Crítica | A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

A interessante visão de futuro que muitos cineastas conseguem mostrar é um dos grandes elementos que compõem um bom filme de ficção científica. Em A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell, uma deslumbrante cinematografia é empregada, se sobrepondo até mesmo a própria trama.

Baseada na aclamada animação “Ghost In The Shell” de 1995, o filme conta a história de Major (Scarlet Johansson), uma máquina de combate, ciborgue-humana-híbrido, única de sua espécie, que lidera a unidade de inteligência de elite Sessão 9. Dedicados a capturar os criminosos mais perigosos e extremistas, o departamento é confrontado com um inimigo que tem como único objetivo acabar com os avanços tecnológicos da Hanka Robotic.

A direção do filme é de Rupert Sanders, que surpreende aqui, dado seu histórico que tinha como principal trabalho o apenas razoável A Branca de Neve e o Caçador (2012).  De fato, a cinematografia deste filme é genuinamente magnífica. O mesmo tom presente na animação pode ser notado, pela representação de uma Tókio ciberpunk (e diversa) como uma grande cidade que é altamente tecnológica e ao mesmo tempo suja. É possível perceber um ar sombrio e decadente, em meio as gigantescas propagandas que remetem diretamente ao clássico Blade Runner (1982).

Cada personagem possui uma identidade bem definida, o figurino convence e os androides e híbridos contam com uma boa dose de efeitos práticos, o que dá textura e menos artificialidade. A direção de arte acertou em cheio na composição visual, aliado a uma música eletrônica com um ar oitentista, que se não é esplendida cumpre bem o seu papel, sobretudo nos momentos de ação. Há um respeito grande pelo anime e algumas referências são bem explícitas.

Dito isto, mesmo com toda a discussão filosófica através da alma e o que é humano, sua complexidade não é explorada de maneira mais aprofundada. Ao invés disso, o roteiro explora mais o lado ético da robótica em seu modelo híbrido, mas nunca de forma mais contundente, com alguns diálogos rasos e pouco desenvolvimento. Algumas coisas poderiam ser mostradas de uma forma mais sútil e não tão explicadas através de diálogos expositivos.

Muitos personagens possuem um viés unilateral, faltando camadas a acrescentar. Ninguém é controverso ou possui um caráter discutível. Existem os bons e os maus e a balança não equilibra bem esses fatores. No entanto, há sim uma história de origem sendo contada e neste ponto, existe uma certa eficiência em mostrar o arco narrativo da protagonista, que consegue ser envolvente em certos momentos. Mas durante sua jornada, o público não é desafiado para valer.

Já ambientada a temas que envolvem ficção científica e ação, Scarlet Johansson convence como a Major. Suas cenas de luta são bem executadas e aliás, este é um dos méritos do filme. A ação é bem coreografada e o filme não te joga para fora, exceto por um ou dois momentos onde alguns movimentos mais improváveis, com um olhar mais aguçado, tornam-se artificiais. Felizmente, aquela cena de salto que você viu no trailer é isso tudo mesmo. Na tela grande, é um deleite visual. Como heroína, Scarlet é presença pura e sabe como poucas atrizes cativar o público, com determinação e atitude.

Quem também se sai bem em seu papel é Pilou Asbæk, como Batou. Sua caracterização em relação ao anime é convincente e fisicamente impõe peso ao personagem. A ator não lembra em nada seu Euron Greyjoy de Game of Thrones ou até mesmo o Poncio Pilatos do remake de Ben-Hur (2016)Takeshi Kitano também desempenha bom papel como o astuto Aramaki, enquanto outros deixam a desejar como vilões genéricos e cientistas. Já Kuze, ao longo do filme, por pouco não se torna o personagem mais interessante do longa, interpretado de forma eficiente por Michael Pitt.

Outro ponto crucial a ser levantado é o fato do filme beber literalmente na fonte da cultura japonesa, seja por meio de elementos visuais ou culturais. Entretanto, não há hesitação quanto ao fato dos principais personagens não serem orientais ou falarem apenas inglês. Mesmo com uma diversidade mostrada, mas que fica apenas no aspecto visual, a tão falada ocidentalização não se restringiu apenas a escalação de uma protagonista não oriental.

Somando todos os prós é contras, A Vigilante do Amanhã: Ghost In The Shell fica no meio termo. Não chega a ser uma experiência cinematográfica inválida, mesmo com um roteiro não tão caprichado quanto o seu deslumbrante visual. Com uma boa dose de tolerância você poderá apreciar o filme, com uma heroína hipnotizante e seu interessante vislumbre futurista.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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