Crítica | Better Call Saul 3×05: Chicanery

De um lado o mesquinho e experiente advogado. Do outro, um irmão astuto e moralmente falho. Juntos eles formariam uma boa e controversa equipe, mas por circunstâncias que remetem a anos de ressentimento, isso nunca deverá acontecer. Em Chicanery, Better Call Saul chegou ao auge de uma construção de duas temporadas e meia, culminando em um final de prender a respiração.

Desta vez nada de Mike perseguindo traficantes ou Gus Fring mostrando suas faces distintas. Voltando a essência de sua premissa, acompanhamos por todo o tempo apenas a trama envolvendo os irmãos McGill. Totalmente comprometida com a causa, além dos dois principais personagens da vez, Kim Wexler entrou de cabeça no caso que curiosamente, sustentado por uma estratégia extremamente bem pensada, não envolveu mentiras. Apenas medidas necessárias. Foi um episódio para Rhea SeehornBob Odenkirk e Michael McKean mostrarem o melhor si nesta temporada.

O roteiro de Gordon Smith foi preciso ao estabelecer detalhes cruciais para o entendimento de alguns acontecimentos anteriores. No flashabck inicial, que abre o episódio, vemos Chuck e Jimmy planejando amigavelmente a visita de Rebbeca, a luz de velas. Já imerso na paranóia que o levou a alimentar a doença do distúrbio eletromagnético, Chuck usou a desculpa do corte de luz para a ex-mulher, a partir de uma troca de números: 251 por 215. Isso remete exatamente ao que aconteceu com o Mesa Verde, o que é uma sacada bem interessante do episódio.

Se passando grande parte do tempo no tribunal, além do talento de Kim, vimos também a capacidade de Jimmy em montar uma estratégia. Amparada na verdade e nas mãos leves de Huell, aquele capanga que tirou o maço de cigarros de Jesse na quarta temporada de Breaking Bad. Apresentado pelo veterinário a quem Mike recorre para serviços mais obscuros, o papel desempenhado por ele aqui foi de suma importância no ato final deste episódio. Aliás, o ator Lavell Crawford está bem mais magro não é? Mas isso não é um problema, já que a série se passa seis anos antes dele trabalhar para Saul Goodman.

Uma das questões cruciais em Chicanery foi fechar o diagnóstico de Chuck. Desde o início da série, por ser um respeitado e competentíssimo advogado, o prestígio e sua posição conseguiram sobrepujar a doença mental, fazendo com que todos embarcassem na sua dedução. Quando ele precisou ser internado nas temporadas anteriores, uma médica já havia advertido Jimmy sobre a falsa doença. É mais fácil admitir uma patologia exótica que ainda não foi comprovada, do que um distúrbio mental. Mas para uma pessoa orgulhosa como Chuck, a partir de uma cuidadosa construção de personagem, entendemos o porquê de sua resistência.

O rancor e inveja com o qual ele se refere ao irmão também define a relação entre os dois. Jimmy, mais carismático e espontâneo, sempre incomodou Chuck. Em um flashback na segunda temporada, quando ele não diz ao irmão as últimas palavras da mãe (ela disse “Jimmy”) isso já havia sido mostrado. Também sabíamos que sua indignação pela forma como Jimmy se formou o incomoda, bem como suas antigas armações. Há um fato interessante também aqui, que estabelece até uma rima com Walter White. Heisenberg nunca admitiu que suas ações eram para si e sim para a família, a não ser em uma única vez.  Chuck alega que a lei está acima de tudo e faz isso para que ela seja seguida. Mas sabemos que no fim das contas, é para que ele seja sempre o melhor.

Desta vez, Chuck não esteve um passo a frente. A cada nova jogada de Jimmy e Kim, inclusive com a admissão do que é dito na fita, mais instigante o episódio se apresentou. Eis ai a genialidade do roteiro, que foi reverter por meio de uma verdade, o sentido e a intenção daquilo que foi dito. A carta na manga, ou melhor, a bateria no paletó não desfaz o que foi feito mas enterra a reputação do experiente advogado.

A forma como isso se desenrola é sensacional. Veja como a câmera vai captando, aos poucos, o rosto de Chuck até ele crescer de uma forma ameaçadora. No fim de sua alteração, quando cai em si, ele é enquadrado da forma como sairá da audiência: diminuído. É necessário ressaltar que a direção de Daniel Sackheim é fundamental e conduz não somente esta, mas outras cenas de forma bem competente, como o flashback e a bela cena em que Jimmy e Kim acordam pela manhã.

Somente uma série que consegue construir com calma seus personagens, dando camadas a eles e motivações, pode trazer um episódio confinado com um resultado amplamente satisfatório. O grande duelo da temporada não veio por meio de tiros ou perseguições. Afinal de contas, isso nos faz lembrar do real protagonismo de Better Call Saul, e que o restante são conexões que irão se encaixar, ao seu tempo, de maneira precisa. A série já demonstrou aonde quer ir e isso vem sendo determinante para o sucesso desta ótima temporada.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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