Crítica | 13 Reasons Why – 1º Temporada

Em pleno ano de 2017, enquanto o mundo avança em várias frentes, é muito comum vermos certos tabus sendo mantidos sob o manto da intocabilidade. Temas como bullyng, depressão, homofobia e objetificação feminina são essenciais para a vida moderna e embora a execução não tenha sido a melhor possível, 13 Reasons Why tornou-se uma obra de extrema significância ao tocar nesses assuntos.

Baseado no romance Thirteen Reasons Why (Os Treze Porquês), escrito por Jay Asher e publicado em 2007,  a série original da Netflix foi disponibilizada no final de Março. Com produção executiva de Selena Gomez e direção em dois episódios do também produtor Tom McCarthy (Spotlight – 2015), sua abordagem causou um frisson inicial, sobretudo nas redes sociais, e dividiu opiniões posteriormente conforme a exibição foi acontecendo. E a discussão ainda continua a reverberar devido a delicadeza do tema.

Na história, temos uma protagonista que comete suicídio recentemente. A adolescente Hanna Baker (Katherine Langford) decide enviar gravações em fitas cassetes para as pessoas que foram consideradas por ela os motivos de sua decisão. No episódio piloto, Clay Jensen (Dylan Minnette) recebe um pacote com as fitas e passa a ouvi-las, afim de compreender os motivos e entender as motivações de Hannah.

A série se encarrega de definir bem os dois personagens centrais da trama. Clay é responsável por nos guiar através de uma jornada de descoberta e compreensão dos fatos, que vão sendo revelados aos poucos. Por meio de flashabcks, onde a fotografia se encarrega de nos situar nos pontos distintos da história (as cores são mais saturadas no passado e frias no presente), a carga de suspense é empregada e o desejo de montar o quebra-cabeças torna a narrativa bastante viciante. Ao passo em que as situações são mostradas, é constante notar o recurso da narração de Hannah nos momentos pontuais dos episódios. Sua voz adquire, gradualmente, mais apatia ao longo dos 13 episódios e nesses aspectos a série acerta.

No entanto, embora hajam 13 porquês, a quantidade de episódios e a duração destes pareceram algo demasiado. Por meio de situações dispensáveis e diálogos com pouco acréscimo a trama, muito do que foi mostrado soou mais como arrastado do que lento. Sem dúvida alguma, com o viés dramático e misterioso que a série possui, o ritmo empregado cadenciado é adequado mas estender por tanto tempo a narrativa não contribuiu para a experiência. Que fique claro, isso não é uma exclusividade de 13 Reasons Why. Algumas produções da própria Netflix tem essa característica, como por exemplo o recente Punho de Ferro.

Há uma série de personagens mostrados e núcleos distintos. Brian d’Arcy James e Kate Walsh entregam ótimas interpretações, sobretudo Walsh, uma mãe devastada pela perda da filha e em busca das razões que a motivaram. Os pais de Hannah possuem um arco dramático que transita entre a condução da vida que continua, uma pequena subtrama onde os negócios da família vão mal e o processo que precisam levar a diante. É nesse ambiente que surgem os momentos mais angustiantes pois o suicídio, quando sem motivo aparente, torna-se algo extremamente doloroso para quem fica. 

Já o núcleo adolescente não compromete mas não há nenhuma atuação especialmente destacada, além dos protagonistas. Todos aqueles que fizeram algo de mal para Hannah acabam sendo explorados além do ambiente escolar, uns mais e outros menos. É possível se envolver e entender (não concordando) mais, por exemplo, com Justin (Brandon Flynn) e Alex (Miles Heizer), devido aos seus dramas pessoais serem mais expostos. Já outros personagens acabam ficando de lado, como Marcus (Steven Silver), Zach (Ross Butler) e Courtney (Michele Selene Ang) por exemplo. No caso de Jessica (Alisha Boe), devido aos acontecimentos mostrados no fim da temporada, isso acaba mudando mas não o suficiente.

Um ponto interessante em 13 Reasons Why, e que também torna-se um problema, é estabelecer Tony (Christian Navarro) como um personagem bastante presente. O lado bom, é claro, vem a partir do momento em que ele exerce um papel quase que de mentor, sendo a figura que ajuda Clay durante o processo de descoberta das fitas. O que fica devendo é justamente o lado superficial mostrado, onde pouco se sabe sobre ele além de seu carro e dotes especiais para consertos. Havia uma excelente oportunidade de incluir, na subtrama envolvendo a questão de sua sexualidade, algo mais expressivo, embora a sutileza como o tema foi tratado não tenha sido de todo ruim e por si só já acrescenta valor à obra.

