Crítica | The Leftovers 3×03: Crazy Whitefella Thinking

Poucas séries conseguem dar a seus coadjuvantes protagonismo e um episódio para si tão bom quanto Crazy Whitefella Thinking. Foi mais uma noite grandiosa em The Leftovers, onde olhamos por uma outra perspectiva o propósito de viver em um mundo onde não há meio termo e todos negam ou buscam alguma motivação.

Desta vez, nada de Kevin, Nora ou Jarden. Apenas uma participação de Matt (Chrisopher Eccleston) e por quase uma hora, mergulhamos em uma jornada misteriosa e estranhamente louca de Kevin Sr. (Scott Glenn). Explicando sua ida para a Austrália e nos situando exatamente no final de The Book of Kevin, o episódio serviu também para conhecermos um outro lado de Grace Playford (Lindsey Duncan). Em um diálogo que já é, sem dúvida alguma, uma das melhores coisas que esta série já nos proporcionou, perspectiva e sentimentos foram subvertidos em mais uma daquelas incríveis histórias envolvendo o dia da partida. A busca pelo propósito uniu, de maneira inusitada e trágica, duas pessoas consumidas por um ideal.

Voltando no tempo, ainda na primeira temporada, o vislumbre que temos de Kevin Sr. é de alguém que já não tem a sanidade mental de antes. Louco por assim dizer. Cinco minutos após a partida, ele começou a ouvir vozes em sua cabeça. Esse enigma sempre esteve em torno do personagem, pois com o viés espiritual da série, não sabemos com exatidão qual a sua motivação real. Na segunda temporada, o pouco que vimos dele foi no hotel de International Assassin. Isso pode ligar Kevin a algum plano realmente espiritual, se traçarmos um paralelo com sua história sobre o hippie que o levou a “falar com Deus”.

No presente, a trajetória de Kevin Sr. é uma desventura de acontecimentos dolorosos e cômicos. Vejamos quantas coisas acontecem: ele invade uma reserva indígena e se apropria da cultura aborígene, é preso, cai de um telhado (R.I.P. Chistopher Sunday), é picado por uma cobra, presencia um homem atear fogo no próprio corpo e peregrina pela imensidão árida alaranjada, beirando a morte. Aliás, para Kevin Sr., o protagonismo é necessário, a partir do momento em que ele rasura o livro enviado por Matt com os feitos milagrosos do filho. Ele também precisa ser parte disso. Para quem esteve no deserto e viu inclusive uma serpente, não seria difícil associar a si mesmo, por conveniência, como uma figura messiânica. Os caminhos da família Garvey, invariavelmente, incluem a dor física. Que dirá para salvar a humanidade.

O que move essa trajetória de forma latente é o propósito. Um sinal. Impedir o apocalipse cantando no Outback, a partir do ciscar milagroso de Tony – o frango – é a coisa mais insana e pitoresca que poderia mover alguém. Mas como estamos falando de Kevin Sr. , o homem que ouve vozes há sete anos e que simplesmente decidiu segui-las, cantar conforme a gravação de Kevin Jr. apontava é o suficiente. Nada disso faz sentido mas o que nos leva a acreditar em algo senão a fé? É está fé, ou a falta dela, o grande mote desta temporada.

O roteiro, escrito por Damon LindelofTom Spezialy é extremamente cuidadoso ao se encarregar de fechar pontas, não somente do final do episódio anterior, mas também de outros acontecimentos. Já sabemos de que forma o livro de Kevin chega até a Austrália, assim como o porquê daquelas quatro mulheres terem pego a pessoa errada. Nenhuma ponta tem ficado solta na história que acompanhamos neste presente, em termos de conexões. Falta ligarmos o futuro de Nora mas é provável que isso seja apresentado em breve. Como os caminhos de pai e filho irão se cruzar também ainda é incerto mas em função do que está sendo apresentado, parece que nada aparentemente relevante ficará para trás.

A direção de Mimi Leder, de volta ao comando de mais um episódio desde a estreia, merece uma observação à parte. Com seus closes em um impecável Scott Glenn, podemos ver todo esforço, desorientação e irritação daquele homem. Mais tarde, no diálogo final, sentimos a angústia e o desespero proporcionados pela fantástica atuação de Lindsey Duncan. Tudo propositalmente bem de perto. Além disso, a forma como ela utiliza o a natureza, utilizando bons planos abertos, a luz natural e as cores dos ambientes trazem uma experiência visual impactante. Os movimentos de câmera que captam as danças de Kevin Sr. e em especial, o enquadramento em que ele se deita aos pés da cruz, são deslumbrantes, o que também é fruto de uma boa parceria com o diretor de fotografia John Grillo, usando e abusando das cores quentes aqui.

Para uma temporada que já é acima da média, agora teremos dois universos distintos se conectando. No próximo episódio, Kevin e Nora chegarão à Austrália. Sabemos que Kevin Sr. não quer que o filho vá para lá e temos um grupo de pessoas construindo uma espécie de arca sob o comando de uma mulher quebrada que acredita na imortalidade de Garvey Jr. Já estamos indo para a metade deste ato final, que tem tudo para ficar intenso. Mas não podemos lamentar e sim aproveitar a melhor hora que você pode gastar atualmente na TV em seus domingos.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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