Crítica | Fragmentado

A mente humana é sem dúvida um dos mais complexos conceitos associados a nossa forma de pensar e manifestar nossa consciência. Seu estudo, porém, não é objeto desta crítica e muito menos o objetivo em Fragmentado. Ao invés disso, você irá assistir a um suspense instigante e uma atuação absolutamente acima da média.

A história do filme começa quando três meninas, Casey (Anya Taylor-Joy), Claire (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula), são sequestradas por um homem (James McAvoy) com 23 personalidades diferentes. No cativeiro, elas precisam descobrir quais dessas personalidades poderão ajudá-las a escapar e aquelas que tentarão detê-las.

O diretor é M. Night Shyamalan, cineasta que desde o estrondoso sucesso obtido em O Sexto Sentido (1999), passou quase duas décadas colecionando altos e baixos. Sempre em busca de uma identidade própria mas com desejo de repetir a fórmula do sucesso, vieram filmes como Corpo Fechado (2000), Sinais (2002) e A Vila (2004). Desde então, a carreira de Shyamalan, que chegou a ser comparado com ninguém menos que Alfred Hitchcock, entrou em absoluto declínio, colecionando longas de gosto bem duvidoso como A Dama na Água (2006), Fim dos Tempos (2008) e Depois da Terra (2013). 

Em 2015, A Visita insinuou uma possibilidade de retomada de desenvolvimento de seu potencial, num suspense em que o diretor fez uso de uma estética diferente mas que resultou, enfim, em um bom filme. A prova de sua capacidade vem, portanto, em Fragmentado. Não é um filme que pretenda oferecer suas habituais (ou aguardadas) reviravoltas, para que possamos de antemão ficar atentos e colher pistas a todo instante. Ao invés disso, o longa possui uma abordagem focada no protagonista, suas múltiplas personalidades e como o problema apresentado no início terá resolução.

A tensão já se estabelece logo nos primeiros minutos, com uma desconcertante cena de rapto e não demora muito para estarmos inseridos no mundo de Dennis, Hedwig, Barry e Patricia, algumas das personalidades que habitam o corpo e a mente de Kevin. No entanto, não há espaço para grandes sustos ou medo. O clima e a perspectiva sob distintos olhares são o ponto chave para o desenvolvimento do filme. O primeiro e o segundo ato são bastante eficientes nesse sentido, e mesmo quando o filme desacelera, continua se movendo e apresenta novas nuances, com uma trilha constantemente sombria.

Como é um filme de rapto, necessariamente há o uso frequente de ambientes fechados e a direção trabalha isso de maneira muito eficiente. A câmera se move de forma lenta, muitas vezes para acompanhar os personagens. É comum ver planos  fechados no rosto dos personagens e é como se estivéssemos cara a cara com eles em várias ocasiões.

A atuação de James McAvoy, ainda que este filme fosse ruim, por si só valeria as quase duas horas de sua exibição. É espetacular observar todas as mudanças de expressão, trejeitos e os mínimos ajustes faciais que são feitos de forma impecável pelo ator, que desempenha aqui sua maior interpretação. Há momentos em que a mudança é feita entre o intervalo entre cenas. Em outros, esse espaço de tempo se dá durante uma fala e é incrível como ele convence. Já o personagem não pretende ser um estudo do transtorno dissociativo de identidade, servindo como base para a narrativa e não o contrário.

Outras interpretações possuem destaque aqui, com interessantes personagens. A expressiva Anya Taylor-Joy, que já havia entregue uma boa atuação em A Bruxa (2015), dá vida a introspectiva Casey, uma garota que possui um passado que vai ser explorado durante o longa e que se reflete em seu cativeiro forçado. A personagem torna-se interessante também pelo fato de não ser uma vítima convencional. Ela entende o problema e tenta relacionar-se com as identidades em busca de uma solução, com inteligência e boa percepção.

Sob a ótica da análise, também temos uma atuação bem segura de Betty Buckley, como a Dra. Karen Fletcher. Sua visão para o distúrbio oferece um ponto de vista interessante. Ao invés de uma doença, sua abordagem prevê o desenvolvimento de uma habilidade ímpar, com implicações que podem sugerir a influência da mente sobre o que acontece com o corpo das identidades. As conversas durante as análises são carregadas de tensão, onde não é possível prever o que acontecerá. No entanto, a compreensiva interpretação de Fletcher sobre o distúrbio a torna uma acolhedora zona de conforto para Kevin.

Em alguns momentos, Shyamalan inegavelmente perde a mão, oferecendo alguns caminhos questionáveis no roteiro escrito por ele. Isso se reflete bastante no terceiro ato, mas também implica no desenvolvimento de personagens como a Dra. Fletcher e as outras meninas raptadas. A conclusão também não poderá não agradar alguns, embora seja coerente com aquilo que se desenvolve durante o longa. Porém, o grande mérito dessa narrativa consiste em, a todo instante, envolver o público em um constante tom ameaçador. Saber se as garotas conseguirão fugir, como cada personalidade irá se comportar e de que forma isso poderá se desenvolver conferem uma fluidez muito boa ao filme.

Em linhas gerais, Fragmentado é uma experiência que nos conduz através de diversos pontos de vista, sobre uma mente incapaz de associar uma identidade própria e as consequências disso. Como obra não é perfeita, mas enquanto entretenimento, vai agradar muito mais do que decepcionar. Méritos para Shyamalan e sobretudo, para a espetacular atuação de James McAvoy . O que ele faz nesse filme precisa ser visto.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...