Há alguns problemas muito evidentes no roteiro. A forma como toda a situação é resolvida torna o desfecho inconclusivo e isso pode ser explicado por uma segunda temporada, o que não parece ser uma boa decisão. Já o derradeiro evento que envolve o estupro cometido por Bryce Walker (Justin Prentice) segue uma conveniência absurda onde, motivada por uma tristeza profunda, a protagonista vai direto para a cova dos leões. Não desceu. Além disso, a demora em ouvir as fitas, por mais que tenhamos entendido ser um recurso para contar a história, não era necessária. 

Quanto as cenas mais impactantes, que envolvem o estupro e o suicídio, causam surpresa e espanto. Todas são extremamente cruas e desconfortáveis. Não acredito que ninguém tenha se sentido a vontade assistindo. Se a intenção é chocar quem agride, talvez esse objetivo tenha sido alcançado. Por outro lado, elas podem ter sido dolorosas para quem já tenha passado por isso. É um trabalho de direção que é eficiente e choca em demasia. O fato de ser perturbador pode até desencorajar mas em alguns casos, é recomendável até evitar.

Mas afinal: Qual a relevância de 13 Reasons Why?

Passados a limpo aspectos como roteiro e atuações, 13 Reasons Why é um típico caso onde é preciso ter um olhar diferenciado. Não somente como obra de entretenimento mas como produto que pretende discutir temas que tem como consequências um suicídio, a série não explora em sua totalidade todos esses elementos.

Muito do que acontece com Hannah, Jessica e outras meninas gira em torno de uma cultura machista, enraizada em muitos rapazes ainda novos. Na série até há uma certa deficiência em mostrar personagens que sejam diferentes ou estejam no meio termo. Ou você é Clay, ou então Bryce e sua turma. No entanto, essas atitudes que visam objetificar as garotas e as sexualizam são importantes ao serem mostradas, quando focadas na baixa estima que pode provocar problemas emocionais e sociais.

Já como uma obra que pretenda conscientizar os jovens sobre os perigos do bullyng e sua importância para evitar o suicídio, a produção não atinge totalmente seu objetivo. Explico. Os treze episódios, em dado momento, passam a soar mais como um vingativo ato de conscientização do que apenas a exposição dos motivos de Hannah. Antes mesmo de Clay Jensen começar a atirar pedras em janelas e ameaçar seus colegas, a narrativa já havia assumido esse tom. Isso, para uma pessoa que já não enxerga motivos para continuar, pode se tornar um inspiração para uma grandiosa saída por cima. Afinal, justiça não é vingança. Mesmo que isso fosse dito pelo Sr. Porter (Derek Luke), ainda é uma verdade.

É importante destacar que Hannah não é heroína, nem vilã. Apenas uma jovem que não soube lidar com as pressões sociais e decidiu tirar a vida pelos motivos que julgou adequados. Muitos deles poderiam ter sido evitados se houvesse mais empatia e um comportamento de maior respeito. Mas ao devastar igualmente a vida daqueles que foram seus “algozes”, o ato de justiça passa a ser também algo condenável. Talvez seja por isso que a maioria deles não mudam e apenas se protegem, com exceção de Tyler (Devin Druid) e Alex, que atingem um nível diferente de desenvolvimento ao fim da jornada.

Por fim, o fator psicológico, que se tornou algo amplamente discutido e alvo de análises subjetivas, fica apenas na sugestão. Não é possível afirmar se Hannah tem depressão. Mas essa não é a única forma de ser afetado por um mal tratamento na infância ou adolescência. Fobia social, ataques de pânico, ansiedade, bipolaridade e transtornos psicóticos são apenas alguns dos muitos distúrbios mentais que podem afetar pessoas em diversas fases da vida. Mais do que sugerir, a série poderia mostrar, não por meio de diálogos expositivos mas através de situações algo que pudesse remeter à isso. A tristeza não representa um estado depressivo, assim com alguém com depressão pode não ser identificado. Mas a série, como obra, precisa dar base para interpretações e não torná-las uma possibilidade.

Colocando todos os aspectos na balança, 13 Reasons Why funciona como produto, trás a tona um tema relevante mas parece ter uma pretensão maior do que aquilo que realmente é.  Ao apontar mais culpados do que expor soluções e propor mudanças significativas em seus personagens, há um certo desequilíbrio. Mas sim, nós precisamos falar sobre essas coisas e a importância da discussão talvez tenha sido o que de melhor aconteceu. Que isso possa inspirar novas abordagens.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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