Crítica | A Qualquer Custo

Se tem algo que funciona no cinema quando bem executado são as duplas. Elas nem sempre precisam ser compostas pelos heróis da história e em alguns casos são os próprios bandidos. Em A Qualquer Custo (Hell or High Water) os dois elementos se combinam, movem a trama e constroem uma história intensa e visceral.

Com quatro indicações ao Oscar 2017 (melhor filme, ator coadjuvante, roteiro original e edição), o filme segue dois irmãos texanos. O pai divorciado Toby (Chris Pine) e o ex-presidiário Tanner (Ben Foster) passam a roubar agências do Texas Midland Bank, banco que ameaça a falência das terras da família. Os assaltos não fazem necessariamente parte de um plano de enriquecimento e possuem todo um contexto de vingança e crítica ao sistema bancário, que vai se revelando de forma gradativa ao longo da narrativa.

Do outro lado da moeda estão Marcus (Jeff Bridges), um Texas Ranger as vésperas de sua aposentadoria e seu parceiro comanche Alberto (Gil Birmingham). A partir do momento em que eles vão atrás dos irmãos e iniciam uma investigação, duas dinâmicas muito interessantes passam a se alternar em tela: os bandidos (ou o irmão ladrão e o sem jeito) e os policiais, sedentos pela captura.

Logo na cena de abertura o espectador já é colocado no centro da ação, através de movimentos de câmera que nos levam de um plano aberto até os protagonistas. Nos primeiros dez minutos já se sabe algo sobre os irmãos e os policiais, o que confere um ritmo constante ao filme. Não há ação na maior parte do tempo, mas sempre acontece algo que move a trama para frente. Além disso, os diálogos são bem trabalhados e a dosagem nos tempos de tela é fruto de um trabalho bem executado de montagem. No entanto, quando as coisas aceleram, se intensificam de tal forma que as consequências são imediatamente sentidas, sempre levando a algo mais adiante.

Como é peculiar a todos os seus personagens, Ben Foster vive um cara surtado, pronto para qualquer investida. Pavio curto, encrenqueiro e alucinado, ele é o oposto do irmão, um sujeito mais ponderado e desajeitado quando o assunto é assalto e cometer crimes. A dinâmica entre os dois é muito boa, embora os diálogos sejam bem secos e objetivos, o que de certa forma é coerente com suas características. Apesar de tudo existe o afeto e a relação, mesmo que de uma forma peculiar é cativante. Chris Pine está ótimo no papel, com uma atuação diferente das que estamos acostumados a ver em tela.

O veterano Jeff Bridges também brilha, embora os trejeitos do personagem lembrem bastante Rooster Cogburn, de Bravura Indômita, filme que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator em 2011. O Texas Ranger tem em mãos seu último caso e possui um método de trabalho bem característico. Um fato curioso é que durante as filmagens, Bridges teve a compania de um ex-ranger no set de filmagens. A dobradinha com Gil Birmingham é ótima, com um notável respeito e admiração. Constantemente há um alívio cômico por conta da descendência de Alberto (indígena e mexicano) ou por causa da aposentadoria de Marcus. As ofensas são constantes e não fosse pela peculiaridade do personagem, poderia não pegar bem. Um desses momentos é especialmente hilário.

O diretor é David Mackenzie e aqui ele parece realizar o seu melhor trabalho, apoiado no ótimo roteiro de Taylor Sheridan. Para quem não se recorda o roteirista (que faz uma ponta no filme) também foi responsável por escrever o excelente Sicário: Terra de Ninguém. Tal qual o filme de 2015, que tinha em seu mote a investigação de um cartel de drogas na fronteira dos Estados Unidos com o México,  A Qualquer Custo também  possui o deserto e as quentes e vivas paisagens do Texas, com planos abertos que valorizam bastante região. Além é claro do arquétipo rústico dos personagens, inerente a região.

Embalando toda a história, a trilha sonora com a música country (não poderia ser diferente) é ótima e casa perfeitamente com os momentos em que se encaixa. A sensação é de que realmente estamos vivenciando uma espécie de releitura moderna de um western. Em nenhum momento o filme parece desconexo, embora algumas soluções aqui e outra ali sejam um pouco exageradas. Existe também certa demasia no que diz respeito a forma como os moradores locais das cidades por onde os irmãos e os policiais se comportam. Em uma delas, há uma pitoresca senhora que faz da simpatia a sua última característica possível. Em outro momento, no ato final, a valentia é levada ao extremo e há um censo muito grande de honra envolvido. Há situações que mais parecem querer mostrar como as pessoas por lá se comportam.

Com uma história envolvente, A Qualquer Custo é um filme que vai até os limites possíveis, flertando com os dois lados que se separam através da lei. Como a tradução faz questão de enfatizar, as consequências não impedem os atos . Visualmente irretocável e com bons personagens, é notável por combinar todos os seus elementos com competência, mantendo-se ao lado de grandes filmes na briga pelo Oscar desse ano.


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Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...

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