Crítica | Better Call Saul 3×01: Mabel

Indo direto aos eventos do final da segunda temporada, Better Call Saul retornou com um bom e contido episódio, com objetivo situar o espectador. Em Mabel, Jimmy continua sua jornada que irá torná-lo Saul Goodman. Enquanto isso, Mike caminha para o inevitável (e aguardado) encontro com Gus Fring.

Dirigido por Vince Gilligan, criador da série e também responsável pelo roteiro, seu toque pessoal é percebido em vários momentos. O enquadramento na cena onde Kim e Jimmy conversam no escritório é inteligente e mostra o distanciamento que está prestes a se concretizar, com ele na penumbra e ela em um ângulo levemente iluminado. Em outros momentos, o contra-plongée, os planos abertos e a fotografia em time lapse também estiveram presentes. Aquela imagens aceleradas sempre conferem um ar saudosista em relação a Breaking Bad, aliás. Além disso, a forma como a narrativa é conduzida continua sendo lenta mas os fatos vão se desenrolando de tal maneira que não há desinteresse algum pelo que acontece em tela.

Porém, Better Call Saul não vive somente de uma estética pregressa. Os eventos pós-Breaking Bad, que nos colocam a par da vida de Saul Goodman no futuro, são fundamentais para entendermos ainda mais como funciona a cabeça de Jimmy McGill. A longa abertura, tradicionalmente em preto e branco, nos mostra “Gene – o gerente” trabalhando no Cinnabon, como vimos nas duas primeiras temporadas. Desta vez ele se descontrola num primeiro momento para depois surtar. No passado (que é nossa linha do tempo atual na série), a sua relação com Kim e Chuck está prestes a provocar um verdadeiro turbilhão emocional em sua cabeça. A visita do capitão da Força Aérea que ele enganou na segunda temporada já mostra o quanto ele está instável e ao mesmo tempo perspicaz.

Nos dois primeiros anos da série, em seus últimos episódios, os grandes eventos ocorridos no final estiveram associados a figura de Chuck McGill. Temos aqui a construção de um antagonista frio e calculista, disposto a acabar com o irmão. Após a reviravolta no caso Mesa Verde, será difícil ver Jimmy sair dessa sem ser devastado por perdas. É isso justamente o que Chuck pretende, como deixa claro em sua conversa com Howard e quando ameaça Ernesto em uma cena extremamente tensa. A confissão não será em vão.

Em paralelo, Mike Ehrmantraut segue sua jornada para descobrir quem o impediu de matar Hector Salamanca. É necessário dizer que sua trama vem sendo – mesmo que reconhecidamente um bom fan service – uma das melhores coisas que você pode acompanhar em Better Call Saul. O jeito metódico de agir, a forma meticulosa e o cuidado de suas ações são mostrados de forma quase que cirúrgica. Mike pouco tem a dizer e quase tudo que acontece é mostrado. Outro grande mérito de Gilligan aqui é não contar a história por meio de diálogos. Não subestimar o público é algo que definitivamente torna uma obra mais admirável e envolvente. É o que temos aqui, felizmente.

Outra personagem que deverá ainda ser explorada com mais profundidade é Kim Wexler. Certamente o que aconteceu com o Mesa Verde a deixou com um senso de responsabilidade mais aguçado. Aqui temos mais um momento tão simples quanto genial. Quando a insistência em mostrar sua insegurança em relação aos detalhes no contrato é mostrada, vemos o quanto isso é importante, a partir do momento em que já se estabeleceu o que um erro de digitação pode provocar. Mas Kim também deve ter uma culpa explorada, pois sendo conivente com o comportamento de Jimmy, certamente seu senso moral ainda será mais abalado. A conferir.

Em linhas gerais, este retorno trouxe um episódio eficiente e caminha para aquela que deve ser sua melhor temporada até agora. Em um mês com retornos tão aguardados como Fargo e The Letfovers, Better Call Saul abre o caminho com eficiência e mantêm a qualidade que faz com que a série vá além de um simples spin-off. Temos aqui um seriado que por si só, já possui sua própria relevância.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...