Crítica | The Leftovers 3×04: G’Day Melbourne

Desde o retorno desta temporada, se tinha algo que não havia sido tão enfatizado era o que aconteceu na passagem de tempo, que ocorreu entre a segunda e a terceira temporada de The Leftovers. Sendo assim, neste episódio, tivemos a confirmação de que, mesmo quando tudo parecia ir relativamente bem, estava ruim. Muito ruim.

De fato, a relação entre Kevin e Nora nunca esteve marcada pela confiança mútua. Um serve mais como um porto seguro para o outro mas tanto a paranóia de Kevin, quanto a dificuldade de Nora em lidar com a partida da família, foram motivos para que a franqueza não se estabelecesse nesta relação. Sendo assim, Nora comprou uma casa sem o consentimento do namorado, foi para Melbourne carregando US$ 20 mil no corpo enquanto poderia dividir com ele a quantia, enquanto por outro lado, Kevin experimentou uma fantástica experiência sobrenatural sem ter dito uma palavra a ela. Quando tentou, ela fugiu e o amarrou, como bem frisou em uma derradeira conversa.

Ainda assim, o sexo escapista, o tom otimista da viagem e a aparente vida que seguia em frente nos dois primeiros episódios não apontavam para uma ruptura tão brusca, construída através deste que foi um dos melhores roteiros já escritos neste seriado, ficando a cargo de Tamara P. CarterHaley Harris. Desde o início os sinais estavam ali. A julgar pela música de abertura “This Love Is Over” de Ray LaMontagne & The Pariah Dogs (clique aqui para ouvir), são dadas pistas para o que veremos adiante, quando ela diz: “Enlouquecendo…Nem mesmo sei meu próprio nome na metade das vezes/Como eu fiquei tão cego que eu não poderia ver/O que estava bem na minha frente?”; ou quando simplesmente nos conta o seguinte: “Acho que é tempo de fechar a porta/Eu não quero mais chorar/Não vale a pena lutar por esse amor/Está acabado, esse amor está acabado.”

A música ainda conectou-se com a narrativa de forma importante e você deve ter percebido, também, “Take on me” do A-Ha tocando por três vezes aqui. No clipe desta música (clique aqui para assistir), lançada em meados dos anos 80, uma mulher sentada em um café folheia uma história em quadrinhos e é puxada pelo protagonista para dentro dela, retornando depois de uma intensa aventura. A música consegue conversar com Nora e Kevin ao mesmo tempo, pois ambos quiseram atravessar desesperadamente: ela quer ir para outra dimensão ou seja lá o que for, e ele quis voltar, do hotel.

Aceite-me/Venha na minha/Eu partirei/Em um dia ou dois. Take on Me, A-Ha.

Outros sinais estavam ali, e mais uma assistida colabora muito para isso. Tanto no aeroporto, quando a atendente pergunta se eles estão juntos, ou quando Laurie, em meio a paranóia de Kevin, pergunta se eles estão bem. Tudo culminou em uma cena estupendamente bem conduzida pelo diretor Daniel Sackheim, extraindo o melhor de Justin Theuroux e Carrie Coon. Em meio a um quarto que ardia em chamas, a relação também se esvaía como o livro de Kevin. Quando ele, sem olhar para trás parte, e Nora permanece ali com a água percorrendo o seu rosto, lágrimas e água se misturam a uma belíssima cena, uma das mais emblemáticas e memoráveis de The Leftovers.

Mais paranóia e menos sobrenatural

Um vislumbre interessante neste episódio é que, ao contrário de seus predecessores, a razão prevaleceu sobre a fé. Tivemos mais uma visão das atividades de Laurie e John, fingindo se comunicar com os mortos, da mesma forma que vimos na estreia da temporada. Além disso, Amy Brenneman atuou de forma sublime, sendo a ancora de razão na qual Kevin precisou se apoiar, inconscientemente. Mesmo com toda exposição de diálogo, compreendemos ser necessária a forma como ela agiu e o porquê de ter ludibriado o ex-marido.

Eu poderia jurar, em meio ao envolvimento da trama, que a descoberta de Evie em solo australiano seria a motivação que levaria John e Laurie para lá. Ledo engano. A história conduziu o mistério de forma que pudemos viajar na paranoia de Kevin, sem estender muito o mistério, coisa que muitas séries poderiam cair na tentação em fazer (Olá Mr. Robot). As cenas que conduzem o protagonista em busca de sua verdade são sufocantes e percebe-se uma alteração de comportamento que nos leva de volta as duas primeiras temporadas. A revelação em si não coloca em cheque tudo que vimos e pensamos até agora. Porém, mesmo que de fato haja o elemento sobrenatural, nem tudo é somente desta forma. Pensaremos como Kevin agora?

O que há do outro lado?

Nora Durst viajou preparada para partir. Em tom de brincadeira chegou a dizer a desculpa que daria caso questionassem a presença de Kevin, sustentando a tese de terem um relacionamento doentio. De fato era uma forma amena de dizer a verdade. Sabemos que Nora nunca poderá superar a partida repentina da família e a perda de Lily.

Toda sequência envolvendo sua ida ao encontro do misterioso grupo, tal qual a jornada de Kevin, também teve contornos dramáticos interessantes. O questionamento sobre matar ou não um recém-nascido (o motivo pelo qual o homem reprovado se mata na frente de Kevin Sr. no deserto) é um dos momentos mais devastadores apresentado. Nora é uma personagem que sempre buscou o controle da situação. É uma rima interessante que, trabalhando na função que ela exerce e questionando incessantemente as pessoas, uma pergunta tenha lhe dado apenas o “benefício” da dúvida.

Uma das apostas possíveis para a aparência de Nora no final de episódio de estreia era que, por conta da exposição a máquina e não por velhice, ela poderia ter tido algumas sequelas. Como ela não foi para o outro lado/incinerada – pelo menos ainda –  isso por hora cai por terra. Mas há um dado interessante que se desenha no fim, quando Kevin tenta chamar um taxi. Uma explosão é mencionada, o que impossibilita os serviços. Que explosão seria essa? Será que tem relação com o homem que menciona um ataque nuclear no aeroporto? Não da para prever ainda.

Já estamos na metade desta temporada que até agora, é impecável. Um dos grandes méritos de The Leftovers é a sensação de que estamos assistindo uma obra que sabe para onde quer ir. Damon Lindelof encontra cada vez mais sua possível redenção com os fãs descontentes de Lost, e sua consagração, a frente de uma das melhores séries desta última década.

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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