Crítica | The Leftovers 3×02: Don’t Be Ridiculous

Definitivamente The Leftovers é o seriado em que você pode esperar tudo, menos respostas fáceis. Desta forma, Don’t Be Ridiculous colocou mais algumas peças no tabuleiro e pôs no centro do protagonismo uma das melhores personagens criadas nos últimos anos.

Na semana passada, após o prólogo do século XVIII, não tivemos abertura mas o otimismo do tema dessa semana (falo dele mais abaixo) é deixado de lado logo nos primeiros segundos quando o homem do pilar cai, o que descobrimos depois ser em decorrência de um infarto. É como se a série estivesse nos advertindo sobre o tom: não há otimismo por isso aproveite cada momento feliz. Desta forma é um deleite ver Carrie Coon e Regina King, de volta como Erika Murphy, em uma cama elástica numa belíssima cena após um desabafo. Mas isso é The Leftovers e imediatamente vemos Tom (Chris Zylka) interceptando Nora na ponte de Jarden, e encerrando a amarga conversa com um seco “eu nem sabia que você existia”.

De fato a trajetória de Nora Durst tem sido marcada por uma tentativa de controle que invariavelmente se esvai. Ela é somente mais uma dentre tantos personagens que está atingindo o seu limite, sete anos após os desaparecimentos. Enquanto seu lado racional é exposto na maneira como ela lida com as fraudes ou quando ridiculariza o livro de Kevin, sua esperança ou fé em algo vai lhe levar diretamente para a Austrália. Afinal de contas, se pessoas tão inteligentes também vão, porque haveria de ser um mal? Além disso, na pior das hipóteses, um novo caso seria investigado. A única inconsistência para isso seria uma possível falta de jurisdição, uma vez que se trata de outro país. Teremos que ver como isso será explicado. Um salto de fé seria o mais plausível.

Algo que tem sido fantástico em observar na série é a forma como Damon Lindelof e Tom Perrota demonstram controle sobre o que querem contar. Já no início de Don’t Be Ridiculous, a música de abertura (clique aqui e assista) da série Perfect Strangers (Primo Cruzado no Brasil) parece não fazer muito sentido, a não ser que você associe o título ao bordão de um dos personagens do seriado. Mas quando Mark Linn-Baker surge como ele mesmo, sendo o único dos quatro protagonistas do famoso sitcom que não esteve entre os 2%, é tão inusitado quanto original. A dramática cena, aliás, levanta uma série de possibilidades e questões. Trazendo a luz da ciência para o debate, a radiação surge tanto como uma possibilidade de explicar o que aconteceu ou simplesmente de enganar aqueles que ficaram. A fé em algo é explicitamente um tema recorrente da temporada e a julgar pelo que vimos até agora, ela pode ser qualquer coisa que valha a esperança.

Ainda sobre a trajetória de Nora neste episódio, é impressionante como uma única cena tem a capacidade de representar tantas coisas. Quando ela encontra Lily brincando em um parque infantil, sua tentativa em ser reconhecida falha. Ela já não é mais significante para a menina e da mesma forma, parece não existir para os meios eletrônicos. Não se sabe se é por conta da radiação mas isso pode explicar sua aparência no final do episódio anterior. Quem sabe ela não tenha sido exposta e tentado ir para o lado de lá? Já a questão envolvendo Lily foi apresentada de forma satisfatória. Se você esperava algo trágico em relação a isso, talvez essa tenha sido a resolução mais óbvia e inesperada possível. Na semana passada Dean marcou presença e desta vez, Christine (Annie Q.) também voltou diretamente da primeira temporada, com mais um filho no colo e mostra que nada tem ficado para trás neste terceiro ano. Sem trocadilhos.

Desta vez Kevin (Justin Theroux) esteve mais para coadjuvante. Embora tenha tido menos tempo de tela, descobrimos que a sessão de sufocamento é diária. Se ele tenta (e consegue) ir para o hotel novamente, não sabemos ainda. Ausência de segredos e felicidade não é algo realmente que faça parte da vida de Kevin e Nora, a propósito. Em que pese sua proposta de ter um bebê ter sido rechaçada de uma maneira inusitada, tudo gira em torno dele e isso deverá definir o destino de todos. E se você se perguntava como eles iriam parar em outro continente para conectar o fim da série e o flashfoward do episódio anterior, está feito.

As sequências no que imaginamos ser um futuro parece que serão uma marca da temporada. Desta forma, não sabemos se é muito ou pouco tempo depois. Fato é que na Austrália, conhecemos um chefe de policia chamado Kevin que atropela um Canguru e o mata. Caso você seja fã da banda Jamiroquai, vai saber que o som que marca o início da cena onde o atropelamento acontece vem do didjeridoo, um remoto instrumento de sopro oriundo dos aborígenes australianos. Se tiver curiosidade, clique aqui e ouça mais. Outro fator que dá identidade local é o fato de que por lá, esses animais costumam realmente representar risco para motoristas, cruzando a pista.

Provavelmente já sabemos como o livro de Kevin irá chegar por lá, e também, que suas consequências não serão nada agradáveis. A julgar pelo tipo de fé doentia, como a das quatro senhoras (cavaleiras do apocalipse?) que interceptam o Kevin errado. Mas antes, preste atenção para a passagem dita pela senhora Grace Playford (Lindsay Duncan):

“E ele olhou para eles e levantou Sua mão…mas eles não acenaram de volta. Então ele apertou uma pedra contra seu peito e pulou na água.”

Se isso foi escrito por Matt (Christopher Eccleston) ou acrescentado posteriormente por alguém, sabemos que é algo não mostrado. Pelo menos ainda. Porém, não é a primeira coisa que ele faz para dar significado a alguém. Lá no começo do episódio, Matt já havia omitido a questão do homem do pilar, não admitindo sua verdadeira morte para os demais. Em todos os lugares as pessoas estão procurando por algum significado ou messias e nada mais tem muito sentido. Na esperança de encontrá-lo, vale até afogar um homem. Eis o lado perigoso da fé, insensato e desmedido. A cena, aliás, é chocante e acompanhada por uma trilha que remete a algo divino. No fim, estamos diante de outro Kevin, o pai, em uma condição física mais prejudicada. Admito: não há como especular nada sobre isso ainda.

A cada episódio de The Leftovers, fica a certeza de que não sabemos para onde estamos indo mas podemos confiar nas mãos de seus criadores. Em tempos onde todos querem decifrar os mistérios, não ter o controle e manter-se fascinado é justamente nos colocar ao lado de Kevin, Nora e os demais. Nossa jornada termina em um mês e meio mas cada etapa tem sido, até aqui, brilhante.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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