Crítica | A Chegada

O fascinante gênero da ficção científica pode ser uma faca de dois gumes. Se por um lado representar viagens espaciais, alienígenas e tecnologias avançadas podem soar artificiais, por outro é uma interessante maneira de representar aquilo que pensamos ou imaginamos ser uma realidade futura. Muitos filmes memoráveis surgiram desse gênero. Em A chegada, o desconhecido é apresentado de forma totalmente diferente do usual, com muita sensibilidade em uma abordagem totalmente atípica.

Curiosamente a premissa do filme é simples e a princípio pode parecer algo diferente do que realmente é. Seres de outro planeta chegam à Terra em doze pontos diferentes do mundo, permanecendo em suas naves. A Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. Com a ajuda do físico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner), não demora muito para que ela esteja no centro da ação, em meio as tentativas de saber se a visita é uma ameça ou não.

A comunicação é de suma importância em A Chegada. Seja para saber a simples diferença entre arma e ferramenta, ou para que trabalhando em conjunto as potências possam cooperar em prol de um objetivo. Desvendar o que está por trás da visita dos alienígenas é de suma importância mas para isso, há de se respeitar um importante  elemento que nos leva a outro imediatamente. A paciência com que os seres de outro planeta lidam com a visita não é igual a dos terráqueos. Enquanto a tensão de um iminente ataque e a beira do caos rondam o nosso mundo, a percepção do tempo parece diferente para as criaturas e essa é justamente a chave de tudo na trama.

O diretor do longa é Dennis Villeneuve, nome em ascensão no cinema mundial. É inegável reconhecer a quantidade notável de bons trabalhos realizados pelo canadense. Com uma lista que inclui Incêndios (2010), O Homem Duplicado (2013), Os Suspeitos (2013) e Sicário (2015), sua direção mantém características marcantes como o suspense através de mistérios envolventes, sempre nos conduzindo a finais inusitados. Neste filme não há pressa na condução da história e alguns planos são bem longos e facilitam o clima proposto. Além disso, há um atenção especial para sua protagonista, outra marca que o diretor costuma imprimir em seus trabalhos.

Quem assina o roteiro é Eric Heisserer, baseando-se em no conto de Ted Chiang “Story of Your Life”. Um dos grandes motivos pelo qual a imersão narrativa é rápida se deve pelo fato de que as coisas não demoram a acontecer, mas sem serem apressadas em sua execução. Desta forma, a invasão propriamente dita passa a servir como pano de fundo, através de diálogos e situações voltadas para o existencialismo, o tempo e a forma como lidamos com isso. Há sim o desenvolvimento de um mistério que envolve a intenção dos alienígenas, a pressão dos militares e como as potências mundiais irão lidar com isso. No entanto, o que se propõe entre camadas é nos conduzir ao processo de mudança junto com Louise, na forma como vemos o tempo através de nossa comunicação e o legado que será deixado para o futuro.

É muito interessante a abordagem que Villeneuve e Heisserer utilizam para retratar os alienígenas. As naves em formatos de conchas fogem do padrão convencional. Elas são praticamente uma espécie de veículo mais moderno que se por um lado tem uma estética mais clean, seja por fora e pelo lado de dentro, tem em seus tripulantes criaturas completamente estranhas, em sua forma e meio de comunicação. É curioso constatar que em A Chegada, muitos contrastes são apresentados e em vários momentos estamos diante de algo que é diferente do que realmente é. A fotografia do filme também reforça o clima denso, com uma paleta que só abandona sua frieza nos momentos em que Louise tem suas calorosas memórias. Outros aspectos técnicos são fundamentais para o exito do filme. Seja pela montagem, que contribuiu de forma substancial para o resultado final, ou pela trilha, quase que intrínseca a trama.

A grande atuação aqui é de Amy Adams. A atriz consegue dar o tom exato para Louise Banks, com um conflito interno que é constante. Além disso, muito do que sentimos e percebido vem a partir de suas expressões e da forma como a personagem encara o maior desafio de sua vida. A experiência se torna ainda mais enriquecedora ao assistir o filme mais de uma vez, montando a narrativa que não é linear. Porém, se há um grande destaque para a linguista, isso acaba ofuscando um pouco Jeremy Renner, que tem apenas uma atuação razoável. Já o elenco de apoio conta com boa porém subaproveitada atuação de Forest Whitaker, no papel do coronel Weber, chefe no comando da missão.

Para muitos, A Chegada pode soar inconclusivo em seu final. Mas não é um filme que deixa o espectador no vazio. Com um roteiro, montagem e direção que desafiam o espectador mas sem subestimá-los, as decisões narrativas alteram a nossa percepção por justamente fugir do convencional, propondo um final aberto a inúmeras discussões. Com oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, roteiro adaptado e direção, é um dos melhores filmes feitos em seu gênero nos últimos tempos.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...