Crítica | Logan

Em determinado momento de Logan, há uma referência escancarada ao filme Os Brutos Também Amam (1953). Em uma época onde o cinema vive aludindo outras obras para gabar-se de si mesmo, fazê-lo de forma tão aberta e marcante define, não somente o protagonista em si, mas também o tom diferenciado deste novo filme.

O filme se passa no futuro, em 2029, mostrando um cansado Logan (Hugh Jackman) que cuida do debilitado Professor X (Patrick Stewart) em dificuldades físicas e mentais, escondido em uma cidade na fronteira mexicana. Sua tentativa de viver uma vida comum (e esquecer o passado) se esvai quando a jovem mutante Laura (Dafne Keen) chega, perseguida por forças obscuras.

A direção é de James Mangold, que já havia dirigido o bom Wolverine Imortal (2013). Entretanto, aqui o filme é elevado a um status muito superior, o qual poucas obras do gênero se encontram. O drama é intenso, a ação torna-se visceral e há um humor dosado, porém eficiente. Além disso, as interpretações são avassaladoras e o bom trabalho do diretor se estende para as sequências de perseguição, lutas e momentos mais intimistas, onde as expressões e os olhares tem muito a dizer.

O roteiro não oferece nada de extraordinário em termos de estrutura. Há uma ameaça inicial que provoca uma fuga, para num segundo instante desenvolver relações e a aceitação de um propósito, ou não, no terceiro ato. Há um que de road movie, um pouco da jornada do herói, a dinâmica de parceira entre duplas, referências ao western e o principal: pé no chão. É um filme sujo, áspero e que nos leva para dentro daquele universo de forma plausível, onde quase nos esquecemos por instantes que existem mutantes ali inseridos. É ai que reside o grande mérito da história em si, fazendo com que haja um senso de humanidade muito presente no filme.

Não é de se estranhar, afinal, que os maiores sucessos da Fox tem duas importantes semelhanças: a falta de compromisso com um universo compartilhado e uma liberdade associada a classificação indicativa. A violência gráfica vista em Deadpool e a linguagem com palavrões elevaram o nível de diversão e realidade ao gênero. Em Logan isso se repete, de uma maneira mais condizente com os personagens e que funciona perfeitamente, sem muita gratuidade. O fato de não necessitar de maiores explicações ou deixar um gancho para um próximo filme possibilitou o desenvolvimento de uma excelente história. Já a violência entregou o Wolverine que era aguardado desde o começo do século XXI, quando um desconhecido Hugh Jackman estreava em X-Men (2000). Após 17 anos, enfim temos uma representação fiel da personalidade do mutante carcaju.

Em termos de atuação, Hugh Jackman não faz somente o seu melhor filme como Wolverine. Ele dá a sua melhor interpretação até hoje, com uma notável entrega e muitos momentos dramáticos. É um drama que abala o personagem de forma física e psicológica, fazendo com que ele se deteriore de dentro para fora. Há umas três cenas no filme, com personagens distintos, que são intensas e de arrepiar. O olhar também diz muito sobre o cansaço e a solidão. O ator, que após 17 anos e 10 aparições como o querido mutante, se despede do papel em grande estilo, deixando não apenas um legado mas também um certo lamento, por uma possibilidade tão tardia de brilhar de forma grandiosa.

Todo elenco de apoio é eficiente e outro mérito da direção é extrair da jovem Dafne Keen uma fúria graciosa, em momentos absolutamente fantásticos quando interage com Logan.  A dinâmica é bem mais interessante quando eles precisam se aceitar (e se entender), em cenas que rendem alguns alívios cômicos pontuais e divertidos. Há de se exaltar também uma grande atuação de Patrick Stewart. Ao contrário do sábio professor que antes era o ponto de equilíbrio e de controle emocional, aqui ele mal pode distinguir o que é real e é incapaz de proteger os outros e a si mesmo. A relação entre ele e Wolverine é intensa, ríspida e ao mesmo tempo muito bonita. É um cuidado de um filho para com o pai, e há uma brincadeira interessante sobre isso no longa.

Outro ponto onde Logan se diferencia é a ameaça, ou, o vilão. Mas não diria que aqui há uma figura vilanesca central. Não há também naves, feixes de luz ou universos paralelos. A organização sombria que possui interesses nos poucos mutantes que ainda existem, é muito bem representada na figura de Donald Pierce. Não imaginava que Boyd Hollbrook, o agente Murphy da série Narcos,  pudesse fazer um vilão de forma tão convincente. Todo seu arco narrativo obedece suas limitações mas não deixa de oferecer um tom ameaçador.

Outro ponto a ser enaltecido é o apuro estético e os aspectos técnicos da produção. A fotografia do filme consegue ser bela e suja ao mesmo tempo, sempre servindo à narrativa. O trabalho realizado com o som também é muito bom. Cada golpe, explosão e garras que rasgam corpos são sentidas e impactantes. Outro elemento muito imersivo é a trilha sonora, que substitui o tom episódico dos habituais filmes por algo mais intimista e melancólico. O trabalho de edição também não deixa nenhuma sequência confusa e dá bastante coesão ao filme.

Com uma demanda de filmes de heróis que cada vez ganham mais grandiosidade, o enredo do filme suplanta muito do que este gênero saturado tem a oferecer. O fato de que os heróis também envelhecem e sofrem com essas consequências é algo ainda pouco explorado e aqui está escancarado. Ver um Wolverine que mal pode se defender e utilizar o fator de cura é incômodo e sofrido. Já a ironia por ver personagens poderosos como o Professor X, que outrora protegiam e agora sem controle, ameaçam, é de uma humanização também poucas vezes vista no gênero. O que acontece quando alguém com super poderes envelhece não é algo comum de ser mostrado. De fato, este é um filme de consequências trágicas e que são sentidas, com propósitos e motivações compreensíveis.

Ainda que não seja a maior obra-prima entre os mais de 50 filmes de super-heróis já feitos até hoje, Logan poderá compor listas dos melhores com obras como Watchmen, O Cavaleiro das Trevas, Capitão América: O Soldado Invernal e Homem-Aranha 2, entre outros. Diante de tantos elementos a serem apreciados, é difícil não render-se a esta conclusão. Antes de tudo, é uma obra apreciável e que chega a um patamar que transcende o gênero, onde sem exageros, sabe dosar todos os seus componentes para compor um resultado surpreendente.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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