Crítica | The Leftovers 3×01: The Book of Kevin

Se ao término do episódio de estreia da terceira temporada de The Leftovers você sentiu-se tão perdido quanto extasiado, devo dizer que estamos juntos nessa. Em The Book of Kevin, o começo do fim misturou passado, presente e futuro, em um episódio que manteve o nível de excelência alcançado na segunda temporada.

A julgar pelos cartazes de divulgação e pelo forte indício contido no episódio, a figura de Kevin Garvey (Justin Theroux) continua sendo trabalhada para algo grandioso e também sobrenatural. O homem que volta dos mortos foi destaque com todos os olhos se voltando para ele com um viés messiânico, quem diria, em pleno Domingo de Páscoa (data da estreia), dia em que os cristãos celebram a ressurreição de Cristo. Passagens bíblicas, batismo e até o evangelho de Kevin tornaram o apelo para a religião um tema que estará presente nesta temporada.

No entanto, o foco em The Leftovers continua sendo aqueles que ficaram. Os efeitos do 14 de Outubro ainda são sentidos, quase 7 anos após o fatídico evento. Sim, o seriado avançou 3 anos sua história e situou os personagens que vimos na segunda temporada em novos contextos de vida e emocionais. No entanto, a fragilidade ainda é evidente. Nada será como antes e sempre que houver um recomeço, haverão novas quedas e devastadoras lembranças.

Mais uma vez voltamos no tempo para contemplar uma grandiosa cena de abertura. Na segunda temporada, visitamos uma época pré-histórica. Desta vez, levando em consideração que o que é mostrado remete ao Millerismo, estamos no século XVIII. Tal movimento alcançou proporções mundiais na época. Contextualizando, William Miller era um pregador que acreditava que o arrebatamento aconteceria no ano de 1844. No entanto, data após data, foi perdendo credibilidade até que em 22 de Outubro daquele houve o Grande Desapontamento.

O que a série mostrou neste prólogo eram pessoas de branco que subiam em seus telhados aguardando a volta de Cristo, que nunca ocorreu. Ajudando a criar a atmosfera incrível que vimos, a canção I Wish We’d All Been Ready (Eu queria que todos estivéssemos prontos) deu um significado muito especial a sequência:

Não há tempo para mudar de ideia
O Filho já veio e você foi deixado para trás
Um homem e sua mulher adormecidos na cama
Ela ouve um barulho, e quando vira a cabeça, ele se foi
Eu queria que todos estivéssemos prontos
Dois homens andando em uma colina, um desaparece
E um é deixado ali
Eu queria que todos estivéssemos prontos

Além daqueles que ficaram, lidando com a partida repentina, desta vez também podemos contemplar aqueles que quiseram partir e Damon Lindelof vem conduzindo isso de maneira interessante. Na primeira temporada, muito se discutiu sobre o merecimento do arrebatamento por parte de algumas pessoas e quantas pessoas lamentaram ter ficado. Ainda não fica claro, aliás, se isso é o que aconteceu de fato. Porém, a partida cada vez mais se torna algo não atrelado ao merecimento, o que devasta inclusive nossa mulher do telhado. Porém, não há subsídios para teorizar com isso; é fascinante como essa questão vem sendo trabalhada, o que diante da aleatoriedade aparente, ainda gera dúvidas sem fim.

A mulher, interpretada por Alexandra Schepisi, em um trabalho de montagem muito bem executado nos leva diretamente aos Remanescentes Culpados. Após uma season finale intensa, uma das grandes surpresas é saber, logo de cara, que o grupo liderado por Meg (Liv Tyler) literalmente explodiu. Mais uma perda repentina e surpreendente para a audiência. E essa não é somente o único vazio deixado. Alguma coisa aconteceu com Lilly, filha adotada por Kevin e Nora (Carrie Coon), mas nada é mencionado ainda. Agora universitária, Jill (Margaret Qualley) tem pouca participação ao contrário de Tom (Chris Zylka), com uma ótima presença agora como policial em Jarden.

Infelizmente Regina King esteve ausente , agora que Erika e John (Kevin Carrollnão estão mais juntos. O ex-bombeiro, agora romanticamente envolvido com Laurie (Amy Brenneman), engana pessoas com ela para dar-lhes esperança. Matt (Christopher Ecclestonagora é um pregador da igreja local com o auxílio de Michael (Jovan Adepoe está prestes a perder a plenamente curada Mary (Janel Moloneye seu filho Noah. Todas essas informações poderiam dar um nó na cabeça da audiência mas são dadas de forma bem natural e fluida.

Em quase uma hora de episódio, não houve abertura e a transição entre as cenas, que de tão sutis, não fizeram os olhos desgrudarem da tela por um minuto. É impressionante a forma como nossas expectativas são subvertidas quando saímos do século XVIII e entramos nos últimos minutos de vida de Meg e Evie. Da mesma forma, sempre com o branco sendo utilizado, saímos da visão de Kevin diretamente para um enigmático futuro onde vemos uma Nora envelhecida. No fim, estamos diante de uma linha temporal onde certamente haverá dolorosas consequências sobre o que provavelmente veremos durante esta temporada. Mas os 13 dias que deveriam marcar o fim do mundo parecem reservar alguma decepção iminente. Talvez um novo desapontamento.

O trabalho de direção de Mimi Leder também é de excelência. Tal fator não deve ser desprezado em uma série com um viés tão cinematográfico. Além disso, a diretora estará no comando do terceiro, além do último episódio da série, o que é animador. Eu poderia citar os lindos planos abertos, o tenso tiroteio causado por Dean ou até mesmo a cena de abertura, já falada, que tornou-se uma das mais belas em todo seriado. Porém, o elenco tem mostrado uma química cada vez maior, sobretudo Justin Theroux e Carrie Coon. Há uma comunicação no olhar e uma tensão que sempre se faz presente, como algo que pode ruir a qualquer instante. 

Aonde The Leftovers irá nos levar através de seu desfecho é uma ingógnita. Garveys, Murphys e Jamisons, quando juntos, já provaram ser tão instáveis quanto o resto da sociedade retratada. Em mais 7 episódios saberemos o que Lindelof tem a nos dizer com essa jornada, mas estamos diante de uma narrativa em que a viagem já se tornou mais importante que o destino final.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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