admite buscar ajuda médica para a sua doença mental. Sua ida ao telefone público é marcada por cenas onde ele se vê, literalmente, atormentado não somente pela suposta doença mas com o fato de se incomodar com essa história de estar enlouquecendo. O trabalho de som nesses momentos é muito bem feito, com ruídos que remetem a algum tipo de distúrbio elétrico, evidenciando o desconforto do personagem.

Uma aparição rápida também situa Mike em situação oposta ao que vimos até aqui, seja no grupo de ajuda para acompanhar Stacey e a promessa da construção de um parquinho infantil, que anos mais tarde seria um dos últimos lugares pelo qual ele passaria. Falando nisso, outro local bastante conhecido surge aqui. O laboratório que funcionava na lavanderia de Gus Fring, que conhecemos na terceira temporada, começa a tomar forma e inesperadamente, Lydia também aparece, mostrando que havia uma conexão mais estreita entre os dois.

Tão importante quanto a primeira aparição de Saul Goodman foi ver o primeiro indício de como Hector Salamanca irá adoecer. Sabe-se que sua obsessão pelos negócios de Gus é enorme. Muitos também se perguntam como foi que ele parou em uma cadeira de rodas, tendo que recorrer a um sino para se comunicar. Neste ponto, Hector se parece com Chuck. São dois homens adoecidos, perdendo o controle, mesmo que Salamanca ainda não saiba. E ele ainda continua enviando dinheiro em elásticos e alguém não irá gostar disso…

Um pouco de lado nesta temporada, a partir desta segunda metade, Nacho deverá desempenhar um papel importante. Insatisfeito com o chefe, pressionado e agora com a família em questão, sua paciência parece estar no limite. Aquele comprimido no chão pode significar muita coisa aliás, como uma substituição por placebos. Ele é apenas mais um, entre tantos personagens, que está pronto para uma virada. O que provavelmente veremos em breve acontecer com Kim. É justamente quando as coisas vão muito bem que elas tendem a desandar. Em algum momento, fica a sensação de que algo irá acontecer com a talentosa advogada e talvez seja o gatilho final para estabelecer Saul Goodman.

                               

Iniciando uma nova fase dentro da temporada, Better Call Saul vem se tornando neste terceiro ano uma série estabelecida. É um discurso repetitivo afirmar que o seriado já foi além de um prequel ou spin-off. Mais que um derivado, trata-se de um planejamento bem executado onde futuramente poderemos enxergar como uma coisa só. Não em termos de nível de produção mas em razão do fator complementar que uma proporciona a outra.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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