Crítica | Sully – O Herói do Rio Hudson

Contar histórias sob o ponto de vista de homens que realizaram grandes feitos não é uma novidade para Clint Eastwood. Da mesma forma como fez com os recentes American SniperInvictus e J. Edgar, em Sully – O Herói do Rio Hudson, o ato memorável fica por conta do capitão Chesley Sullenberger (Tom Hanks).

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Neste filme é possível observar uma das características mais evidentes do veterano diretor, desenvolvendo com calma o personagem, através de seu conflito emocional pós-traumático. A história contada é bem amarrada, tem um ritmo moderado e com o foco voltado para Sully, com o desenrolar dos acontecimentos que sucederam o pouso forçado no Rio Hudson, quando o experiente piloto conseguiu salvar as 155 pessoas a bordo em Janeiro de 2009. O longa oferece uma estrutura simples, com alguns flashbacks bem encaixados, que não comprometem a linearidade da narrativa, outro aspecto importante na filmografia de Clint.

É necessário destacar que Tom Hanks, com uma boa atuação, consegue transmitir as emoções necessárias inerentes ao personagem. Contido mas visivelmente angustiado pela possibilidade de uma punição, o conflito gerado pela investigação do NTSB (National Transportation Safety Board) se encarrega de colocar o piloto como um herói conforme o filme avança, ao passo que o departamento entra cada vez mais em um processo de vilanização. O roteiro econômico de Todd Komarnick acaba sendo maniqueísta nesse aspecto, conduzindo o espectador através de uma investigação injusta e com um caráter culposo, ao insistir na falha de Sully em não optar em pousar em um aeroporto próximo. É evidente porém a vontade de discutir como os danos financeiros influenciam tal decisão, gerando a necessidade de apontar mais a culpa do que a causa. Porém, a simplicidade que envolve o caso e o lado pessoal do capitão são pontos positivos, sem transformá-lo em um ícone intangível. Em determinado momento, ele faz questão de valorizar o trabalho em equipe, ao passo que em meio ao alívio por estar vivo, preocupava-se de forma genuína em saber a quantidade exata de resgatados.

Se o objeto de estudo em questão torna o filme bastante direcionado, por outro lado os demais personagens acabam sendo explorados de forma rasa. O trio encarregado de realizar os questionamentos ao piloto é burocrático e antipático aos fatos apresentados, tornando o questionamento mais absurdo do que poderia ser. Não se discute que uma investigação seja necessária, pois é importante considerar as variáveis. Porém, nota-se um certo exagero nas intenções de Charles Porter (Mike O’Malley ), Ben Edwards (Jamey Sheridan ) e Elizabeth Davis (Anna Gunn). Quem também acaba sendo mal explorada é a esposa de Sully, Lorraine Sullenberger. A atriz Laura Linney acaba sendo desperdiçada, tendo o papel resumido a conversas telefônicas e as preocupações com o marido e as finanças, embora o tom econômico do filme invista em dar espaço a onipresente figura do piloto. Em relação ao co-piloto Jeff Skiles (Aaron Eckhart), sua participação é mais efetiva e a relação entre os dois é bem crível, sem passar do ponto.

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A sequência grandiosa que retrata o pouso é mostrada de forma bastante eficiente e convence, inquestionavelmente. Mesmo havendo uma pequena subtrama que soa como um cliché, como os passageiros que quase perdem o voo e por “sorte” conseguem uma vaga, um dos méritos do filme é fazer com que a importância dos personagens exista, mesmo sabendo que o final será feliz. Outro grande feito é a capacidade de transitar por ambientes distintos como quartos de hotel melancólicos, locais públicos onde Sully é ovacionado e as próprias investigações, sem ser cansativo. Nesse aspecto, o filme se aproxima demais do fator humano, que é o mote central da história. Todo o questionamento gira em torno das decisões tomadas no calor das emoções e no desespero – que nunca existiu, diga-se – que poderia haver por parte do capitão e seu co-piloto. A letra fria da lei e a leitura robótica dos simuladores exibem de forma explícita o contraponto que o filme aborda a todo instante.

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Todo drama acaba sendo potencializado quando possui um viés biográfico, porém, Sully – O Herói do Rio Hudson consegue ter sensibilidade sem apelar para o excesso. Os poucos 96 minutos de projeção, explicitamente necessários pelo conteúdo enxuto do roteiro, casam com a sobriedade do estilo de Clint, sem fazer com que o filme deixe se ser interessante mesmo com as sequências da queda exibidas de forma insistente sob pontos de vista distintos. O status heróico, sem que isso pareça forçado, também se dá muito por conta da atuação de Tom Hanks e seu humanizado personagem. 3 estrelas e meia

 

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...